Uma Ética da Delicadeza
Riso, Hospitalidade e Transcendência
Como construir formas de convivência em que a inteligibilidade do outro não dependa de sua redução? Essa é uma pergunta estética, política e ética ao mesmo tempo, e que me faço, agora lhes faço também, sobre o mundo contemporâneo e as dinâmicas dos movimentos sociais e políticos no Brasil contemporâneo. Ela desloca o foco do simples Direito à Diferença para algo mais exigente: o direito de cada pessoa permanecer complexa, misteriosa, contraditória e imprevisível sem que isso a exclua do espaço comum, do con-viver (ah, como é difícil, diria Quintana!). A essa pergunta que venho formulando acerca do ethos social brasileiro aprecio-a pelos pontos de vista da literatura, particularmente de João Guimarães Rosa: as práticas sociais da vida pública e da vida em cidades refletidas a partir de um ideal literário de república nacional.
Uma cidade também pode caricaturar seus habitantes, reduzindo grupos inteiros a estereótipos: o negro do folclore, o imigrante trabalhador, o pobre perigoso, o intelectual excêntrico, o artista boêmio. Uma cidade, ideal e imaginada, deve sempre se comprometer com a justiça e resistir a essas simplificações, produzindo narrativas capazes de devolver espessura e densidades às vidas, dignidade e direitos. Tomemos o riso como exemplo, o Humor, as formas do cômico.
Nas sociedades brasileiras, urbanas, particularmente naquelas cidades enraizadas no Brasil setecentista, colonial, monarquista, é comum temas socialmente delicados serem tratados com humor, mas por um tipo de Humor apreciado pelo Teatro de Comédia Pastelão, Humor que nasce de algo que elas interpretam nesse outro, nessa alteridade e diferença, como um defeito sem lugar, anomalia, como chiste em termos freudianos, pitoresco, exótico. Nessas sociabilidades, esse outro cabe apenas como caricatura social, fetiche, animador de auditório, chacota, escárnio.
Na república literária de Guimarães Rosa, esse mesmo outro social, é delicadamente tratado por outra perspectiva filosófica (e poética) do Humor, outra ética do riso, uma Ética da Delicadeza. E ele não caminha sozinho, já que integra uma longa tradição do Humor, uma constelação na qual também estão o Malazartes, Mário de Andrade, Macunaíma, O Till Ulenspiegel da picaresca renascentista alemã ou sua versão feita pelo Grupo Galpão em Till, a Saga do Herói Torto, a Sátira Menipéia, Françoais Rabelais, Bakhtin, a nouvelle vague francesa e japonesa (Os Brutos Também Comem Espaguete), as Cosmicômicas de Ítalo Calvino, o Bufão em contraponto ao Clown.
Nem sempre o Humor, como forma de suavizar a interação social envolvendo temas socialmente delicados, tabus, ainda que destituídos de má-fé nessas estratégias de interação social mediadas pelo riso, alcança o esperado. Ao contrário, a depender do Humor, há quem resolva dar cabo da vida, pela recusa de ocupar esses lugares-caricatos onde a aproximação precisa de “suavizações”, um Humor que mais ridiculariza do que civiliza, emancipa, permanecendo parte de uma Respública que é no real, Resprivada, excludente. O Brasil real ainda sem lugar nessa república concreta já foi com radicalidade e horizontalidade, respeito às diversidades e respeito ao bem-viver, republicanizados, aconteceu ali cidadania, ainda que pela via da ficção. Mas a ficção reflete o real, até mesmo pelo que ficou de fora.
Nem todo Humor produz o mesmo efeito ético. Há humores que organizam a comunidade pela exclusão, e há humores que organizam a comunidade pela hospitalidade. O primeiro ri de alguém. O segundo ri com a condição humana. A tradição de Guimarães Rosa pertence majoritariamente a esse segundo campo. Em Guimarães Rosa o riso quase nunca nasce da inferioridade da personagem. Ri-se da precariedade da existência, da inteligência improvisada diante do impossível, das inversões do destino. Ri-se porque a vida é excessiva, extraordinária. Riobaldo, por exemplo, nunca é uma caricatura, quando diz algo profundamente contraditório, um paradoxo, nós sorrimos porque reconhecemos nossa própria contradição. Em Tutaméia também é assim.
O mesmo vale para Malazartes. Ele não faz rir porque seja um idiota. Faz rir porque desmonta, por astúcia, uma ordem social que se pretendia natural. Macunaíma também não é engraçado por ser defeituoso. Seu corpo contraditório, sua preguiça, sua metamorfose revelam as fissuras do projeto civilizatório brasileiro. Till Ulenspiegel percorre exatamente esse mesmo caminho, ele é o bobo mais inteligente e esperto que os sábios, porque enxerga aquilo que a ordem não consegue admitir.
Bakhtin oferece a melhor chave teórica para o problema em revista. No carnaval medieval, segundo ele, o riso não elimina ninguém da comunidade. Pelo contrário, ele suspende provisoriamente as hierarquias para lembrar que todos participam da mesma condição corporal, mortal, imperfeita. Esse é um riso profundamente democrático e muito diferente do que hoje muitas vezes se convencionou chamar humor, riso, cômico.
Há também um tipo de Humor contemporâneo (especialmente televisivo, radiofônico e parte do Humor de internet) cuja mecânica é simples: encontra-se um grupo vulnerável, exagera-se um traço, transforma-se esse traço em identidade, produz-se pertencimento entre os espectadores pela exclusão daquele grupo. E pronto! É possível uma interpretação das personagens Crô e Tereza, de novela global nessa clave social-midiática, refletindo um ‘ideal’ de humano, ainda que pela caricatura. Tereza figura a socialite que tem seu BBF de estimação, seu chaveirinho, seu alterego estendido.
Nesse caso, o riso funciona como polícia social. Ele diz: Nós somos os normais. Eles são os engraçados. A graça depende de que alguém permaneça ocupando esse lugar de caricatura. Sem esse alguém, esvaziam-se a força, a forma e os sentidos desse Humor Conservador, mesmo quando parece irreverente. Há pessoas que preferem desaparecer a permanecer ocupando o lugar social reservado por esse tipo de Humor. Essa questão tem enorme densidade antropológica, porque muitas vezes o sofrimento não nasce apenas da violência direta, nasce da impossibilidade de existir fora da caricatura.
Quando toda aproximação social exige que alguém aceite ser o engraçado, o estranho, o problemático, o louco, o afeminado, o caipira, o preto engraçado, o gordo de estimação, o intelectual ridículo, o religioso fanático, a bicha escandalosa, o militante guerrilheiro, enfim, quando o ingresso na comunidade depende da auto humilhação ritualizada, essa comunidade já perdeu parte de sua dimensão republicana, civilizada. É justamente aí que Rosa oferece outro caminho.
Os rituais públicos como os de humilhação têm lastros muito anteriores à Roma dos tempos da arena do Coliseu, muito mais antigos, antes mesmo da invenção da escrita. E essa mesma lógica, muito antiga, ainda organiza grupos no presente, identidades, pertencimentos, exclusões, etc.
O humor rosiano nasce da linguagem, não da inferiorização. A própria língua tropeça. As palavras escorregam. Os conceitos ficam tortos. O leitor sorri porque percebe que o mundo é maior que qualquer gramática. Em Ítalo Calvino acontece algo semelhante. Sua leveza nunca é superficial, ela torna suportável aquilo que seria insuportável se narrado de modo pesado. A Leveza é um método cognitivo, não uma fuga. A Sátira Menipeia também é muito interessante porque desloca completamente o alvo, ela ridiculariza sistemas de pensamento, certezas, dogmas, pretensões filosóficas, nunca os indivíduos vulneráveis. Mesmo Rabelais, frequentemente lembrado apenas pelo grotesco, constrói um corpo exuberante que devolve dignidade à materialidade da existência, seu riso não separa espírito e carne, ele celebra ambos.

Assim, existem 2 regimes de Humor: a) da hospitalidade, que ri da condição humana, produz conhecimentos, suspende hierarquias, compartilha fragilidades, permite metamorfoses, o devir; e b) da exclusão, que ri da diferença, produz vergonha e humilhação, reforça hierarquias, identifica culpados, congela identidades, desumaniza.
Uma cidade também possui regimes de humor...
Existem cidades onde determinadas pessoas só aparecem como folclore, noutras apenas como ameaça, outras apenas como estatística. Poucas conseguem produzir uma imaginação pública em que todos possam ser simultaneamente sérios e engraçados. Esse talvez seja um componente pouco estudado ainda em termos de justiça social e paz, dignidade humana. É preciso preservar modos de rir, construir uma ecologia do riso, eles também figuram patrimônios vivos, imateriais, transmissíveis. Uma sociedade democrática não elimina o humor, ela transforma seu objeto. O alvo deixa de ser a existência das diferenças e passa a ser a arrogância do poder, a rigidez das normas, os automatismos da linguagem, as ilusões do progresso, as vaidades intelectuais, as burocracias absurdas, os próprios limites da razão.
Em vez de perguntar de quem estamos rindo a pergunta seria o que este riso torna possível no Mundo e no viver em sociedade? Se a resposta for tornar possível que mais pessoas habitem o mundo sem vergonha de existir e de ser, estamos diante de um Humor Emancipador. Se a resposta for tornar suportável a exclusão de alguém, estamos diante de um Humor Disciplinador.
Uma afinidade entre essa reflexão e o horizonte do bem viver. O Humor, compreendido como um bem comum, uma prática relacional que fortalece vínculos sem exigir que alguém pague o preço da própria dignidade para que os outros se divirtam, é um valor inestimável. Nesse sentido, o riso deixa de ser um mecanismo de seleção social e se torna uma forma de inteligência coletiva, ele ajuda a enfrentar o trágico sem transformar pessoas em alvos.
Daí nasce uma Ética da Delicadeza, um modo de tocar assuntos difíceis (morte, desejo, racismo, memória, velhice, calvice, exclusão, espiritualidade, gênero, etc.) sem recorrer à crueldade. Em vez do Humor que faz alguém caber apenas como caricatura, seria um Humor que amplia o espaço do comum, permitindo que todos caibam como sujeitos plenos. Essa tradição, que vai de Rabelais e da sátira menipeia a Rosa, Calvino e tantos narradores populares, como nas feiras e cordéis do nordeste, oferece um repertório poderoso para imaginar um riso verdadeiramente republicano, um riso que não diminui ninguém para que a comunidade se sinta maior.
Pessoalmente, precisei viajar para fora do Brasil para entender o riso da sociabilidade geral, comum, nacional (que destoa dessa Ética da Delicadeza rosiana com a qual eu me afino muito). E também precisei viajar pela literatura até conhecer Rabelais, e a partir dali entender que um outro Humor e uma nova ética eram possíveis, existiam, e que todo brasileiro como direito constitucional poderia conhecer ao menos 1 país em cada continente, viajar, sair de si e do lugar, deslocar-se, como nos cursos de geografia do Canadá, quem sabe pelo deslocamento desloque a mente, a mentalidade. E ainda, numa camada pessoal, profissional, acompanhando o mundo dos palcos desde a adolescência, por ser quem sou e me tornei, desenvolvi essa percepção sobre essas sociabilidades mediadas pela caricatura do outro diferente, recusando-me também a ser caricaturizado para caber no mundo de pessoas que só assim “dão” espaço, afinal, no espaço do mundo, da vida social, sempre estivemos todos. Um deslocamento no geográfico, no literário e no ético.
O geográfico foi a viagem para fora do Brasil. Muitas pessoas relatam que só conseguem perceber traços profundos da própria cultura quando a confrontam com outra. Não necessariamente porque a outra seja melhor, mas porque torna visível aquilo que antes parecia natural. O modo de rir, o modo de conversar, o grau de ironia, o lugar da brincadeira e do constrangimento são aspectos culturais muito mais variados do que costumamos imaginar.
O deslocamento literário foi encontrar Rabelais, Bakhtin, Rosa, Calvino, Till Ulenspiegel, Grupo Galpão, Malazartes, Mário de Andrade, Macunaíma, o cinema japonês e francês, o cordel do nordeste. Eles oferecem um repertório no qual o Humor não depende da produção de um “outro inferior” para existir. Em muitos desses autores, o riso revela a complexidade do mundo, desmonta certezas, humaniza o excesso, desafia o poder ou acolhe a ambiguidade. O terceiro deslocamento talvez seja o mais importante: o ético, a recusa de ser caricaturizado para caber no mundo.
Não é apenas uma experiência individual, as questões que emergem daí tocam um mecanismo social bastante difundido. Em muitos ambientes, existe uma expectativa implícita de que determinadas pessoas ocupem papéis reconhecíveis e simplificados. A caricatura funciona como uma forma de tornar o outro previsível e, portanto, mais fácil de integrar, mas ao custo de reduzir sua complexidade.
É diferente de dizer que isso caracteriza o Brasil como um todo. Há tradições brasileiras de Humor profundamente sofisticadas e acolhedoras, assim como há formas de Humor excludentes em muitos outros países. O que descrevo são experiências recorrentes em certos contextos sociais brasileiros, e que, ao menos como interpreto, ficaram mais evidente justamente quando pude compará-las com as práticas de outros lugares e outras tradições culturais.
Viajar como uma experiência constitucional de cidadania como um ideal civilizatório não é uma proposta política, literalmente obrigatória, apenas uma intuição, sendo geógrafo desde criança, sugestão que também está presente em diferentes tradições filosóficas, ou seja, ninguém conhece verdadeiramente sua própria cultura permanecendo apenas dentro dela. Viajar não é apenas consumir paisagens, é experimentar a relatividade dos próprios hábitos. Quem já leu Siddharta de Herman Hess?
Uma democracia madura não forma apenas cidadãos informados, forma cidadãos deslocados, no melhor sentido da palavra. Pessoas capazes de sair de seu horizonte habitual para retornar a ele menos dogmáticas, mais curiosas e mais hospitaleiras. O mesmo vale para a literatura. Ler Rabelais, Rosa ou Calvino é também viajar. São formas de exílio temporário. Você, quando retorna, retorna diferente. Assim como uma cidade precisa de múltiplas camadas históricas para não se tornar monocromática, uma pessoa precisa de múltiplas camadas culturais para não tomar seu próprio costume como natureza. Viajar, nesse sentido, é produzir um palimpsesto da sensibilidade. A literatura faz o mesmo, ela acrescenta camadas de percepção. O costume como natureza petrifica na força da Górgona.
Na ética rosiana há uma recusa da simplificação das pessoas, o Humor nasce da linguagem e da condição humana, e não da humilhação, reconhecimento da ambiguidade moral, curiosidade genuína pelo outro, capacidade de encontrar beleza e inteligência onde a ordem social enxerga apenas periferia ou desvio. Essa ética é profundamente incompatível com a caricatura, porque a caricatura elimina justamente aquilo que Rosa mais preserva, o mistério da pessoa.
Inventei um conceito, um neologismo. Riamente, aquele que mente e faz disso razão de riso. Riamente funciona porque condensa dois movimentos simultâneos: o riso e mente (como verbo mentir e como modo de ação). Há aí uma ambiguidade fértil. À primeira vista, um advérbio comum como alegremente ou livremente, mas, em sua definição o neologismo revela outra composição: ri + mente. Um verbete à maneira rosiana. Riamente seria um modo de produzir riso pela mentira deliberada, prática de inventar, distorcer ou fabricar narrativas cuja finalidade principal é provocar graça, ridicularização ou adesão social. Riamente diferencia-se da ficção porque não suspende o pacto com a verdade, mas o corrompe em benefício do riso. Riamente é a conversão da mentira em tecnologia de sociabilidade.
Rosa inventa para ampliar o real. Rabelais exagera para revelar o humano. Macunaíma fabula para desmontar mitos nacionais. O Riamente seria uma invenção para capturar alguém numa caricatura. A mentira deixa de ser um acidente moral e passa a ser um mecanismo de integração do grupo. Todos riem, menos aquele que virou o objeto da invenção, caricatura.
Pessoas que fabricam biografias atribuem comportamentos, inventam relações ou intenções e, quando a pessoa recusa essa narrativa feita de si, a reação de quem representa não é reconhecer o erro, mas tratá-la como alguém sem humor. Nessa dinâmica, o problema não é apenas a mentira, é a expectativa de que o alvo participe da própria caricaturização para que a interação social continue fluindo. Riamente nomeia exatamente esse mecanismo, é diferente da ironia, da sátira e da paródia. Se a ironia aponta contradições no discurso pelo tensionamento da verdade; se a sátira exagera para revelação de costumes, vícios, o poder; se a paródia faz uma reinterpretação noutra linguagem de uma obra; o riamente é quem mente para produzir riso sobre uma pessoa e situação.
Riamente não é uma condenação de toda invenção humorística, identifica um caso específico, quando a mentira deixa de ser recurso poético e passa a ser instrumento de redução da pessoa humana. Se na fabulação inventamos para ampliar o mundo, o mundo inventado pelo riamente existe para estreitar o lugar social desse outro, da diferença.
Essa distinção pode e tem força crítica não apenas para pensar o Humor, mas também fenômenos contemporâneos como Boatos, Fakenews, Memes difamatórios, certas formas de desinformação que circulam menos para convencer do que para divertir um grupo às custas da reputação de alguém. A desinformação organiza pelo riso a sociedade do espetáculo. Nesse sentido, Riamente nomeia não apenas uma mentira que faz rir, mas uma mentira cuja eficácia depende de transformar uma pessoa em personagem involuntário de uma comédia que ela nunca escolheu representar.
Encerro com um poema autoral, filósofopolítico, que escrevi em homenagem a Osman Lins e Guimarães Rosa.
CoraçãoMENTE,

Fábio Brasileiro

Geógrafo, Ensaísta, Artista e Pesquisador
do Campo do Patrimônio Cultural Negro
Contato - fabioborgesbrasileiro@gmail.com
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