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Perspectivas #5: Muito Cedo Para Parar Pelo Caminho

Sobre mudar perspectivas, com a banda O Terno.

Perspectivas #5: Muito Cedo Para Parar Pelo Caminho
Imagem Internet/Pixabay

Eu adoro uma música da banda O Terno chamada "Tudo o Que Eu Não Fiz", que é faixa de abertura do disco "Atrás/Além" de 2019. É uma daquelas músicas que fazem a gente pensar ao avesso, de uma forma contra intuitiva dentro da lógica das verdades e fórmulas que nos vendem por aí (e que muitas vezes a gente compra, é verdade) de como viver à vida ou do que valorizar ou não. Existe um roteiro pra vida? Mas e quando as coisas não saem como o esperado? Somos ou estamos sendo? Bora trocar uma ideia sobre isso - e algumas outras coisas atrás/além - a partir de uma leitura da música.



O Terno - Atrás/Além (2019)


"E o destino que eu criei pra mim

Que era pra sempre, pra durar

E eu não quis ver, e acreditar

Quando eu mudei e aquilo não me serviu mais

Tanto tempo eu procurei chegar

Naquele ponto que eu cheguei

Eu tive tudo e não parei

Talvez no fundo eu goste mais de procurar"


Pessoas somos, de controle gostamos. Tem algo a ver com aquele conforto de prever as coisas, de saber o que fazer se isso ou aquilo não sair como o esperado. Planejamento é importante, nos ajuda a lidar com uma série de situações e demandas diariamente, é verdade, mas há lugares que esse controle todo não alcança. A impermanência é um dado da vida, afinal. E a música de hoje aborda isso de uma forma bem bacana, te recomendo demais dar uma conferida nela agora mesmo enquanto tu fazes a leitura. Enfim, algo que particularmente acho muito interessante em nós é o fato de nunca ficarmos totalmente prontos, de modo que sempre há um espaço pra algo novo, pra uma atualização de nós mesmos. Por vezes as transformações possíveis ou alcançadas são sutis e quase imperceptíveis de largada, mas nessas horas eu sempre lembro do nosso saudoso Chico Science e de suas sábias palavras: "um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar". Mudamos, e também por vezes nossos sonhos e objetivos mudam, os sentidos da nossa vida se transformam e precisamos decidir o que fazer com tudo isso.


Talvez gostar de procurar (ou se permitir estar mais aberto às transformações, com certa flexibilidade) seja uma forma de lidar com a impermanência, com a transitoriedade. Isso não significa não saber o que se quer, já que sempre existem determinados parâmetros que guiam nossas escolhas de vida. Podemos pensar, por exemplo, naquilo que tem valor pra nós - que por vezes também muda, e tudo bem. O que nos faz sentido agora? O que faz (ou faria) nosso coração bater com alegria hoje? Se é no dia a dia (e não necessariamente nos grandes momentos) que a gente constrói a nossa vida, cabe pensar no que se pode fazer em prol dela hoje. Se perguntar essas coisas é uma forma de procurar, e ser um amigo da incerteza faz parte de gostar de procurar. Pode ser?


"Ninguém sabe na primeira vez

Nem na segunda

A esperança num roteiro pronto

E o choque do que não era pra ser

Do que não era pra ser e foi

Surge um começo

Mais aberto e leve que um final feliz

E o peso de não poder mais me desenvolver"




Ah, a quebra de expectativas e suas dores, o controle saindo de cena e dando palco à incerteza. Bom, não é de todo ruim, na verdade. Claro, dores são dores e existem dores enormes e extremamente difíceis de se dimensionar (sobretudo quando não somos nós quem as sentimos), mas o ponto aqui é que determinados fins também são recomeços. Estamos falando de uma música que aborda uma mudança profunda de perspectiva em relação às certezas que cultivamos e que, por vezes, se mostram não tão certas assim. Há uma celebração acontecendo aqui, à incerteza e à abertura. Trata-se de reconhecer que não somos prontos ou estáticos, não estamos parados no tempo, que somos abertos ao mundo e capazes de transformar a si mesmos e a nossa realidade. Protagonistas de nossa vida, se assim preferir.


"Sei que é muito cedo pra parar pelo caminho

Não vou ficar contente preso num final feliz

Se tudo se transforma, tudo passa nesse mundo

Eu quero ficar velho, eu quero tudo que eu não fiz"


A quantos finais felizes a gente fica preso ao longo da vida da gente? Como se a felicidade só fosse possível ao se chegar em determinado ponto (muitas vezes representado como uma casa, um relacionamento feliz, um diploma, um trabalho, um carro, dinheiro na conta...). Não quero me expressar mal, claro que há uma felicidade possível - e legítima - em se conseguir um pouco mais de conforto existencial ou em se atingir aquele objetivo importante. As coisas complicam quando a felicidade depende (vamos de novo pra enfatizar, quando "depende") de um final feliz, já que nessa vibe muitas vezes a gente acaba com frequência olhando demais pra linha de chegada e perdendo as paisagens do caminho - as felicidades e os diferentes sabores do processo.




Querer "tudo o que eu não fiz" talvez seja sobre redirecionar o olhar - ou como diz o poeta Vasco Gato, não esquecer de "olhar devagar". Essa expressão eu acho ótima, "olhar devagar". Me faz pensar num olhar sereno, cuidadoso, amoroso, sem pressa, atento ao caminho mas também à paisagem ao redor. Que sabe olhar e admirar as grandes pequenas coisas, o lado simples da felicidade. E não há idade pra olharmos a paisagem, revisitarmos as nossas perspectivas e aprender algo novo. Pois então me deixa envelhecer, que o coração sustentará a juventude que nunca morre.


Às vezes penso que há determinadas situações na vida em que tudo o que se pode fazer é mudar a forma como olhamos pra nossa narrativa, pra como entendemos quem somos, nós e o mundo. Mas isso é extremamente importante, é questão de vida. Isso é liberdade e protagonismo. Isso também é não parar pelo caminho, é se abrir à transformação. Enfim:


“Quero me sentir exatamente onde eu estou”. E eu estou caminhando. Sigamos.



por

Igor Jeske

Psicólogo

Músico

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