Violência Invisível e Micromachismos: As Barreiras Silenciosas do Cotidiano Feminino
[...] Quando acumuladas ao longo do tempo, essas situações recorrentes minam a autoestima profissional e alimentam a síndrome da impostora...
Você já esteve em uma reunião, começou a apresentar uma ideia e foi interrompida antes mesmo de terminar a frase? Ou talvez já tenha ouvido um colega explicar, de forma extremamente didática, algo que você domina há anos? A violência de gênero nem sempre se manifesta por meio de agressões físicas ou verbais explícitas. Na maioria das vezes, ela acontece de forma sutil, diluída na rotina e camuflada na naturalização. É o que chamamos de violência invisível e micromachismos, comportamentos cotidianos que embora pareçam inofensivos para quem os pratica, desgastam a confiança, a autoridade e a saúde mental das mulheres no ambiente de trabalho e na vida pessoal.
No dia a dia, essa dinâmica se expressa através de padrões muito bem definidos. O primeiro deles é o manterrupting, que ocorre quando a fala de uma mulher é constantemente interrompida por um homem, impedindo que ela conclua seus raciocínios e fazendo com que pareça hesitante ou sem domínio sobre o tema. Em seguida, temos o mansplaining, a situação em que um homem se dedica a explicar algo a uma mulher de forma condescendente, assumindo previamente que ela não entende do assunto, mesmo quando ela é a especialista na área, o que infantiliza e invalida sua trajetória profissional.
Por fim, a apropriação de ideias (também conhecida como bropriating) acontece quando a proposta feita por uma mulher em uma reunião é ignorada e, minutos depois, um homem repete a mesma sugestão e recebe todos os créditos, invisibilizando a contribuição intelectual feminina e prejudicando sua ascensão na carreira.
O prefixo "micro" nesses comportamentos não significa que o impacto seja pequeno, mas sim que o problema é estrutural e quase imperceptível. Quando acumuladas ao longo do tempo, essas situações recorrentes minam a autoestima profissional e alimentam a síndrome da impostora, fazendo com que a mulher duvide da sua própria capacidade. Dar nome a esses atos é o primeiro passo para desnaturalizá-los, pois transformar ambientes de trabalho exige escuta ativa, posicionamento firme das lideranças e a conscientização de que a verdadeira igualdade de gênero começa nas atitudes mais simples do cotidiano.
Por Roberta Luzzardi

Educadora. Defensora do Feminismo Interseccional,
da Educação Pública e da Agroecologia
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