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Bandas de Rock Desconhecidas, Cachês Milionários: Cultura de São Paulo Sob Suspeita

Contratos da Prefeitura viram alvo de investigação!

Bandas de Rock Desconhecidas, Cachês Milionários: Cultura de São Paulo Sob Suspeita
Imagem Chat Gpt

Uma série de contratações realizadas pela Prefeitura de São Paulo para apresentações musicais colocou a política cultural do município no centro de uma nova polêmica. Quatro bandas de rock formadas recentemente, sem carreira consolidada, repertório autoral ou reconhecimento expressivo do público, receberam juntas mais de R$ 2,3 milhões em cachês pagos com recursos públicos ao longo dos últimos 15 meses. O caso já motivou investigações do Tribunal de Contas do Município (TCM) e da Controladoria Geral do Município (CGM).


Entre os grupos citados estão MotorRockBr, Black Tie, Rockfun Legends e Névula. Segundo a investigação jornalística que revelou o caso, as quatro bandas foram criadas entre 2023 e 2024, dedicam-se principalmente à execução de músicas cover e possuem baixa presença nas redes sociais. Mesmo assim, passaram a ser contratadas pela Secretaria Municipal de Cultura como se fossem artistas de reconhecimento consolidado, condição que permite pagamentos muito superiores aos previstos na tabela de referência do município. 


O caso que mais chama atenção é o da MotorRockBr. A banda, que reúne pouco mais de 300 seguidores em redes sociais, recebeu aproximadamente R$ 828 mil por 30 apresentações, com cachês de cerca de R$ 30 mil por show — valor comparável ao pago a artistas nacionais de grande projeção e mais de quatro vezes superior ao recomendado para grupos do mesmo porte pela tabela da Secretaria Municipal de Cultura.


Produção  Suspeita

As investigações apontam que as quatro bandas possuem ligação com o produtor Fabrício Raveli, responsável também pelo festival Rock FunFest e pela agência J7, anteriormente chamada Agência RVL. Segundo a apuração, documentos utilizados para comprovar a suposta "consagração artística" das bandas incluíam notas fiscais referentes a eventos corporativos organizados por empresas ligadas ao próprio círculo de negócios do produtor. 


Auditores do Tribunal de Contas identificaram indícios de que a documentação apresentada para justificar os cachês elevados era composta por material produzido pelas próprias agências das bandas, além da ausência de elementos que demonstrassem efetivamente a notoriedade pública exigida pela legislação para esse tipo de contratação direta. 


Outro ponto que despertou atenção dos órgãos de controle envolve a estrutura da São Paulo Turismo (SPTuris). A investigação revelou que Rodrigo Raveli, irmão de Fabrício Raveli, ocupava a gerência de eventos da empresa municipal responsável por parte da organização dos espetáculos. Os irmãos Raveli são sobrinhos de Élcita Raveli, assessora do presidente do Tribunal de Contas do Município, Domingos Dissei, fato que passou a integrar o conjunto de informações analisadas pelos órgãos responsáveis pela apuração. 


Shows Sem Divulgação e Questionamentos

A investigação relata apresentações realizadas em horários considerados incomuns e com pouca ou nenhuma divulgação prévia, incluindo shows em estações de metrô e centros culturais municipais. Em alguns casos, auditores também apontaram dificuldade para localizar registros públicos que comprovassem a realização dos eventos da forma como foram contratados. 


As suspeitas vão além do valor dos cachês. Especialistas em gestão cultural afirmam que a legislação permite a contratação direta apenas quando o artista possui reconhecimento comprovado pela crítica especializada ou pelo público. Quando esse requisito não existe, o procedimento adequado costuma ser o chamamento público ou a adoção dos valores previstos nas tabelas oficiais. 


O Que Diz À Prefeitura?

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que determinou o afastamento de Rodrigo Raveli enquanto a Controladoria Geral do Município realiza a apuração administrativa. A administração municipal afirma colaborar com os órgãos de fiscalização e sustenta que os procedimentos serão analisados internamente para verificar eventual irregularidade. 


Cultura Sob Suspeita

O episódio levanta novamente a falta de transparência na aplicação de recursos públicos destinados à cultura em SP, principalmente depois do escândalo Dark Horse e a produtora Go Up de Karina Ferreira Gama e suas ligações com a gestão de Ricardo Nunes.


O problema não está no incentivo a artistas independentes — política essencial para fortalecer a produção cultural brasileira —, mas na possibilidade de que mecanismos criados para valorizar a diversidade artística sejam utilizados para beneficiar grupos específicos sem critérios objetivos. Se as irregularidades forem confirmadas, o caso será mais um episódio de má gestão de recursos públicos e também um golpe na credibilidade das políticas de fomento cultural, prejudicando milhares de artistas independentes que disputam editais e oportunidades de forma transparente enquanto aguardam espaço para apresentar seu trabalho.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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