Não Mexam Com Nossa Senhora
A Instrumentalização da Fé pela extrema direita!
Vamos ser sinceros, quando a política e a justiça precisa invocar Deus para fabricar inimigos, alguma coisa está profundamente errada. Quando um projeto político precisa dizer ao cidadão em quem acreditar, qual símbolo religioso respeitar ou qual tradição merece ocupar o centro da vida pública, já não estamos diante de uma simples manifestação de crença. Estamos diante de uma disputa por poder utilizando aquilo que deveria pertencer à consciência de cada indivíduo. E é impossível ignorar o avanço desse expediente em setores da extrema direita brasileira: transformar religião em identidade política, identidade política em instrumento de mobilização e diferença religiosa em ameaça.
O problema não está em um político professar sua crença. Todo cidadão tem esse direito, inclusive quem ocupa um cargo público. A questão começa quando a convicção individual pretende se transformar em regra coletiva. Dizer “minha crença me orienta” é legítimo. Defender que o Estado deve se submeter a ela é outra coisa. A Constituição garante liberdade religiosa e estabelece que o poder público não pode estabelecer cultos ou criar relações de dependência com instituições religiosas. É justamente essa separação que protege tanto quem acredita quanto quem não acredita.
A instrumentalização política das crenças torna-se especialmente perigosa quando transforma adversários em inimigos morais. O debate sobre políticas públicas passa a ser apresentado como uma disputa entre “bons” e “maus”, “crentes” e “inimigos de Deus”, “família” e “ameaça”. É uma fórmula poderosa porque dispensa argumentos e trabalha com o medo. Quando alguém convence o eleitor de que determinado grupo pretende destruir seus valores, deixa de ser necessário discutir propostas. Basta fabricar um inimigo.
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida demonstra como esse terreno é delicado. Flávio Bolsonaro afirmou que um dos seus primeiros atos se eleito presidente era fazer o Brasil ser de Jesus Cristo, a história de retirar a proclamação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil ainda está cercada de obscuridades; a história que circulou nas redes foi desmentida e houve determinação judicial do ministro evangélico André Mendonça para retirada de conteúdo que ele considera falso. Ainda assim, a velocidade com que o assunto se transformou em combustível eleitoral revela algo maior: símbolos religiosos passaram a ser disputados como território político. De um lado, candidatos são apresentados como defensores de determinada tradição; de outro, espalha-se o temor de que ela esteja ameaçada. No fim, símbolos que pertencem à história do povo acabam reduzidos a peças de campanha.
A contradição fica ainda mais evidente quando observamos o tratamento dado às Religiões de Matriz Africana. Enquanto alguns setores políticos reivindicam liberdade para manifestar suas convicções publicamente, Terreiros de Umbanda e Candomblé continuam enfrentando intolerância e ataques de todos os tipos. A liberdade religiosa não pode ser privilégio de quem pertence à maioria. Se vale para a Igreja, precisa valer para o Terreiro. Se vale para Católicos e Evangélicos, precisa valer também para Umbandistas e Candomblecistas e também para quem optar por seguir nenhuma. Não existe liberdade seletiva.
É nesse ponto que determinados discursos políticos revelam sua verdadeira dimensão. Quando Jesus Cristo, Nossa Senhora ou qualquer outra referência espiritual é utilizada para criar hostilidade contra o próprio povo que pensa ou acredita de maneira diferente, a questão deixa de ser espiritual e passa a ser uma covardia política. Nenhuma tradição precisa de um palanque para existir. Muito menos deveria ser transformada em instrumento para determinar quem é mais brasileiro, mais moral ou mais digno de respeito.
A utilização da religião como ferramenta eleitoral também permite uma estratégia particularmente conveniente: transformar divergências políticas em batalhas absolutas. Economia pode ser discutida com números; saúde pública, com indicadores; educação, com resultados. Mas quando a política é apresentada como uma guerra espiritual, qualquer crítica pode ser tratada como perseguição. O adversário deixa de precisar ser enfrentado com argumentos: basta apresentá-lo como ameaça aos valores sagrados. É uma estratégia eficiente para mobilizar, mas perigosa para uma democracia.
E precisamos entender definitivamente que essa instrumentalização religiosa pertencente à extrema direita pode matar. O Estado laico não é inimigo das religiões, tampouco é ateu. Ele existe justamente para impedir que uma única visão espiritual determine os direitos e deveres de toda a população.
Nossa Senhora Aparecida não precisa ser colocada contra Jesus. Jesus não precisa ser colocado contra os Orixás. O Terreiro não precisa ser colocado contra a Igreja. E quem não acredita não precisa pedir autorização para existir.
A democracia não exige que todos acreditem na mesma coisa. Exige que todos possam viver de acordo com sua consciência sem serem perseguidos por isso. Crença pode ser abrigo, memória, identidade e esperança. Quando vira instrumento de poder, porém, pode se transformar em mecanismo de divisão. Parem, não usem símbolos sagrados para fabricar inimigos, não transformem espiritualidade em arma eleitoral e não façam da diferença uma ameaça.
O Brasil não precisa de uma única verdade religiosa. Precisa de liberdade para todas as consciências.
Jeff Soares

Jornalismo
Músico
Apresentador
Comentários (1)
Toda vez que se misturou religião com política, deu muito ruim! Nosso Estado é laico. Ou seja, preserva o direito de crer ou não crer. Mas, como tem muita gente graúda sendo investigada, até Nossa Senhora Aparecida vira alvo...
6 dias atrás