Black Pantera leva o grito Antirracista ao Rock in Rio e expõe o racismo nas Redes Sociais
[...] a repercussão do show também foi acompanhada por ataques que expõem a permanência do racismo no debate público.
O Black Pantera subiu ao palco do Rock in Rio levando aquilo que caracteriza sua trajetória: peso, identidade e posicionamento político. O trio mineiro transformou sua apresentação em um momento de enfrentamento ao racismo e às desigualdades, utilizando a força do hardcore para transmitir uma mensagem que faz parte da própria essência da banda. O grito de “Fogo nos racistas”, já associado ao discurso do grupo, voltou a provocar reações e, nas redes sociais, a repercussão do show também foi acompanhada por ataques que expõem a permanência do racismo no debate público.
O episódio revela uma contradição conhecida. Parte do público aceita artistas negros nos grandes palcos enquanto eles permanecem restritos ao entretenimento, mas reage quando esses mesmos artistas utilizam sua visibilidade para falar sobre racismo, desigualdade e violência. A presença do Black Pantera no Rock também desafia um imaginário historicamente associado e usurpado por referências brancas. Não é apenas a música pesada que incomoda determinados setores: é a ocupação de um espaço cultural por artistas negros que se recusam a silenciar sobre as estruturas que ainda produzem exclusão.
A reação nas redes sociais demonstra, mais uma vez, como o debate sobre racismo continua sendo recebido por muitos como uma provocação, e não como uma denúncia necessária. Criticar o preconceito passa a ser tratado como “divisão”, enquanto o próprio preconceito que motivou a crítica é relativizado ou ignorado. É um mecanismo conveniente: cobra-se moderação justamente de quem denuncia a violência, mas raramente se exige o mesmo esforço de quem a pratica ou reproduz discursos racistas.
O Black Pantera fez no Rock in Rio aquilo que a arte política sempre fez: ocupou espaço, provocou desconforto e transformou o palco em instrumento de reflexão. Os ataques que surgiram depois do show não diminuem a mensagem da banda — ao contrário, ajudam a explicar por que ela continua necessária. No Brasil que ainda insiste em negar ou minimizar o racismo, talvez o maior incômodo não esteja no volume das guitarras, mas esteja no fato de que alguém, diante de milhões de pessoas, decidiu não permanecer em silêncio.
Jeff Soares

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