O Brazil Não Conhece O Brasil
São dois mundos!
Existem dois “Brasis” muito distintos em nossa frente. Quando Fiuk, um ator e cantor, filho de uma grande estrela da MPB declara que seu custo de vida gira entre R$ 40 mil e R$ 50 mil mensais e que está com dificuldades financeiras diante de uma sociedade na qual milhões de pessoas passam o mês tentando descobrir como pagar as contas, soa como perturbador.
E essa sensação fica ainda mais desconcertante quando atravessa as portas do Poder Judiciário. Em agosto, o ministro André Mendonça afirmou que o salário de um magistrado, embora “muito acima” do recebido pela maioria dos brasileiros, não permite uma vida sem preocupações financeiras. O subsídio de um ministro do STF é de R$ 46.366,19. Mendonça também disse que um juiz não deveria ter a pretensão de ficar rico e que seria necessário controlar as despesas do dia a dia.
Declarações essas que merecem ser discutidas sem caricatura, mas também sem ingenuidade. O problema é a régua usada para definir o que significa “preocupação financeira” ou “dificuldade”. Para uma família que recebe um salário mínimo, preocupação financeira é decidir entre comprar gás, pagar a conta de água ou pagar a conta de luz. É escolher entre o remédio e a feira. É parcelar o material escolar. É trabalhar informalmente porque o salário não alcança o fim do mês.
É difícil encontrar melhor retrato da distorção brasileira. Um cidadão pode receber R$ 120 mil líquidos e considerar sua carreira financeiramente desvalorizada. Outro pode trabalhar oito, dez ou doze horas por dia e considerar uma vitória chegar ao fim do mês com comida dentro de casa. São dois mundos.
E não estamos falando apenas de salários. Existe toda uma arquitetura de privilégios e benefícios, que há anos transforma a remuneração de determinadas carreiras em algo muito distante da realidade do trabalhador comum.
Carros de luxo, casas em condomínios milionários, viagens internacionais, restaurantes inacessíveis, bolsas que custam meses de salário de um trabalhador, relógios que poderiam pagar anos de aluguel, festas que custam o equivalente à renda anual de famílias inteiras. A ostentação transformou-se em conteúdo. A riqueza virou entretenimento. O consumo virou espetáculo. E a pobreza naturalizada.
Existe trabalhador que vive com menos de um salário mínimo. Existem famílias que vivem até muito mais abaixo desse patamar. Em 2025, o rendimento domiciliar per capita brasileiro foi de R$ 2.316, segundo o IBGE. No Nordeste, foi de R$ 1.484; no Norte, R$ 1.568. E esses números são médias. A desigualdade real é muito mais brutal.
O próprio IBGE mostra a dimensão do abismo: em 2024, os 10% mais pobres tinham rendimento domiciliar per capita médio de apenas R$ 248, enquanto os 10% do topo chegavam a R$ 7.983.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre celebridades ou juízes. Passa a ser sobre um país que naturalizou a convivência entre extremos. Não é apenas desigualdade. É uma diferença de realidade. São brasileiros vivendo no mesmo território, falando a mesma língua e submetidos às mesmas leis, mas experimentando universos econômicos completamente diferentes. Para uns, dinheiro compra conforto. Para outros, não garante a sobrevivência.
E o pior de tudo é que as pessoas começam a interpretar culturalmente que se precisa de R$ 50 mil por mês para viver. Não se trata aqui de uma demonização sobre ter dinheiro, tampouco, transformar pobreza em virtude. Mas reconhecer que existe algo profundamente errado quando essa régua de necessidade dos privilegiados passa a ser um exemplo que todo mundo deve seguir.
O Brasil não é um só. Mas o Brazil não conhece o Brasil. Parece que alguns não sabem o tamanho do abismo.
Jeff Soares

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