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Xica da Silva: Quem Tem o Direito de Contar a História de uma Mulher Negra?

A Negra...

Xica da Silva: Quem Tem o Direito de Contar a História de uma Mulher Negra?
Foto Divulgação

Aos 30 anos da novela que marcou a estreia de Taís Araújo como protagonista, Xica da Silva volta ao centro do debate entre memória, representação, racismo e autoria. Com o testamento de Francisca da Silva revelado e o Salgueiro preparando uma nova leitura para o Carnaval 2027, talvez a pergunta mais importante não seja quem foi Xica, mas quem teve o direito de contar sua história.


Há histórias que atravessam séculos. E há histórias que, a cada geração, precisam ser recontadas.


Há 30 anos, uma jovem Taís Araújo, com 17 anos, entrava no ar como protagonista de Xica da Silva, novela da extinta TV Manchete dirigida por Walter Avancini. A personagem marcaria o início de uma trajetória que transformaria a atriz em uma das principais referências negras da dramaturgia brasileira.


Três décadas depois, Taís voltou às memórias daquele momento. Em uma publicação em suas redes sociais, para marcar os 30 anos da novela, contou sobre o medo ao receber o convite, a relação com Zezé Motta, que havia interpretado Xica no cinema, e a presença fundamental de sua mãe, Mercedes, durante as gravações. Zezé a acolheu, mas deixou uma frase que Taís carrega até hoje: o abraço estava garantido, mas a construção daquela personagem precisaria partir dela.


Talvez essa seja uma das frases mais importantes para compreender o que aconteceu depois. Porque Taís não estava apenas interpretando Xica. Aos 17 anos, ela também estava aprendendo a ocupar um espaço em uma indústria que ainda discutia muito pouco o racismo e a representação de mulheres negras. Em sua lembrança, a atriz relata a cobrança intensa nos bastidores, a rigidez do diretor e a necessidade de estabelecer limites. Também relembra como a imprensa acompanhava a chegada de seus 18 anos, quando a exposição de seu corpo passou a ser tratada como expectativa pública.


A questão não era apenas interpretar uma personagem. Era ser uma adolescente negra transformada em objeto de observação. A Xica de Taís Araújo não nasceu na televisão.


Em 1963, o Salgueiro já havia levado sua história para a Avenida. Em 1976, Zezé Motta interpretou a personagem no cinema, em Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues.



Zezé Motta em Xica da Silva (1976) @ Rui Medeiros


Ao longo das décadas, Francisca da Silva de Oliveira ganhou diferentes rostos e diferentes narrativas. E cada representação diz tanto sobre Xica quanto sobre o Brasil que decidiu representá-la. A personagem histórica, porém, não cabe completamente no mito construído sobre ela.


A descoberta e a disponibilização de seu testamento, que ganhou nova atenção pública em 2025, abriram espaço para novas pesquisas e interpretações sobre a trajetória de Francisca. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais produziu o documentário Chica da Silva – A Descoberta do Testamento, destacando a importância do documento para ampliar o conhecimento sobre a mulher histórica para além dos clichês consolidados pela ficção.


O documento não entrega necessariamente uma versão definitiva de Xica. Entrega outra coisa: possibilidades de leitura. E talvez seja justamente isso que uma história precisa quando atravessa tantos séculos.


Escrevivência: quando viver também é uma forma de escrever!


É aqui que o pensamento de Conceição Evaristo ajuda a ampliar essa conversa. Ao criar o conceito de escrevivência, a escritora propõe uma escrita que nasce das experiências, memórias e vivências, especialmente das mulheres negras, mas que não permanece restrita ao indivíduo. A experiência particular pode revelar uma dimensão coletiva. Não se trata simplesmente de escrever sobre si.


É escrever a partir de um lugar. De um corpo. De uma memória. De uma experiência social. De uma história que muitas vezes foi contada por quem estava do lado de fora. E talvez seja impossível não pensar em Xica a partir dessa perspectiva.


Francisca não deixou uma autobiografia que nos permita conhecer sua própria voz. O que temos são documentos, registros históricos e, ao longo dos séculos, narrativas produzidas por outras pessoas. Sua imagem foi sendo construída. Recontada. Erotizada. Romantizada. Carnavalizada. E transformada em símbolo.


Mas onde está a voz da mulher? Essa pergunta não serve apenas para Xica. Ela atravessa a experiência de muitas mulheres negras brasileiras.


Como mulher negra, profissional de marketing e especialista em relações étnico-raciais, penso que representação não pode ser reduzida à presença. Quem aparece importa. Mas quem narra também. Uma marca sabe disso quando entende que não basta colocar uma pessoa negra em uma campanha. É preciso considerar quem participa da construção daquela narrativa, quais referências estão sendo utilizadas, quais estereótipos estão sendo reproduzidos e quais possibilidades de existência estão sendo apresentadas.


Na cultura acontece o mesmo:


"Nas lentes de outros olhos"

O novo samba-enredo do Salgueiro parece partir exatamente dessa provocação:

"Nas lentes de outros olhos / O foco na nossa verdade é menor."


Para o Carnaval 2027, a escola retorna a Xica com uma proposta que parte da própria história que já contou em 1963, mas busca olhar novamente para aquilo que ficou escondido atrás do mito. O enredo Laroyê Xica da Silva propõe uma investigação sobre as diferentes versões de Francisca, atravessando história, carnaval, cinema, televisão, ancestralidade e religiosidade. E o samba escolhido para representar esse enredo transforma a discussão sobre narrativa em poesia.


"Tal qual a trama da atriz / Que encenou, de uma vida, um capítulo só / Eu, que já fui outras Xicas, refaço o roteiro, no chão que me fez triunfar."


Há algo muito poderoso nessa passagem. A atriz que interpreta. A personagem que é interpretada. A mulher histórica que existiu. E a mulher negra contemporânea que olha para todas essas versões e reivindica o direito de produzir uma nova narrativa. São camadas diferentes de uma mesma história.



Thais Araújo em Xica da Silva (1996) TV Manchete - Foto: Irineu Barreto Filho/Divulgação


Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/quem-foi-chica-da-silva-vivida-na-tv-por-tais-araujo/


Trinta anos depois, o que mudou? Taís Araújo tinha 17 anos quando interpretou Xica. Hoje, aos 47, ela olha para aquela menina com orgulho. Diz que aquela experiência lhe deu "a casca e a voz" para se tornar quem é.


Existe uma ironia bonita nessa trajetória. A menina que precisou aprender a se impor para sobreviver àquele ambiente profissional tornou-se, décadas depois, uma mulher que pode olhar para aquela personagem e também questionar a forma como ela própria foi representada. A Xica de 1996 foi construída dentro de uma televisão que tinha outras ferramentas, outras discussões e outros limites.


Hoje, as conversas sobre racismo, hipersexualização, colorismo, representação e letramento racial estão mais presentes no debate público. Mas a pergunta sobre autoria continua atual:


Quem escolhe quais histórias serão contadas? Quem define quais características de uma mulher negra serão enfatizadas? Quem decide quando ela é vista como sensual, forte, exótica, inteligente, perigosa, poderosa ou livre? E, principalmente: quem permite que ela conte a si mesma?


Xica não é uma só. Talvez a maior contribuição desse aniversário de 30 anos seja justamente não tentar encontrar uma Xica definitiva.


Existe a Xica do Salgueiro de 1963. A Xica de Zezé Motta. A Xica de Taís Araújo. A Xica dos documentos históricos. A Xica que está sendo investigada a partir de seu testamento. E existe a Xica que será levada novamente à Avenida em 2027. Cada uma revela um pedaço. Nenhuma precisa encerrar a história.


Porque a memória também é uma disputa de narrativa.


E, quando mulheres negras passam a ocupar o lugar de quem pesquisa, escreve, dirige, interpreta, comunica, cria campanhas, produz conhecimento e conta suas próprias histórias, alguma coisa fundamental muda. Não se trata apenas de ganhar visibilidade. Trata-se de ganhar autoria.


Conceição Evaristo chamou de escrevivência essa possibilidade de transformar experiência em narrativa, fazendo da voz individual uma dimensão também coletiva. Talvez seja esse o ponto em que Xica encontra Taís, encontra o Salgueiro e encontra tantas mulheres negras do presente. A história pode ter começado há séculos. Mas a narrativa continua sendo escrita.


E talvez a pergunta mais importante não seja mais quem foi Xica da Silva.


Mas: quem está escrevendo a Xica que será lembrada daqui para frente?







Maíra Cidade

Colunista

Apresentadora



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