Estresse na Adolescência Pode Deixar Alterações no Cérebro Até a Vida Adulta, Aponta Estudo da USP
Pesquisa realizada com ratos identificou mudanças persistentes em áreas cerebrais relacionadas ao controle das emoções, tomada de decisões e comportamento.
O estresse enfrentado durante a adolescência pode provocar alterações no funcionamento do cérebro que permanecem até a vida adulta. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e publicado na revista científica Cerebral Cortex.
A pesquisa comparou os efeitos do estresse em ratos adolescentes e adultos. Os resultados indicaram que os animais submetidos a situações de estresse durante a adolescência apresentaram alterações mais duradouras, enquanto nos animais adultos os efeitos foram, em grande parte, temporários.
Os cientistas observaram mudanças no córtex pré-frontal medial, região do cérebro associada ao controle das emoções, à tomada de decisões e à regulação do comportamento. Segundo os pesquisadores, a adolescência representa um período de maior vulnerabilidade porque o cérebro ainda passa por importantes etapas de maturação.
Alterações Permaneceram na Fase Adulta
No experimento, os pesquisadores submeteram os animais a um protocolo de estresse e, posteriormente, analisaram a atividade cerebral. O trabalho avaliou principalmente o equilíbrio entre dois grupos de neurônios: os glutamatérgicos, relacionados à excitação da atividade cerebral, e os GABAérgicos, responsáveis por exercer uma função inibitória.
Nos ratos que sofreram estresse durante a adolescência, os pesquisadores identificaram aumento persistente da atividade dos neurônios excitatórios e alterações nos neurônios responsáveis pela inibição. Esse desequilíbrio permaneceu mesmo depois que os animais chegaram à idade adulta.
Outro achado foi a redução persistente das ondas gama, padrões de atividade cerebral associados à comunicação coordenada entre neurônios e a diferentes processos cognitivos. Nos animais adultos submetidos ao mesmo protocolo, as alterações observadas foram predominantemente transitórias.
Pesquisa Não Significa Que Todo Adolescente Terá Problemas na Vida Adulta
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite afirmar que todo adolescente exposto ao estresse desenvolverá problemas de saúde mental no futuro. A pesquisa foi realizada em animais e aponta principalmente para uma possível relação entre exposição prolongada ao estresse durante uma fase sensível do desenvolvimento cerebral e maior vulnerabilidade posteriormente.
Os resultados ajudam a compreender como experiências adversas durante a adolescência podem interferir na maturação dos circuitos cerebrais. A expectativa é que novas pesquisas possam esclarecer melhor essa relação e seus possíveis impactos sobre transtornos psiquiátricos.
O estudo também reforça a importância de compreender a adolescência como uma etapa particularmente sensível do desenvolvimento, na qual fatores ambientais e experiências de estresse podem ter efeitos que ultrapassam o período da juventude.
Jeff Soares

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