Gen Z e o Algoritmo: O Fim das Memórias em Massa?
[...] nostalgia, portanto, não é apenas individual. Ela é coletiva.
Nos anos 1990 e 2000, a televisão aberta ocupava um espaço que hoje parece quase impossível de imaginar. Com menos opções de entretenimento, milhões de brasileiros assistiam aos mesmos programas, ouviam as mesmas músicas e acompanhavam as mesmas novelas praticamente ao mesmo tempo.
A TV não era apenas entretenimento: era uma espécie de grande praça pública cultural.
Uma novela lançava uma música e ela rapidamente estava nas rádios, nas festas e nos celulares. Uma personagem aparecia usando determinada roupa e aquilo se transformava em tendência. Um programa de auditório apresentava um artista e, no dia seguinte, parecia que o país inteiro sabia quem ele era.
Não era necessariamente porque todos tinham os mesmos gostos, mas porque todos estavam expostos às mesmas referências.
Esse fenômeno ajudou a construir aquilo que hoje reconhecemos como uma memória coletiva de geração. As músicas, os bordões, as danças, as roupas e até os comerciais se transformaram em pequenas lembranças compartilhadas. Quando alguém fala de determinado programa ou trilha sonora dos anos 2000, existe uma grande chance de milhares de pessoas terem uma memória associada àquele mesmo momento.
A nostalgia, portanto, não é apenas individual. Ela é coletiva.
Hoje, a lógica é diferente.
O algoritmo conhece nossos gostos, nossos hábitos e nossos interesses. Ele nos entrega músicas que provavelmente vamos gostar, vídeos que prendem nossa atenção e conteúdos cada vez mais específicos. Nunca tivemos tanto acesso à cultura e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido uma cultura tão fragmentada.
Enquanto antes milhões de pessoas assistiam ao mesmo programa, hoje cada pessoa vive dentro de sua própria televisão invisível.
Uma adolescente pode passar anos consumindo conteúdos sobre um artista que seu colega nunca ouviu falar. Uma tendência pode dominar completamente determinado grupo nas redes sociais e ser praticamente inexistente para outro. Existem inúmeros fenômenos culturais acontecendo simultaneamente, mas poucos conseguem atravessar todos os nichos.
A geração que cresceu entre os anos 1990 e 2000 talvez tenha sido uma das últimas a experimentar, com tanta intensidade, a sensação de participar de acontecimentos culturais em massa.
Isso não significa que a cultura tenha se tornado pior. Pelo contrário: ela se tornou mais diversa, acessível e democrática. O problema, ou talvez apenas a consequência, é que a personalização diminui os encontros inesperados.
Antes, você assistia ao que estava passando. Hoje, assiste ao que foi escolhido para você. E existe uma diferença importante entre essas duas experiências.
A televisão aberta reunia pessoas que talvez nunca escolhessem consumir as mesmas coisas. O algoritmo, por outro lado, tende a aproximar o indivíduo daquilo que ele já demonstra gostar. Aos poucos, cada pessoa constrói uma experiência cultural cada vez mais particular.
Talvez seja por isso que exista uma nostalgia tão intensa pelos anos 1990 e 2000. Não sentimos saudade apenas das músicas, das roupas ou dos programas. Sentimos saudade de saber que outras milhões de pessoas estavam vivendo aquilo junto conosco.
No futuro, as novas gerações certamente terão suas próprias nostalgias. Mas talvez elas sejam diferentes das nossas: menos associadas a um país inteiro assistindo à mesma novela ou repetindo o mesmo bordão e mais ligadas a comunidades, nichos e algoritmos específicos.
Porque, no fim, talvez a grande diferença entre a televisão aberta e as redes sociais não esteja na quantidade de conteúdo. Esteja na quantidade de pessoas que viveram exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo.
E talvez seja justamente daí que nasce a nostalgia em massa: da rara sensação de olhar para trás e descobrir que uma parte da nossa memória também pertence a milhões de outras pessoas.
Tâmara Nunes

Jornalismo
Oraculista/Taróloga
Artesã
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