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A Violência Está Valendo Mais Que A Arte? A Perversão dos Algoritmos nas Redes Sociais

[...] Enquanto isso, a música precisa implorar por atenção.

A Violência Está Valendo Mais Que A Arte? A Perversão dos Algoritmos nas Redes Sociais
Imagem Chat Gpt

Um músico independente pode passar meses compondo, ensaiando, gravando e produzindo uma canção para, depois de publicada, descobrir que seu trabalho foi entregue a algumas poucas centenas de pessoas. Enquanto isso, basta uma câmera de celular registrar uma briga — especialmente se houver mulheres envolvidas, gritos, tapas, humilhação e sangue — para que o vídeo alcance milhares ou até milhões de pessoas em poucas horas.


Não se trata de uma simples coincidência ou de uma preferência natural do público. Trata-se de um modelo de negócio construído sobre a disputa pela atenção. E, nessa disputa, o choque costuma vencer a arte. As grandes plataformas aprenderam há muito tempo que indignação, violência, medo e curiosidade mantêm as pessoas diante da tela. Um vídeo de agressão cria uma espécie de armadilha psicológica: quem assiste quer saber como a briga começou, quem vai cair, quem vai vencer e como tudo termina. Mesmo quem sente repulsa muitas vezes continua assistindo. Depois comenta, critica, compartilha, marca alguém e volta para ver as reações. O algoritmo interpreta tudo isso como sucesso.


E aqui está uma das maiores hipocrisias do discurso tecnológico: as plataformas afirmam não incentivar a violência, mas seus sistemas de distribuição frequentemente premiam exatamente os conteúdos que provocam maior reação emocional. Não é necessário que uma empresa publique diretamente um vídeo de agressão para lucrar com ele. Basta que o algoritmo perceba que milhões de pessoas estão parando para assistir.


Enquanto isso, a música precisa implorar por atenção.


O artista é obrigado a se adaptar a uma lógica cada vez mais cruel. Não basta mais compor. É preciso produzir vídeos curtos, acompanhar tendências, utilizar músicas do momento, criar ganchos nos primeiros segundos e publicar constantemente para que o algoritmo não o esqueça. O músico deixa de ser apenas músico e passa a ser, simultaneamente, editor de vídeo, influenciador, roteirista, gestor de redes sociais e especialista em marketing.


Ainda assim, pode perder espaço para um vídeo de duas pessoas brigando em uma esquina.


O caso se torna ainda mais grave quando observamos a forma como determinadas violências são transformadas em entretenimento. Brigas entre mulheres, por exemplo, são frequentemente publicadas com títulos sensacionalistas, trilhas sonoras engraçadas e comentários que incentivam a continuação da agressão. Há espectadores que escolhem lados como se estivessem acompanhando uma luta profissional. Pouco importa se alguém está sendo humilhado, machucado ou vivendo uma situação traumática. Para uma parcela do público, aquilo se transforma em entretenimento.


E para o algoritmo, em engajamento.


As plataformas costumam responder que possuem regras contra conteúdos violentos. Mas onde elas estão nessa hora? Muitos vídeos permanecem disponíveis tempo suficiente para alcançar milhões de pessoas antes de serem removidos — quando são removidos. Outros para eles sequer violam as regras porque são classificados como registros de acontecimentos, notícias ou imagens de interesse público, mas trata-se apenas de pura violência.


Vamos ser diretos aqui: se as plataformas conseguem reconhecer automaticamente trechos de músicas protegidas por direitos autorais em poucos segundos, por que não conseguem impedir com a mesma eficiência a circulação de vídeos de mortes, espancamentos e agressões transformadas em espetáculo? Não há uma resposta decente registrada.


A música representa cultura, trabalho e criação humana. Mas, para um algoritmo programado para medir atenção, uma boa canção não possui automaticamente mais valor do que uma cena de violência. O sistema não pergunta se aquele conteúdo é culturalmente relevante, artisticamente importante ou socialmente necessário. Ele observa se as pessoas param para assistir. E as pessoas não param. As pessoas consomem violência com naturalidade. O que é assustador.


Criamos espaços digitais onde o sofrimento pode ser mais rentável do que a arte. Onde uma agressão pode receber mais distribuição do que uma composição. Onde a humilhação de alguém pode gerar mais alcance do que anos de estudo de um músico. E onde o artista, paradoxalmente, precisa se tornar cada vez mais parecido com uma máquina de produzir conteúdo para conseguir sobreviver dentro de plataformas que deveriam ampliar o acesso à cultura.


 Imagens são importantes para denunciar crimes, registrar abusos e informar a sociedade. O problema começa quando a violência deixa de ser informação e passa a ser combustível para retenção. Quando uma morte vira “conteúdo”. Quando uma agressão vira entretenimento. Quando uma briga vira tendência.


Mas quando uma música, feita para emocionar, provocar reflexão ou simplesmente acompanhar a vida das pessoas, precisa disputar espaço com o espetáculo da dor humana. Tem alguma coisa de errado. Porque algoritmos não são neutros. Eles são criados por empresas, programados por pessoas a partir de objetivos e ajustados para produzir resultados. E, enquanto o principal objetivo continuar sendo capturar atenção a qualquer custo, a violência continuará tendo uma vantagem que a arte dificilmente conseguirá conquistar sozinha.







Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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