Obrigado, Zailor!
[...] onde quer que a música continue depois daqui, que tu esteja tocando bandolim!
Hoje, Canguçu se despediu de um artista multi-talentoso. E esta perda é muito maior do que as palavras conseguem explicar. Hoje me despedi do Zailor Motta ― um músico, um artista, um homem negro, um ativista, um espiritualista e, acima de tudo, uma dessas pessoas que carregavam uma presença difícil de esquecer. Zailor tinha uma alegria que era somente dele, uma maneira muito particular de chegar, conversar, rir e compartilhar a vida. Era generoso com o que sabia e tinha uma capacidade rara de falar sobre coisas profundas sem transformar tudo em algo pesado.
Minha história com Zailor passa pela música, pelo batismo da minha filha, pelas histórias e pelas gargalhadas. Ele foi integrante da Antídotto Base, banda da qual fez parte entre 2009 e 2010. Quando penso naquele período, o que me vem a cabeça é aquela imagem icônica dele vestido padre em plena praça municipal tocando seu piano poderoso. Mas existe um retrato daquela época que hoje ganha outro significado: nós, reunidos em torno da música, cada um com seu instrumento e suas próprias inquietações, tentando encontrar juntos o som da Antídotto Base.
Naquele momento, nenhum de nós imaginava que, tantos anos depois, eu estaria agora escrevendo sobre a ausência de um daqueles companheiros de caminhada. Enquanto vivemos certas coisas, não percebemos que estamos construindo memórias. Só entendemos isso quando o tempo transforma presença em saudade.

Antídotto Base (2010)
Zailor era um músico inquieto e curioso. Professor de violão, multi-instrumentista e apaixonado pelo Samba de Raiz, Choro e Música Latina, além de transitar por diferentes linguagens artísticas e culturais. Mas havia algo nele que ia além da técnica. Ele gostava de experimentar, conversar e dividir descobertas. A música parecia ser, para ele, uma forma de compreender o mundo e também de se relacionar com as pessoas. Quantas noites ouvi suas composições e arriscar a cantar algumas delas.
Foi também nas nossas conversas que Zailor me falou sobre espiritualidade e, de maneira muito especial, sobre amor próprio. Não como uma fórmula pronta, mas como uma necessidade de reconhecer o próprio valor e aprender a se respeitar. Talvez eu só tenha compreendido plenamente algumas dessas conversas agora a pouco tempo, e provavelmente será ressignificado a partir dessa ausência. A vida tem dessas ironias: certas palavras ganham outro peso quando quem as disse já não está aqui.
Também não consigo separar Zailor do homem negro e ativista que ele foi. Sua presença na arte, na cultura e na música carregava essa dimensão de resistência, mas sem precisar transformar cada momento em discurso. Ele simplesmente ocupava seu espaço, criava, questionava, ensinava e vivia sua espiritualidade com naturalidade.

Zailor no Música Pela Vida IV (2012)
Hoje não quero transformar sua morte apenas em uma biografia ou em uma lista de realizações. Quero lembrar do amigo. Do músico com quem compartilhei a musicalidade, uma época da vida e tantos momentos que agora ganham um valor diferente. Quero lembrar daquele sorriso debochado, daquela alegria e daquela capacidade de tornar uma conversa qualquer em algo que valia a pena guardar. Principalmente pelo riso.
A saudade vai aparecer em lugares inesperados: numa música, num instrumento, numa lembrança dos tempos da Antídotto Base ou em alguma conversa que eu gostaria de ter novamente. E talvez seja assim que Zailor continue presente: não como uma lembrança distante, mas como alguém que ainda surge dentro daquilo que vivemos.
Hoje eu choro a sua partida, mas também agradeço pelo privilégio de ter dividido um pedaço da caminhada contigo.
Obrigado, Zailor, por ter sido meu amigo. Que você siga em paz, meu irmão.
E que, onde quer que a música continue depois daqui, que tu esteja tocando bandolim!
Jeff Soares

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