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Tocando Agora:

36 anos sem Cazuza

A Saudade de quem Nunca Deixou de Estar Vivo

36 anos sem Cazuza
Foto: Sociedade Viva Cazuza/Divulgação

Já se passaram 36 anos desde que sua voz silenciou, em 7 de julho de 1990. Trinta e seis anos de ausência que, curiosamente, nunca conseguiram apagar sua presença. Porque Cazuza continua acontecendo. Cazuza é um acontecimento. Continua sendo cantado nos bares, nos carros, nos quartos de adolescentes que sequer haviam nascido quando ele partiu.


Continua sendo descoberto por novas gerações que encontram em suas letras a coragem que falta ao mundo. Ele vive.


Vive quando alguém grita que "o tempo não para". Vive quando um apaixonado tenta explicar um sentimento impossível através de "Exagerado". Vive quando alguém, cansado da hipocrisia, encontra em suas músicas um grito de liberdade.


Cazuza nunca escreveu apenas canções. Escreveu confissões. Transformou dores em poesia, amores em versos e revoltas em hinos. Não tinha medo de parecer frágil. Pelo contrário: fez da vulnerabilidade uma forma de resistência. Em uma sociedade que exigia máscaras, ele escolheu mostrar as cicatrizes. Foi intenso em tudo. Amou demais. Sofreu demais. Viveu demais. Talvez por isso tenha vivido tão pouco.


Sua luta contra a AIDS também ajudou a mudar o Brasil. Em uma época marcada pelo preconceito, pelo medo e pelo silêncio, Cazuza expôs sua própria fragilidade diante das câmeras. Não para provocar pena, mas para mostrar que a doença não apagava sua humanidade. Sua coragem ajudou a romper tabus e deu rosto a milhares de pessoas invisibilizadas pelo preconceito.


Ele nunca pediu licença para existir. Enfrentou governos, enfrentou a moral conservadora, enfrentou a imprensa e enfrentou a própria morte com uma dignidade rara. Até seus últimos dias, continuou sendo poeta. Continuou sendo provocação. Continuou sendo verdade.


Trinta e seis anos depois, percebemos que Cazuza não envelheceu. Porque suas canções continuam falando de um país desigual, de amores líquidos, de sonhos interrompidos, de juventudes inquietas e da eterna necessidade de desafiar o poder. O Brasil mudou. Mas, em muitos aspectos, continua sendo o mesmo que inspirou suas letras.


E talvez seja exatamente por isso que ele ainda faça tanta falta. Faltam artistas dispostos a dizer o que pensam sem calcular consequências. Falta alguém que transforme indignação em arte sem perder a delicadeza da poesia. Falta quem cante sobre amor sem vergonha de parecer vulnerável.


Hoje, 36 anos depois, a saudade não é apenas de um cantor extraordinário. É de uma forma de fazer arte com alma, com coragem e com absoluta sinceridade. Cazuza foi embora cedo demais.


Mas existem pessoas que derrotam a morte de um jeito que ela nunca consegue compreender. Enquanto houver alguém cantando suas músicas, descobrindo seus versos pela primeira vez ou encontrando abrigo em suas palavras, Cazuza continuará vivo.


Porque alguns artistas deixam discos. Cazuza deixou um pedaço de si dentro de cada um de nós.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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