Incoerência Política: Quando a Narrativa Não Resiste Aos Fatos
As caras do PL pelo Brasil...
Todo partido político tenta construir uma identidade. Uns preferem ser reconhecidos pela defesa de determinadas pautas econômicas, outros por programas sociais, alguns pela agenda ambiental. O Partido Liberal (PL), entretanto, vive um momento em que sua imagem pública parece ser cada vez mais moldada por uma sucessão de escândalos envolvendo pessoas ligadas à sua legenda.
Nos últimos dias, o país assistiu à prisão de um pastor evangélico filiado ao partido, acusado de cometer estupros contra bebês — um crime tão brutal que desafia qualquer capacidade de compreensão humana. Ao mesmo tempo, ganhou repercussão nacional o caso da vereadora Eva Coelho, de Santana do Livramento no Rio Grande do Sul, também filiada ao PL, investigada após a divulgação de vídeos em que agride animais, provocando indignação entre defensores da causa animal e parte expressiva da opinião pública.
Como se isso não bastasse, Santa Catarina — um dos principais redutos eleitorais do bolsonarismo e do PL — continua acumulando um número expressivo de prefeitos presos em operações contra corrupção. Levantamentos divulgados ao longo dos últimos anos mostram que dezenas de gestores municipais catarinenses foram presos por suspeitas de crimes contra a administração pública, pertencendo a diferentes partidos, entre eles o PL, legenda que figura entre as que mais administram municípios no estado.
E agora temos o escândalo mais recente envolvendo Valdemar Costa Neto, presidente do partido, que teve seus bens bloqueados, em um valor estimado em 119,2 milhões de reais. O pedido da Policia Federal baseia-se na suspeita que o ex-parlamentar controlava a indicação de emendas parlamentares da Câmara de Deputados com a ajudar de servirdores da Casa.
É evidente que nenhum partido pode ser responsabilizado automaticamente pelos crimes cometidos por seus filiados. A responsabilidade penal é sempre individual. Mas a responsabilidade política é outra história. Quando uma legenda faz da moralidade, da defesa da família, dos bons costumes, da honestidade e da ética seu principal discurso eleitoral, ela inevitavelmente passa a ser cobrada pelos exemplos que surgem dentro de seus próprios quadros.
O eleitor tem o direito de perguntar: quais critérios são utilizados para selecionar candidatos? Há mecanismos internos de fiscalização? Existem consequências políticas para quem envergonha a legenda ou tudo depende apenas do desgaste na imprensa?
A questão se torna ainda mais delicada porque o PL construiu boa parte de sua força eleitoral apresentando-se como contraponto à corrupção e à decadência moral da política brasileira. Esse discurso deveria ter criado um padrão de exigência muito maior para seus próprios integrantes.
No entanto, não se trata de afirmar que o PL seja um partido formado por criminosos. Seria uma generalização injusta e incompatível com os princípios do debate democrático. O problema é outro: quando episódios extremamente graves passam a se repetir envolvendo filiados de uma mesma legenda. A pergunta, portanto, não é apenas quem são essas pessoas. A pergunta é qual ambiente político permite que elas ocupem espaço, disputem eleições e representem milhões de brasileiros.
Nenhum partido está imune a escândalos. A história recente mostra casos de corrupção, violência e abuso em praticamente todas as grandes legendas brasileiras. A diferença está na coerência entre discurso e prática. Se um partido se apresenta como o guardião da ética, da família e dos valores cristãos, precisa demonstrar que esses princípios existem também dentro de casa. Caso contrário, corre o risco de transformar bandeiras morais em simples slogans eleitorais. O que neste caso ocorre indubitavelmente.
A verdadeira identidade de um partido não é construída pelos discursos de campanha nem pelas palavras de seus líderes. Ela aparece nas escolhas que faz, nos candidatos que lança, nos aliados que protege e, principalmente, na forma como reage quando seus próprios integrantes cruzam os limites da lei ou da civilidade. É essa coerência — e não apenas a retórica — que acaba definindo, aos olhos da sociedade, a verdadeira cara de qualquer partido político. Cadê a coerência?
Jeff Soares

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