cover
Tocando Agora:

Black Pantera - Continental

Entre o peso, ancestralidade e encontros históricos!

Black Pantera - Continental
Foto Divulgação

O Black Pantera chegou a uma nova etapa da carreira com o lançamento de “Continental”, quinto álbum de estúdio da banda mineira, disponibilizado em 21 de agosto pela Deck. Com 13 faixas, o trabalho mantém o peso característico do trio formado por Charles Gama (guitarra e vocal), Chaene da Gama (baixo e vocal) e Rodrigo “Pancho” (bateria), mas amplia consideravelmente o diálogo do grupo com outros gêneros e gerações da Música Brasileira.


O disco sucede “Perpétuo”, de 2024, e transforma o próprio Brasil em eixo conceitual. Ancestralidade, racismo, desigualdade, política, identidade negra, geopolítica e diferentes experiências vividas pelos integrantes aparecem ao longo do repertório. A proposta também está no título: “Continental” faz referência às dimensões territoriais, culturais e humanas de um país marcado por múltiplas realidades.


Um Brasil em 13 Faixas

O álbum começa com a faixa-título, “Continental”, que apresenta o peso do Black Pantera acompanhado por uma participação especial que não vem de outro músico: a voz do geógrafo e intelectual Milton Santos aparece em um trecho utilizado na abertura. A escolha reforça a discussão sobre Brasil, América do Sul e o papel dos países periféricos na construção de seus próprios caminhos. 


Na sequência vem “Serotonina”, que conta com a participação da rapper Duquesa. A música aproxima o hardcore da linguagem do rap e incorpora uma perspectiva contemporânea ao discurso da banda. “Hórus”, terceira música do disco apresentada antecipadamente como single, trabalha questões relacionadas ao racismo e à religiosidade. O título remete à divindade da mitologia egípcia, enquanto a letra utiliza diferentes referências para discutir a experiência do corpo negro e o olhar social sobre ele. 


A quarta faixa é “Quando Canto”, uma das principais conexões do álbum com a tradição da música negra brasileira. A música conta com a participação de Sandra Sá e trabalha ancestralidade, memória e a continuidade das vozes de gerações anteriores. O encontro entre a veterana cantora e o trio mineiro também representa uma reaproximação entre o Rock pesado e o Soul Brasileiro. 


Em “Velho Jeans Rasgado”, o grupo muda novamente de direção e flerta com referências do punk rock, trazendo a experiência da vida na estrada para o repertório. A música ajuda a mostrar que “Continental” não pretende permanecer preso a uma única fórmula sonora. Já “Negusa Nagast” mergulha em referências africanas. O título significa “Rei dos Reis” na língua ge'ez e remete ao último imperador da Etiópia, figura associada também ao imaginário rastafári. A ancestralidade aparece, portanto, não apenas como discurso, mas como elemento presente na própria construção temática do álbum.



Foto: Hugo Brito / Divulgação


“Start The Game”, lançada antes do álbum como single, utiliza o universo dos videogames como metáfora para discutir competição, manipulação e relações de poder. Segundo Chaene da Gama, a ideia dos jogos surgiu da percepção de que a vida contemporânea muitas vezes parece uma sucessão de fases, nas quais é preciso avançar, voltar e descobrir novos caminhos.


A oitava faixa, “Obsoleto”, traz uma das colaborações mais aguardadas do disco: Derrick Green, vocalista do Sepultura. A participação cria uma ponte direta entre duas gerações do metal brasileiro e coloca frente a frente artistas negros que construíram suas trajetórias dentro de um cenário historicamente marcado pela pouca representatividade negra. 


“W.P.P.”, sigla para White People Problem, retoma de maneira direta a discussão racial. A faixa aborda privilégios brancos e as estruturas de uma sociedade ainda marcada pelo racismo, mantendo a tradição do Black Pantera de transformar questões sociais em matéria-prima para o rock pesado. 


Em “Banzo”, o grupo recebe Chico César. A faixa é uma das maiores mudanças de atmosfera do disco, aproximando o Black Pantera de elementos afro-caribenhos e da música brasileira. A participação também cria um encontro entre diferentes regiões do país e aborda desigualdade e a ideia de meritocracia. 


A penúltima parte do álbum traz “Yasuke”, referência ao samurai africano que viveu no Japão no século XVI, seguida por “Sic Mundus”, que volta a explorar a agressividade do grupo e referências do punk e do metal. O disco termina com “Punhos Cerrados”, faixa que recupera o thrash metal e encerra o trabalho com velocidade, peso e uma postura de resistência. 


O resultado é um disco coeso com a trajetória do grupo e fundamental até mesmo como estudos sobre os temas que atravessam a negritude no Brasil, ele é Rock n’ Roll com elementos do Hardcore, do Thrash Metal e do Punk, mas permite que essas linguagens convivam com Rap, Soul, MPB e referências Afro-brasileiras e Africanas. Um discaço que se utiliza da arte como instrumento de questionamento e resistência!






Jeff Soares


Jornalismo

Músico

Apresentador





Comentários (0)