O Candomblé Não Pertence Mais Aos Negros?
[...] Vivemos um momento em que é "lindo" ser preto, mas onde está a beleza de não pertencer a algo que já foi seu o lugar?
Muito se fala da ascensão do Candomblé no Brasil, porém, pouco se fala do crescimento da falta de tato com a religião. As iniciações se tornaram grandiosas demais e são feitas principalmente para quem tem mais dinheiro, e não para quem mais precisa dela. Há pelo menos 25 a 30 anos, as iniciações no Candomblé têm se tornado algo voltado ao valor que se tem no bolso, e não aos valores que são realmente relevantes ao Sagrado. Ter Òrìṣà em nossas cabeças se tornou um meio de se inserir, de pertencer a algo que não lhe pertence.
As religiões de matriz africana sempre foram demonizadas, mesmo sem terem esse viés dentro da religião. A amoralidade e a imparcialidades existentes nessas religiões são subvertidas e transformadas em algo que não cultuamos.
Com isso, ficou "mais bonito", mais aceitável, uma vez que muitos Bàbálórìsàs e Ìyálórìsàs hoje visam mais dinheiro, pompas e circunstâncias do que o Sagrado em si. Por conta disso, os ensinamentos, os dogmas e tudo o que o Candomblé representa vêm sendo passados a quem paga mais. E nós, pretos, aqueles que seriam os reais herdeiros disso, não temos acesso — seja por falta de ascensão financeira, seja pela maneira como as religiões afro são demonizadas e tiradas totalmente do seu contexto original.
Vivemos um momento em que é "lindo" ser preto, mas onde está a beleza de não pertencer a algo que já foi seu o lugar?
O que acontece é que, simplesmente, estão nos tirando direitos básicos. O que antes era Terreiro de resistência, de acolhimento e de cura para o povo preto, hoje corre o risco de se tornar vitrine e ostentação para quem pode comprar.
Se o Candomblé nasceu do povo preto para o povo preto sobreviver à escravidão e ao racismo, retirá-lo desse povo é um novo tipo de apagamento. Não se trata de fechar portas, mas de lembrar quem sustentou a porta aberta quando ninguém mais queria entrar.
Bruno Meirelles

Babalorixá, Professor, Oraculista, Colunista
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