Quem Está Preparando Nossos Adolescentes Para A Vida Adulta?
[...] existe uma diferença enorme entre orientar e decidir pelo adolescente.
Durante muito tempo, preparar um adolescente para o futuro parecia significar ajudá-lo a escolher uma profissão. “Você já sabe o que quer fazer?”, “Vai fazer faculdade?”, “Qual carreira pretende seguir?”. São perguntas importantes, mas talvez estejamos pulando algumas etapas fundamentais.
Aos 14, 15, 16 ou 17 anos, muitos adolescentes são cobrados para saber o que querem para o futuro, quando ainda estão tentando descobrir quem são no presente. Antes de escolher uma profissão, precisam ter oportunidades para conhecer seus interesses, reconhecer seus talentos, perceber suas dificuldades, desenvolver habilidades e compreender melhor aquilo que faz sentido para eles.
E existe uma pergunta que pode ser ainda mais importante do que “o que você quer ser quando crescer?”: “Você sabe quem você é?”
Muitos adolescentes conseguem falar facilmente sobre aquilo em que não são bons, sobre seus defeitos e inseguranças, mas encontram dificuldade quando precisam reconhecer suas próprias qualidades. Não sabem dizer quais são seus talentos, o que fazem bem, quais características as pessoas admiram neles ou quais habilidades poderiam transformar em oportunidades.
Talento, aliás, não está apenas em cantar, desenhar, praticar um esporte ou tirar boas notas. Pode estar na facilidade para ouvir alguém, organizar um grupo, explicar alguma coisa, resolver problemas, criar, liderar, trabalhar em equipe, aprender rapidamente ou encontrar soluções diferentes. Muitas vezes, aquilo que parece simples para o adolescente é justamente uma habilidade que ele ainda não aprendeu a reconhecer.
E então surge outra questão: se amanhã aparecesse uma oportunidade de emprego, esse adolescente saberia se apresentar?
Saberia falar sobre suas qualidades? Conseguiria explicar no que é bom? Teria clareza sobre seus interesses? Saberia conversar com segurança, ouvir uma orientação, lidar com uma crítica, cumprir uma responsabilidade e trabalhar em equipe?
Essas são habilidades que fazem parte da vida adulta e que não deveriam começar a ser desenvolvidas apenas quando chega a primeira entrevista de emprego.
Também precisamos falar sobre a pressão para escolher cedo demais. Existe uma ideia de que, aos 16 ou 17 anos, o jovem deveria saber exatamente qual profissão seguirá pelo resto da vida. E, diante dessa cobrança, muitos acabam escolhendo pelo medo, pela expectativa da família, pelo que parece dar mais dinheiro ou simplesmente porque não conseguem enxergar outras possibilidades.
Mas e se ele mudar de ideia? E se descobrir que aquela profissão não combina com ele? E se encontrar um interesse novo?
Mudar de direção não significa fracassar. Descobrir que determinado caminho não faz sentido também é uma forma de autoconhecimento.
Preparar um adolescente para o futuro não significa entregar respostas prontas, escolher por ele ou exigir que tenha certeza de tudo. Significa oferecer experiências, conversas, referências e oportunidades para que ele possa fazer escolhas cada vez mais conscientes.
Pais e educadores têm um papel importante nessa construção. Podem orientar, apresentar possibilidades, incentivar responsabilidades, ajudar o jovem a reconhecer seus pontos fortes e ampliar sua visão de mundo. Mas existe uma diferença enorme entre orientar e decidir pelo adolescente.
Talvez precisemos mudar algumas das perguntas que fazemos.
Em vez de perguntar apenas “Que profissão você quer?”, podemos perguntar: “O que desperta sua curiosidade?” “No que você percebe que é bom?” “Que habilidade gostaria de desenvolver?” “Que problemas gostaria de ajudar a resolver?” “Que possibilidades você gostaria de conhecer?”
Porque o futuro de um adolescente não começa necessariamente com uma profissão definida.
Ele começa quando esse jovem passa a se conhecer, experimentar, desenvolver habilidades, assumir responsabilidades e perceber que suas escolhas também têm poder de transformar sua trajetória.
No fim, talvez preparar nossos adolescentes para a vida adulta não seja dar a eles um mapa pronto.
Talvez seja ensiná-los a construir o próprio caminho.
Alessandra Helena Prebianca

Pedagoga/Psicopedagoga Clínica/
Orientadora Parental/Especialista em Desenvolvimento Infantil
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