Racismo na Copa do Mundo e a Hipocrisia do Futebol
Mbappé é alvo preferencial do ódio.
A Copa do Mundo de 2026 deveria ser a maior celebração do esporte. Em vez disso, mais uma vez, tornou-se palco de uma das faces mais vergonhosas da sociedade: o racismo. A cada partida decisiva, cresce também a onda de ataques racistas nas arquibancadas e, principalmente, nas redes sociais, tendo como principal alvo o atacante francês Kylian Mbappé.
O camisa 10 da França, um dos maiores jogadores de sua geração, vem sendo alvo de insultos racistas, comparações desumanizantes e mensagens de ódio que ultrapassam qualquer rivalidade esportiva. O que acontece com Mbappé é a repetição de um roteiro conhecido: negros não podem ocupar espaços de destaque.
É um comportamento que revela uma contradição profunda do futebol moderno. Clubes, federações e patrocinadores estampam campanhas contra a discriminação em telões, uniformes e comerciais milionários. Antes das partidas, jogadores fazem gestos simbólicos, enquanto slogans como "No Racism" são exibidos para bilhões de espectadores. Mas basta a bola rolar para que os mesmos discursos desapareçam diante da enxurrada de ofensas racistas que circulam livremente na internet e, em alguns casos, ecoam até mesmo nos estádios.
A Copa de 2026 amplia este problema estrutural. As redes sociais transformaram o anonimato em escudo para os racistas. O algoritmo potencializa o alcance dessas mensagens, enquanto as plataformas, frequentemente, demoram a agir ou simplesmente removem conteúdos sem responsabilizar seus autores.
Mbappé tornou-se um símbolo desse fenômeno justamente porque reúne tudo aquilo que o racismo histórico não suporta: talento, sucesso, liderança e protagonismo. Filho de imigrantes, campeão mundial e referência para milhões de jovens, ele representa uma França multicultural que setores extremistas insistem em rejeitar. Quando o atacante é atacado por sua cor de pele, não está sendo apenas um jogador que sofre violência. É uma mensagem dirigida a todos os negros que ousam ocupar espaços de destaque.
O mais preocupante é perceber que esses ataques já não causam o espanto que deveriam. Tudo é tratado como normal e o silêncio de atletas como Leonel Messi são inaceitáveis visto que as ondas mais perigosas de racismo vem exatamente da torcida argentina. Não existe "calor do jogo" capaz de justificar manifestações racistas. Não existe paixão esportiva que transforme discriminação em opinião. Então, porque o silêncio?
O futebol movimenta bilhões de dólares por temporada. Possui tecnologia para identificar impedimentos em poucos centímetros, monitorar cada toque na bola e analisar dezenas de câmeras simultaneamente. Mas ainda demonstra enorme dificuldade em identificar e banir, de forma definitiva, aqueles que utilizam o esporte como palco para disseminar ódio racial. Não basta promover campanhas publicitárias quando é conveniente. É preciso responsabilizar criminalmente os agressores, endurecer punições esportivas e exigir que as plataformas digitais cooperem efetivamente na identificação dos autores.
Se a Copa do Mundo pretende realmente representar a união entre povos e culturas, combater o racismo precisa deixar de ser um slogan para se tornar uma prioridade concreta. Porque nenhuma taça vale mais do que a dignidade humana. E enquanto jogadores forem julgados pela cor da pele antes do talento, o futebol continuará perdendo sua partida mais importante.
Jeff Soares

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