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Cansamos do Descartável? Por Que Tanta Gente Voltou a Procurar Coisas dos Anos 80 e 90?

[...] talvez a vida tenha nos ensinado que esperar também fazia parte de gostar.

Cansamos do Descartável? Por Que Tanta Gente Voltou a Procurar Coisas dos Anos 80 e 90?
Imagem Internet/Unsplash

Talvez a geração que cresceu nos anos 80 e 90 tenha aprendido uma coisa que a velocidade do mundo atual quase fez a gente esquecer: as coisas tinham tempo para criar significado. Antes de existir streaming, havia o rádio. Antes da playlist infinita, havia o LP, o CD e a fita cassete. Antes de fotografar tudo, havia aquela preocupação em escolher o momento certo para apertar o botão da câmera. E antes de trocar uma música em dois segundos, era preciso levantar da cadeira, caminhar até o aparelho e virar o disco ou rebobinar a fita. Pode parecer pouco, mas era justamente nessa demora que existia uma parte da experiência.


O vinil não era apenas um suporte para música. Era um ritual. Havia a capa grande, as fotografias, as letras das canções, os encartes e aquele instante quase solene de colocar a agulha sobre o disco. O chiado fazia parte da paisagem sonora. Um disco era comprado para ser ouvido inteiro, muitas vezes repetidamente, até que determinadas músicas passassem a fazer parte da memória. O mesmo acontecia com o CD, que chegou prometendo praticidade e qualidade, mas também carregava algo que o arquivo digital não consegue reproduzir da mesma maneira: a sensação de possuir um álbum.


E havia a fita cassete, com seus pequenos dramas particulares. A fita embolava, precisava ser rebobinada com uma caneta, às vezes o aparelho engolia a preciosidade que você tinha acabado de gravar. As mixtapes eram declarações de afeto antes de existirem playlists compartilhadas. Gravar uma seleção de músicas para alguém significava escolher cada faixa, pensar na ordem e, muitas vezes, passar horas esperando a música certa tocar no rádio para apertar o botão REC no momento exato. Era trabalhoso. Justamente por isso tinha valor.


O rádio ocupava outro lugar nessa história. Para muita gente, ele foi companhia antes de ser simplesmente uma plataforma de áudio. Era acordar ouvindo música, esperar o locutor anunciar aquela canção favorita, participar de promoções, descobrir artistas e ficar atento ao telefone quando alguma música era dedicada. O rádio criava uma sensação de comunidade: milhares de pessoas podiam estar ouvindo a mesma música simultaneamente, mesmo sem se conhecer. Hoje temos acesso a praticamente qualquer música existente, mas perdemos um pouco daquela sensação de descobrir alguma coisa junto com os outros.


É curioso que, justamente agora, em uma época em que carregamos milhões de músicas no bolso, tanta gente esteja voltando para o vinil, para os CDs, para equipamentos antigos e para outras formas analógicas de consumir cultura. Não significa necessariamente que a tecnologia tenha fracassado. O streaming resolveu problemas que pareciam impossíveis décadas atrás. Mas talvez tenha criado outro: o excesso. Quando tudo está disponível o tempo inteiro, quase nada parece especial. O álbum deixa de ser uma obra e vira mais um item em uma fila infinita de conteúdos esperando alguns segundos de atenção. Mas o Web Rádio mostra um ponto de luz nessa discussão.




Essa sensação ultrapassa a música. A geração que cresceu nos anos 80 e 90 está redescobrindo fotografias impressas, livros, objetos antigos, videogames clássicos, aparelhos de som e até maneiras mais lentas de fazer coisas simples. Existe algo quase afetivo nessa busca. Não é necessariamente vontade de voltar ao passado. É vontade de recuperar a sensação de presença que existia nele. Um objeto antigo não é apenas um objeto: é um pedaço de uma época, uma lembrança materializada.


Talvez seja por isso que uma capa de disco possa emocionar mais do que milhares de músicas disponíveis em uma plataforma. Que um CD riscado possa ser guardado durante décadas. Que uma fita cassete possa sobreviver mesmo depois de perder a qualidade sonora. Que uma fotografia impressa continue dentro de uma gaveta quando aquele mesmo momento já desapareceu há anos das redes sociais. São coisas imperfeitas, limitadas e, justamente por isso, humanas.


A geração dos anos 80 e 90 cresceu aprendendo a esperar. Esperava a música tocar no rádio. Esperava o lançamento do disco. Esperava o programa de televisão começar. Esperava o filme passar na sessão da tarde ou chegar na locadora. Esperava a carta chegar. Hoje podemos ter quase tudo imediatamente. Mas talvez a vida tenha nos ensinado que esperar também fazia parte de gostar.


No fim das contas, essa volta ao analógico talvez não seja uma guerra contra o digital. É uma tentativa de encontrar equilíbrio. Podemos continuar ouvindo música por streaming e, ao mesmo tempo, colocar um vinil para tocar ou ouvir Rádio. Podemos mandar uma mensagem instantânea e ainda escrever uma carta. Podemos fotografar com o celular e imprimir aquela imagem que realmente importa. Podemos viver conectados sem transformar cada segundo da existência em conteúdo.


Algumas coisas não precisam ser rápidas. Algumas músicas merecem um lado A e um lado B. Algumas histórias merecem páginas. Algumas conversas merecem silêncio. Algumas fotografias merecem uma moldura. E algumas lembranças precisam de um objeto para continuar existindo.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador



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