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Reflexões sobre consumo de pornografia e saúde mental.

Vamos falar sobre consumo abusivo de pornografia.

Reflexões sobre consumo de pornografia e saúde mental.
Imagem Internet

Bom, estamos em setembro. Sabemos bem o que isso significa no que se refere a discussões sobre saúde mental, uma vez que os meios de comunicação em peso divulgam a campanha "Setembro Amarelo" e toda a questão da prevenção do suicídio - tema complexo, delicado e que toca em aspectos considerados tabu em alguns meios ainda nos dias de hoje. Falar sobre prevenção do suicídio com propriedade e com sensibilidade é absolutamente importante, com facilidade encontramos as estatísticas alarmantes relacionadas a suicídio no Brasil e no mundo, e fica clara a necessidade de promovermos cuidado enquanto sociedade. Hoje vamos falar sobre saúde mental também, mas abordando outras questões. Nosso tópico de hoje também carrega muitos tabus e toca em questões complexas individuais, sociais e culturais. Vamos falar sobre consumo abusivo de pornografia.


Quem nunca consumiu algum tipo de material pornográfico na vida? A pornografia parece ser tão antiga quanto a própria humanidade, mas o que tem acontecido nos últimos anos em relação ao consumo nos convida a abrir os olhos para possíveis consequências. Até há poucos anos atrás, o acesso a esse tipo de material trazia certa dificuldade - uma vez que se limitava a revistas, filmes ou horários muito específicos da TV. Certa logística era necessária caso você não quisesse ser pego. Mas então houveram os adventos da internet e do smartphone, e em 2018 tivemos uma pesquisa  (https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/22-milhoes-de-brasileiros-assumem-con sumir-pornografia-e-76-sao-homens-diz-pesquisa.ghtml) muito interessante que nos informou que cerca de 22 milhões de brasileiros admitem consumir pornografia.


Cabe considerar que em 2018 ainda não havíamos passado por uma pandemia que nos tornou mais reclusos e que a pesquisa foi realizada apenas com pessoas maiores de 18 anos, e estes são aspectos importantíssimos de serem levados em conta. A indústria pornográfica digital está entre gigantes da nossa época, como a Google, CNN e a Netflix, movimentando bilhões de dólares anualmente com milhões de acessos acontecendo todo dia, a todo momento, em todo lugar - do próprio quarto ao banheiro do trabalho. Poucos cliques nos separam de um submundo que cresce a cada dia.




Muito se tem estudado sobre efeitos do consumo de pornografia e muito se tem descoberto sobre isso, prós e contras. Já foi apontado, por exemplo, que casais que consomem pornografia juntos podem se sentir mais abertos a discutir questões relativas à sua vida sexual, como preferências, práticas e fantasias. Muito se fala na pornografia, nesse contexto, como uma facilitadora - eis aqui o famigerado "pra dar uma esquentadinha". Mas esse é apenas um contexto e há outros, muitos outros.


Em termos de saúde mental, muito também tem se falado sobre as alterações em estrutura e funcionamento cerebral relacionadas ao consumo abusivo de pornografia. O consumo frequente afeta o sistema de recompensa cerebral de uma forma muito semelhante ao que se vê no consumo abusivo de álcool ou outras drogas. Mais e mais tempo passa a ser dedicado à procura pela melhor cena, no melhor ângulo. O tipo de conteúdo consumido anteriormente deixa de ser satisfatoriamente estimulante, então inicia-se a busca por outros tipos de práticas numa dinâmica que, potencialmente, pode chegar extremamente longe. Nesse ponto falamos de uma das possíveis consequências de um consumo pesado e frequente: a adicção. Sim, pornografia "vicia" - embora eu não goste do termo "vício" por este reforçar a estigmatização do "viciado".


Diferentemente de uma relação sexual real, a pornografia carece de uma série de elementos ao passo que infla uma série de outros. A grande maioria das cenas ainda é falocêntrica, têm seu ápice na ejaculação masculina, além de muitas vezes oferecerem uma imagem distorcida da realidade das coisas. Partindo desse princípio, torna-se questionável buscar lá algum aprendizado sobre o sexo real, que envolve encontro, troca, toque, algum grau de conexão. Importante observar que um número significativo de pessoas teve sua primeira experiência com pornografia antes dos 18 anos, inclusive algumas dessas ainda na infância - o que é absolutamente preocupante e que os dados da pesquisa realizada no Brasil não mostram. Estamos falando aqui de pessoas em estágios importantes do desenvolvimento físico, psicológico e social, e não é possível esperar um consumo seguro nessas circunstâncias.


As primeiras experiências sexuais de muitas pessoas têm acontecido diante de telas, com imagens minuciosamente editadas e relações distorcidas. E não, não é moralismo, a vida pra imensa maioria das pessoas só não é do jeito que a indústria pornográfica vende. Sou da opinião de que a educação sexual realizada com seriedade, respeito, naturalidade e, principalmente, de uma forma adequada aos diferentes estágios de desenvolvimento cumpriria um papel importante na saúde sexual e na prevenção de violência.




Disfunções sexuais, dificuldades de relacionamento interpessoal, questões associadas à ansiedade e humor, cansaço e diminuição da motivação, baixa autoestima associada à comparações com ideais de corpo, priorização da performance em lugar da espontaneidade, objetificação de mulheres e homens. A lista de problemas relacionados ao consumo de pornografia consegue ser bem extensa. Isso que ainda não falamos sobre os escândalos envolvendo a indústria pornográfica, que não são nada incomuns. Claro que nem todas as pessoas que consomem desenvolverão maiores problemas e que a motivação para o consumo é algo extremamente variável, tanto entre pessoas quanto entre diferentes momentos de vida de uma mesma pessoa. É importante mantermos em mente que a saúde envolve uma série de fatores físicos, psicológicos e sociais, e que o ponto desse texto é problematizar acerca de um fator que, comumente, se torna de risco.


A adicção, o "vício", em material pornográfico virtual é uma realidade pra uma série de pessoas em diferentes estágios da vida e traz consequências significativas na saúde mental e qualidade de vida, tanto dos consumidores quanto de pessoas ao redor deles. Diferentemente das substâncias químicas, cujo consumo muitas vezes envolve algum grau de socialização, o consumo abusivo de pornografia costuma ser mais silencioso e solitário. A dificuldade de pedir ajuda associada ao medo de julgamentos muitas vezes acaba se tornando uma barreira difícil de ser superada - muito apesar de a superação desta barreira ser de extrema importância na busca por um tratamento. Romper esse silêncio é um ato por vezes difícil mas é o primeiro passo em direção a outras possibilidades de vida.


Converse.

Estendamos as mãos uns aos outros.


Referências:

Ferreira RMC, Santos MS. Dos efeitos à constatação dos usos da pornografia pela audiência. Intercom, Rev Bras Ciênc Comun [Internet]. 2023. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/interc/a/5RTBZPhQWsNTrnBxHbfbDrn/  de 06/09/2024.


22 milhões de brasileiros assumem consumir pornografia e 76% são homens, diz

pesquisa. G1. 17 de maio de 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/22-milhoes-de-brasileiros-assumem-consumir-pornografia-e-76-sao-homens-diz-pesquisa.ghtml de 06/09/2024.


por

Igor Jeske

Psicólogo

Músico

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