Vermelho para João Bosco e Amarelo pra Militância Seletiva
O gol precisa ser anulado!
Chamaram o VAR para João Bosco e suas declarações para o Estadão, em uma entrevista que deveria ficar apenas nas comemorações dos seus 80 anos e no seu álbum de regravações, mas João chamou atenção ao criticar o identitarismo da esquerda brasileira, quando se trata de “Gol Anulado”, uma de suas canções mais populares, com letra de Aldir Blanc.
Trabalho no rádio há vinte e dois, quase 23 anos, sempre tive o cuidado de não tocar essa música e tantas outras que falam sobre violência contra mulher, misoginia, racismo, entre outros temas sensíveis a mim e a sociedade. Sempre me dei ao trabalho de ouvir música e não só reproduzi-la. Aliás, diferentemente das gerações de “Enzos” e “Virginias”, fui ensinado desde criança que deveria respeitar as mulheres e que saber me portar era importante, afinal era um menino negro.
Discordo veementemente sobre as declarações de João Bosco, no sentido de termos que engolir de qualquer jeito “Gol Anulado”; violência contra mulher é crime, não tem discussão aqui. Mas acredito que a esquerda militante de internet que ficou “ofendidíssima” com as declarações de João, deveria fazer uma reflexão: quantos nomes da Música Brasileira vamos ter que cancelar?
Pensem comigo: por que também não cancelam, canções e artistas que tipificam a mulher como submissa, sofredora, interesseira e objeto sexual?
Vou ainda um pouco mais longe: por que a mesma régua não é imposta quando se trata de racismo, transfobia, gordofobia, da solidão dos corpos pretos? Quando é preto pode?
Por que canções que são um desserviço à sociedade tão tocadas, compartilhadas, dançadas e acompanhadas pelo alto consumo de álcool e outras substâncias?
Vou repetir, não concordo o João Bosco, preciso repetir reiteradas vezes, visto que interpretação de texto não é o forte do brasileiro de umas décadas pra cá ― mas que a esquerda precisa de uma autoavaliação não é novidade pra ninguém. Tem muita gente que fala e não vive o que diz. Tem racista na esquerda, tem misógino na esquerda, tem transfóbico na esquerda, tem gordofóbico na esquerda, tem agressor ― mas essa gente só ganha cancelamento se for preta, do contrário se instala o profundo silêncio, a militância é seletiva.
Não, não me confunda com reaça, com um extremista de direita, sou um homem de esquerda que não recebe oportunidades, reconhecimento e amor, por ser negro, gordo, artista e pobre. A diferença é que eu vivo o que digo e falo o que eu faço. E faço bastante coisa que vocês fingem não enxergar.
Jeff Soares

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