A Favela Venceu?
“Tem uma coisa que me incomoda nessa geração que é a ostentação. Acho que é uma armadilha esse papo de que a favela venceu. A favela não venceu, a favela ainda está passando fome, está morrendo de fome, está morrendo de fome. Sem saneamento básico, sem saúde. A gente ainda tem que lutar muito por isso”, disse Marcelo D2.
Antes de subir ao Palco Sunset do Rock in Rio com o Planet Hemp e Pitty, o vocalista Marcelo D2 deixou uma crítica ao Funk e ao Rap Nacional da nova geração, algo que muitos não querem ouvir, principalmente vindo dele, um dos nomes mais representativos da história da Música Brasileira.
“Tem uma coisa que me incomoda nessa geração que é a ostentação. Acho que é uma armadilha esse papo de que a favela venceu. A favela não venceu, a favela ainda está passando fome, está morrendo de fome, está morrendo de fome. Sem saneamento básico, sem saúde. A gente ainda tem que lutar muito por isso”, disse Marcelo D2.
Além disso, a cantora Pitty fez uma declaração importante: Realmente não entendo por que não tem uma artista feminina de Rock no palco principal. De fato hoje, se você pensar em representatividade feminina no Rock, infelizmente, a gente tem poucas oportunidades. O que procuro fazer é trazer outras [cantoras] comigo, então estou sempre chamando mulheres para o palco quando tenho oportunidade, faço feats e coletâneas, sempre procurando ocupar os espaços que consigo.
Em declaração a Folha de São Paulo, a cantora e compositora Cyndi Lauper, de certa forma endossa o clamor de Pitty: “Eu sempre quis ter as mesmas liberdades que os homens. E se eu não estiver preocupada com as minhas próprias liberdades, ninguém vai estar. Essa é a minha mensagem para as mulheres jovens.”
No mesmo final de semana, a cantora de Funk, Jojo Todynho, além de declarar seu voto na extrema direita, posta uma foto com a ex-primeira dama e se intitula uma mulher negra, de direita e expoente para 2026 no intuito de ocupar um cargo público.

Planet Hemp e Pitty no Rock in Rio - 40 Anos/ Foto: Miguel Folco/G1
Mas o que essas declarações têm em comum? O Brasil que ainda vive dividido e inconsciente de sua classe trabalhadora, que não pode e nem tem condições de ostentar, tampouco acesso a eventos do porte de um Rock in Rio, de um ‘Brazil que não conhece o Brasil’ como um dia cantou Elis Regina. Inconsciente de um País que ainda é misógino e machista, de um País que mata LGBT+, negros e mulheres a cada minuto, de um País que precisa olhar para dentro de si mesmo e renascer de suas cinzas, ou nós morreremos sufocados com sua fumaça degradante.
Como um menino rapper da periferia vê de fato seus “ídolos”, se eles só saber mostrar a ostentação e em sua casa muitas vezes não existe nem arroz e feijão. Como uma menina boa de rima se sente quando seus “ídolos” se enchem de correntes de ouro, dentes de ouro, mas que esquecem que sua gente não educação de qualidade, sofre com o preconceito e que ela não pode usar nem mesmo um batom ou tão pouco sonhar com uma oportunidade de cantar de verdade num Palco Mundo da vida, porque pra comer vai ter que trabalhar e muito? E eu falei cantar, não o uso um auto-tune.

Filipe Ret, Cabelinho, Orochi e Xamã — Foto: reprodução Instagram e Lucas Nogueira
Ídolos do Trap Ostentação
Marcelo D2 tem razão quando diz “a favela não venceu” porque de fato estamos a cada dia vivendo uma ilusão de que tudo se conquista fácil, uma venda à prestação de uma imagem que dificilmente vai acontecer com grande parte da periferia. A favela não venceu, quando uma de suas mais influentes personalidades, uma cantora negra quer retirar das plataformas digitais uma canção que fala sobre o movimento LGBT+ e que ainda se declara apoiadora da extrema direita, que com sua política mata preto, pobre e favelado.
A favela ainda não venceu, se vencerá no ‘dia que o morro descer e não for Carnaval’ (Wilson das Neves), não sabemos, mas seu nome no íntimo da vida das pessoas não morrer. ‘Favela és o berço do samba que te ofereço, deste samba és a raiz’ (Clara Nunes – Esperança 1979, de Antônio Filho e Jaime Roberto Fernandes Dos Santos).
Por
Jeff Soares

Músico, Locutor
Jornalista, Web Designer
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