cover
Tocando Agora:

Os 42 Anos de Perfect Strangers do Deep Purple

O Álbum Que Reuniu A Formação Clássica MKII pela 1ª Vez!

Os 42 Anos de Perfect Strangers do Deep Purple
Foto Divulgação

O Deep Purple não voltou em 1984 porque as feridas da década anterior haviam desaparecido. Voltou porque, apesar delas, ainda existia algo que nenhum dos cinco conseguira reproduzir completamente longe daquele núcleo: a química. O resultado dessa reaproximação foi Perfect Strangers, lançado em 1984 e transformado em um dos grandes discos de retorno da história do rock. O álbum marcou o reencontro da formação conhecida como Mark II (Ritchie Blackmore, Ian Gillan, Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice), que não gravava junta desde Who Do We Think We Are (1973), e representou o primeiro álbum de estúdio do Deep Purple em nove anos. 


Uma Reunião Que Parecia Improvável

A história precisava de tempo para cicatrizar — e mesmo assim nunca cicatrizou completamente até 2026. A Mark II havia produzido alguns dos trabalhos mais importantes do hard rock, como In Rock, Fireball e Machine Head, mas também acumulado conflitos, principalmente entre Gillan e Blackmore. Gillan e Glover deixaram a banda em 1973; Blackmore saiu posteriormente, em 1975; e o Deep Purple encerrou sua primeira fase em 1976. Durante os anos seguintes, os músicos seguiram caminhos diferentes: Blackmore formou o Rainbow que em determinado momento contou com Roger Glover, Gillan desenvolveu sua carreira solo e passou pelo Black Sabbath, enquanto Jon Lord e Ian Paice participaram do Whitesnake e de outros projetos. Quando a possibilidade de reunião começou a ser articulada, portanto, não eram cinco músicos simplesmente retomando de onde haviam parado: eram cinco homens que haviam construído carreiras, acumulado ressentimentos e experimentado outras formações. 


A reunião começou a tomar forma no fim de 1983, quando empresários de Blackmore e Gillan passaram a sondar a possibilidade de reconstruir a Mark II. Gillan estava encerrando sua passagem pelo Black Sabbath, que havia acabado de lançar Born Again, enquanto Blackmore já trabalhava em material que poderia resultar em um novo projeto. Roger Glover mostrou inicialmente alguma resistência, Ian Paice estava disposto a experimentar e Jon Lord, então no Whitesnake, também acabou aderindo. O que inicialmente poderia ser apenas uma apresentação especial ganhou dimensão de projeto permanente. Em abril de 1984, a reunião foi oficialmente anunciada. Era novamente Deep Purple — Blackmore, Gillan, Glover, Lord e Paice. 




Perfect Strangers, O Som Ainda Estava Lá

O mais impressionante em Perfect Strangers talvez seja o fato de o disco não tentar simplesmente reproduzir Machine Head. A banda voltou em uma década dominada por sintetizadores, glam metal, produção grandiosa e novas gerações de guitarristas. Ainda assim, o Deep Purple entrou no estúdio com sua identidade intacta: o Hammond de Jon Lord, a guitarra de Blackmore, a bateria de Paice, o baixo de Glover e os vocais de Gillan. As gravações aconteceram no Horizons, em Stowe, Vermont, entre julho e agosto de 1984, e o material nasceu rapidamente. O próprio Roger Glover posteriormente descreveu Perfect Strangers como um álbum que fluiu com facilidade, em contraste com as dificuldades enfrentadas na produção de The House of Blue Light, três anos depois. 


A abertura com “Knocking at Your Back Door” praticamente funcionava como uma declaração de intenções. O teclado de Lord surge primeiro, a bateria de Paice estabelece o terreno e então o riff de Blackmore entra para anunciar que aquela reunião não era apenas nostalgia. A faixa tornou-se uma das grandes músicas da nova fase e permaneceu associada aos shows da banda. Na sequência, “Under the Gun” mostra um Purple pesado e acelerado; “Nobody's Home” recupera parte daquela combinação de riff, órgão e vocal que havia marcado o grupo nos anos 1970; e “Mean Streak” mantém a energia do disco. Entre as faixas, “Nobody's Home” tem ainda uma particularidade: foi uma das poucas composições creditadas aos cinco integrantes da formação. 


Mas é a faixa-título, “Perfect Strangers”, que talvez sintetize melhor o espírito daquele reencontro. O órgão de Lord cria uma atmosfera sombria, quase hipnótica, enquanto Blackmore constrói um dos seus riffs mais memoráveis. É uma música sobre distância, estranhamento e reconhecimento — e, involuntariamente ou não, o título parecia servir perfeitamente à situação daqueles cinco músicos. Eles eram velhos parceiros que haviam passado mais de uma década separados. “A Gypsy's Kiss” recupera a velocidade característica do Purple, enquanto “Wasted Sunsets” apresenta um lado mais melancólico de Blackmore, com uma guitarra carregada de blues e espaço para Gillan trabalhar uma interpretação mais carregada de sentimento. “Hungry Daze”, por sua vez, encerra o álbum olhando para a própria história da banda.




O Sucesso Provou Que Não Era Apenas Nostalgia

Comercialmente, Perfect Strangers mostrou que ainda havia um enorme público esperando pela volta daqueles cinco músicos. O álbum alcançou o 5º lugar no Reino Unido e o 17º na Billboard 200 dos Estados Unidos, tornando-se um dos lançamentos mais bem-sucedidos da carreira do grupo e o segundo álbum de estúdio do Deep Purple a receber certificação de platina nos Estados Unidos, depois de Machine Head. A resposta também apareceu na estrada: a turnê de 1985 foi gigantesca, especialmente nos Estados Unidos, onde a procura por ingressos levou à inclusão de diversas datas adicionais. 


Só que o sucesso comercial não apagou os problemas internos. A velha tensão entre Gillan e Blackmore continuava existindo, e a questão dos créditos das músicas revelava que a democracia dentro do grupo estava longe de ser perfeita. Gillan e Glover queriam recuperar o modelo de composição coletiva que havia caracterizado a Mark II original, mas Blackmore manteve posição firme sobre os créditos. No álbum, apenas algumas músicas receberam crédito para os cinco integrantes. A aparente reconciliação, portanto, tinha limites bastante claros. 


Mas Perfect Strangers é fascinante. Ele não é simplesmente um disco em que cinco velhos amigos esqueceram suas diferenças. É o registro de cinco músicos extremamente talentosos descobrindo que ainda conseguiam funcionar juntos apesar de tudo aquilo que os havia separado. A reunião duraria alguns anos, renderia The House of Blue Light em 1987 e o álbum ao vivo Nobody's Perfect em 1988, mas a instabilidade retornaria: Gillan deixaria novamente o grupo em 1989, sendo substituído por Joe Lynn Turner. A Mark II ainda teria outros capítulos, mas nunca mais aquela volta teria exatamente o mesmo impacto. 


Perfect Strangers permanece, portanto, como algo maior do que um álbum de reunião. É um documento de uma época em que o Rock Clássico começava a descobrir que sua própria história também poderia ser um acontecimento. O Deep Purple voltou quando muitos de seus contemporâneos estavam separados, transformados ou tentando sobreviver às novas tendências. Voltou com cicatrizes, egos, diferenças e uma relação complicada entre seus integrantes — mas voltou tocando como Deep Purple. Eles não precisaram fingir que os anos não haviam passado. Bastou provar que, quando aqueles cinco se encontravam novamente, ainda existia fogo suficiente para queimar.







Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


Comentários (0)