cover
Tocando Agora:

Julho das Pretas: Por Que Essa Data Importa Para Todas e Todos Nós?

[...] O ponto alto desse movimento acontece no dia 25 de julho, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha e, em território nacional, o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra.

Julho das Pretas: Por Que Essa Data Importa Para Todas e Todos Nós?
Imagem Divulgação

O mês de julho carrega uma força única. Ele não é apenas mais uma página no calendário; é um período de celebração, reflexão e, acima de tudo, de escuta. Estou falando do Julho das Pretas, uma ação coletiva e nacional que dá visibilidade à luta, às conquistas e às pautas das mulheres negras no Brasil. O ponto alto desse movimento acontece no dia 25 de julho, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha e, em território nacional, o Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra. Mas por que essa data é tão crucial? E mais: por que a branquitude (as pessoas brancas) também precisa se envolver ativamente nesse chamado?


A origem da data remonta a 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, durante o I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe. Ali, mulheres de diversos países se uniram para denunciar a dupla jornada de opressão que enfrentavam: o machismo e o racismo. No Brasil, a data também ganha o nome de Teresa de Benguela, uma grande líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê no século XVIII, resistindo bravamente à escravidão por décadas.


Para compreender a real dimensão e a urgência dessa luta em nosso continente, vale olhar para os números oficiais. De acordo com os dados da rodada de censos nacionais de 2010, mencionados no documento “Mulheres afrodescendentes na América Latina e no Caribe” que foi publicado em 2018 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e pelas Nações Unidas, o Brasil é o país com a maior porcentagem de população afrodescendente na América Latina e no Caribe, com um expressivo número de 50,9%. Nosso país é seguido por Cuba (35,9%), Porto Rico (14,8%), Colômbia (10,5%), Panamá (8,8%), Costa Rica (7,8%) e Equador (7,2%), enquanto as demais nações da região apresentam porcentagens abaixo de 5%. Esse mesmo documento da Cepal destaca um ponto de alerta fundamental: a situação atual das mulheres afrodescendentes na região revela que ainda existem profundas desigualdades em relação a outros grupos sociais.


É justamente para combater essas disparidades históricas que o Julho das Pretas se faz tão necessário. Ele atua em três frentes principais: traz liderança e visibilidade, colocando as mulheres negras no centro do debate público para pautar a política, a saúde, a cultura e a educação; promove o combate às desigualdades, servindo como ferramenta de cobrança por ações concretas contra a violência doméstica, o feminicídio e a disparidade salarial que ainda as afetam majoritariamente; e celebra a existência, sendo uma explosão de arte, literatura, afeto e resgate da ancestralidade.


Diante desse cenário, surge um ponto essencial: o papel da branquitude. Muitas vezes, pensa-se que o Julho das Pretas é um momento exclusivo para a população negra. No entanto, o racismo é um problema estrutural criado e mantido historicamente pela branquitude, portanto, desfazê-lo também é uma responsabilidade dela. Para as pessoas brancas, estar presente nessa mobilização não significa "roubar o protagonismo", mas sim adotar uma postura de escuta atenta, respeito e aliança prática.


Essa participação se dá, primeiramente, no reconhecimento de privilégios estruturais, entendendo que a cor da pele branca confere vantagens automáticas em uma sociedade desigual, transformando essa percepção em responsabilidade social e não em culpa. Em segundo lugar, acontece ao escutar e amplificar vozes negras, consumindo livros de autoras negras, apoiando artistas e compartilhando suas ideias sem interrupções. Por fim, materializa-se no agir nos próprios espaços, cobrando ativamente a diversidade nas empresas, indicando mulheres negras para cargos de liderança e combatendo com firmeza atitudes ou comentários racistas em círculos sociais majoritariamente brancos.


Celebrar o Julho das Pretas e o 25 de julho é compreender, de uma vez por todas, que uma sociedade só será verdadeiramente democrática, justa e igualitária quando a mulher negra estiver segura, valorizada e ocupando todos os espaços de poder por direito. A luta por dignidade não é solitária: ela convida todas e todos nós a caminharmos lado a lado.







Por Roberta Luzzardi


Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,

da Educação Pública e da Agroecologia.

Comentários (0)