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Quem Cuida de Quem Educa?

[...] Precisa fazer parte da cultura da escola.

Quem Cuida de Quem Educa?
Imagem Internet/Unsplash

Talvez você tenha visto um professor chegar à escola sorrindo. Talvez tenha ouvido “está tudo bem” quando perguntou como ele estava. Talvez nem tenha percebido que, antes de entrar naquela sala, ele já havia respondido mensagens de famílias, terminado um planejamento em casa, pensado em como adaptar uma atividade, corrigido trabalhos e tentado resolver um problema que ficou pendente do dia anterior.


Porque o professor não chega à escola apenas para dar aula.


Ele chega para ensinar, mas também para acolher. Para planejar, adaptar, registrar, avaliar, ouvir, mediar conflitos, conversar com famílias, lidar com comportamentos, pensar na inclusão, atender diferentes ritmos de aprendizagem e, muitas vezes, administrar situações para as quais não recebeu formação ou estrutura suficiente. E quando o sinal toca, nem sempre o trabalho termina.


Os números mostram que isso não é apenas uma percepção de quem está dentro da escola. Uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina acompanhou professores da rede estadual durante cinco anos e encontrou um cenário preocupante: mais de 60% relataram problemas relacionados à saúde mental. Ansiedade apareceu entre 39% dos participantes, estresse entre 32% e aproximadamente um terço relatou depressão. Oitenta e três por cento disseram sentir cansaço extremo. Noventa e um por cento afirmaram trabalhar além da carga horária prevista.


Quando tantos profissionais dizem estar exaustos, talvez seja hora de parar de perguntar apenas se eles estão sabendo “administrar o estresse”.


Talvez a pergunta precise ser outra: Quanto estamos exigindo de quem ensina?


Há uma diferença enorme entre ser resiliente e ser obrigado a suportar tudo. Resiliência não deveria significar aceitar excesso de trabalho, violência, desrespeito, cobranças intermináveis e a expectativa de estar emocionalmente disponível o tempo inteiro. Professor também tem limite. Também sente medo. Também se frustra. Também adoece.


E existe uma questão ainda mais incômoda: quem está ensinando nossas crianças a respeitar quem ensina?


Não se trata de colocar o professor acima de qualquer crítica. Professor também erra. Escolas também precisam ser cobradas. Famílias também precisam ser ouvidas. Crianças precisam ter voz. Mas ter voz não significa perder o respeito.


Quando um aluno agride verbalmente um professor e isso é tratado como “coisa de criança”, estamos ensinando alguma coisa. Quando uma família desautoriza o profissional diante do filho, estamos ensinando alguma coisa. Quando uma ameaça é minimizada, estamos ensinando alguma coisa. Quando o professor precisa provar diariamente que merece respeito, estamos ensinando alguma coisa.


E talvez essa seja uma das maiores contradições da educação atual: queremos ensinar respeito, mas muitas vezes não respeitamos aqueles que estão tentando ensiná-lo.


Não precisamos transformar o professor em herói. Aliás, talvez essa seja uma das primeiras coisas que precisamos mudar.


Heróis são aqueles que parecem conseguir suportar o impossível. Professores não precisam suportar o impossível. Precisam de condições para fazer bem o possível.

Precisam de tempo. De estrutura. De formação. De apoio. De diálogo. De segurança. De reconhecimento. E, acima de tudo, precisam saber que não estão sozinhos.


Porque uma escola saudável não é aquela em que o professor nunca se cansa. É aquela em que, quando ele se cansa, alguém percebe. Quando ele pede ajuda, alguém escuta. Quando ele é desrespeitado, alguém o protege. Quando ele adoece, alguém pergunta o que precisa ser mudado.


Porque cuidar de quem educa não deveria ser uma ação pontual, uma palestra em uma semana específica ou uma mensagem bonita em uma data comemorativa. Precisa fazer parte da cultura da escola.


Quem cuida da aprendizagem também precisa ser cuidado. Quem ensina sobre respeito também precisa ser respeitado. Quem acolhe tantas crianças também precisa encontrar um lugar onde possa ser acolhido.


E talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quem cuida de quem educa?”


Talvez seja: Que tipo de sociedade estamos construindo quando esperamos que aqueles que ensinam nossos filhos sejam fortes o tempo todo, mas esquecemos de ensinar nossos filhos — e nós mesmos — a respeitá-los?


Cuidar dos professores não é apenas cuidar de uma categoria profissional. É cuidar da própria educação. Afinal, antes de ser professor, existe uma pessoa. E pessoas também precisam de cuidado.







Alessandra Helena Prebianca


Psicopedagoga - Orientadora Parental 

Especialista em Desenvolvimento Infantil



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