Rock in Rio: O Festival Que Mirou O Privilégio e Não Sabe Mais Ser Popular
[...] até que ponto a lógica comercial começa a se sobrepor à própria ideia de um grande festival popular de música.
O Rock in Rio 2026 revela uma contradição difícil de ignorar: enquanto o festival movimenta cifras milionárias, alguns de seus espaços aparecem com público reduzido e ingressos que estão muito acima da realidade financeira da maioria dos brasileiros. O gramado custa R$ 870 na inteira e R$ 435 na meia-entrada, enquanto a chamada Comfort Zone chega a R$ 1.950. Para quem recebe o salário mínimo de R$ 1.621, trata-se de um gasto impossível — para o trabalhador.
A conta não termina na bilheteria. Quem decide ir ao festival ainda precisa pagar transporte, alimentação e, para quem vem de outras cidades, hospedagem. Segundo levantamento do Poder360, um trabalhador que recebe o salário mínimo, precisa comprometer cerca de oito dias de trabalho para pagar uma meia-entrada e aproximadamente 36 dias para bancar a Comfort Zone. Nesse cenário, o Rock in Rio deixa de ser apenas uma experiência musical e passa a funcionar também como um retrato da desigualdade de renda brasileira: há quem possa consumir o festival sem grandes sacrifícios e há quem precise fazer contas durante meses para tentar assistir a um único dia de shows.
Enquanto isso, a Cidade do Rock se consolida cada vez mais como uma gigantesca plataforma comercial. São dezenas de empresas, centenas de ativações de marcas e bilhões de reais movimentados em torno do evento. Os espaços premium ampliam a distância entre diferentes experiências dentro do mesmo festival, criando uma espécie de hierarquia do entretenimento: quem paga mais recebe mais conforto, exclusividade e proximidade dos palcos. O problema não é oferecer serviços diferenciados, mas perceber até que ponto a lógica comercial começa a se sobrepor à própria ideia de um grande festival popular de música.
É evidente que público reduzido em determinados shows não pode ser explicado apenas pelo preço: chuva, horários, atrações e programação também pesam. Mas o cenário merece reflexão. O Rock in Rio ainda é um fenômeno cultural, mas precisa decidir se quer ser lembrado principalmente como um festival de música ou como um produto premium de entretenimento. Quando o ingresso de uma experiência pode custar mais do que o salário mensal de um trabalhador, alguma coisa mudou. E talvez o esvaziamento de determinados espaços seja apenas um dos sinais de que o público brasileiro já não consegue — ou não quer — pagar qualquer preço para continuar fazendo parte da festa.
Jeff Soares

Jornalismo
Músico
Apresentador
Comentários (1)
Realmente uma reflexão a ser feita, não só em relação ao Rock in Rio, mas também a outros espaços de esporte e cultura.
3 Semanas atrás