Mais Uma Vez: Bullying e Gordofobia
[...] Ser gordo não é uma autorização para ser humilhado.
Hoje fui até o armazém da quadra da minha casa. Um caminho banal, desses que fazemos sem pensar, porque faz parte da rotina. Passei por uma garagem e, em poucos segundos, fui novamente alvo de bullying e gordofobia. O que poderia ser apenas mais uma ida ao comércio tornou-se mais um daqueles episódios quase que diários que nos lembram que, para algumas pessoas, o corpo do outro ainda parece ser um espaço público, aberto à piada, ao comentário e à humilhação.
Mas o que mais me incomodou não foi apenas o deboche e o cochicho. Foi a cena. Havia um homem ao lado do próprio filho. E ali estava, diante de uma criança, a oportunidade de ensinar respeito, empatia e humanidade. Em vez disso, aquele homem ensinava, pelo exemplo, que é aceitável ridicularizar alguém porque seu corpo não corresponde ao padrão que ele considera adequado. Crianças aprendem muito mais pelo que observam do que pelo que os adultos dizem. E talvez essa seja uma das partes mais tristes de episódios como esse: o preconceito não nasce pronto. Muitas vezes, ele é aprendido, passado de pais para filhos.
Ser gordo não é uma autorização para ser humilhado. Não é convite para piada. Não é justificativa para comentário sobre aparência. Meu corpo não é patrimônio público. Eu não preciso emagrecer para merecer respeito, assim como ninguém precisa caber em determinado padrão físico para ter direito à dignidade. Existe uma diferença enorme entre falar sobre saúde, escolhas pessoais e hábitos e transformar o corpo de alguém em motivo de escárnio. Quando a intenção é diminuir, não existe preocupação genuína. Existe preconceito.
Ainda encontramos, em determinados ambientes, uma mentalidade profundamente conservadora, na qual aquilo que foge do padrão é rapidamente transformado em motivo de julgamento. O diferente incomoda. O corpo diferente incomoda. A maneira diferente de pensar incomoda. A liberdade de ser quem se é incomoda. E, muitas vezes, o preconceito aparece justamente travestido de brincadeira, costume ou "jeito de falar".
Não estou dizendo que todas as pessoas pensam assim. Seria injusto e desonesto colocar todo mundo no mesmo lugar de comportamento a não ser seguido. Mas também seria covardia fingir que determinados pensamentos não existem. Uma cidade, um Estado, um País, não amadurece apenas porque o tempo passa. Amadurece quando começa a questionar aquilo que durante décadas foi tratado como normal. E algumas formas de preconceito continuam sendo reproduzidas justamente porque ninguém se dispõe a interromper o ciclo.
O que aconteceu comigo pela milésima vez, vai ser tratado por algumas pessoas como uma bobagem: "foi só uma brincadeira", "não liga", "é assim mesmo". Mas me recuso a aceitar essa lógica. É exatamente o "é assim mesmo" que permite que determinadas violências continuem acontecendo. Primeiro alguém faz uma piada. Depois outra pessoa ri. Uma criança observa. Amanhã, aquela criança pode repetir o comportamento com outra pessoa. E assim o preconceito atravessa gerações, passando de boca em boca, de garagem em garagem, de família em família.
Eu não gostaria de ver uma criança crescendo com a convicção de que humilhar alguém é uma forma de diversão. Quero que crianças aprendam que pessoas gordas, negras, altas, baixas, deficientes, diferentes ou simplesmente fora do padrão merecem exatamente aquilo que deveria ser básico: respeito.
Talvez a minha maior indignação hoje não seja sequer ter sido alvo, mas perceber que ainda precisamos explicar por que isso machuca. Ainda precisamos defender o direito de existir sem sermos transformados em chacota. Ainda precisamos ensinar adultos que uma pessoa não perde sua dignidade porque seu corpo é diferente.
Eu já fui alvo disso outras vezes. E cada nova situação não dói apenas pelo episódio presente. Ela carrega junto todas as outras vezes em que precisei engolir uma risada, um comentário, um olhar ou uma palavra atravessada. É como se cada agressão encontrasse cicatrizes antigas e decidisse abri-las novamente.
Mas existe uma coisa que eu não mais vou fazer: sentir vergonha de existir.
Meu corpo não é motivo de vergonha. Minha presença não é motivo de vergonha. Vergonha deveria sentir quem precisa diminuir outra pessoa para se sentir maior. E talvez seja aí que esteja a mudança que algumas cidades, algumas famílias e algumas pessoas ainda precisam fazer: entender que educação não é apenas saber ler, escrever, trabalhar ou ser cordial. Educação também é aprender a não transformar a diferença alheia em espetáculo.
Hoje eu fui ao armazém da quadra de casa. Voltei para casa pensando em tudo isso. E definitivamente percebi que o problema nunca esteve no meu corpo. Está naquilo que algumas pessoas ainda carregam dentro de si — e insistem em ensinar aos filhos. A desumanidade.
Jeff Soares

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Comentários (1)
"Ah, mas hoje em dia tudo é bullying". Não, sempre foi. Hoje, não devemos colocar desculpas em relação a preconceitos. É triste ver que essas coisas ainda acontecem. Sinto muito por teres passado por essa situação...
3 dias atrás