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Luck and Strange - O Novo Albúm de David Gilmour

[...]Sou um desses homens que se emociona ouvindo música, mas jamais imaginaria que precisaria de um disco novo de David Gilmour para colocar para fora muitos de meus sentimentos engavetados...

Luck and Strange - O Novo Albúm de David Gilmour
Foto Divulgação

Sou um desses homens que se emociona ouvindo música, mas jamais imaginaria que precisaria de um disco novo de David Gilmour para colocar para fora muitos de meus sentimentos engavetados, nem imaginaria que aqueles acordes e aqueles solos eram tão necessários em meio a uma infindável gaveta de possibilidades. Não sei se estamos lidando com o clássico atemporal, mas com certeza trata-se de um clássico deste tempo, um álbum profundo, que te coloca em lugares desconfortáveis para depois te mostrar um oásis de beleza e luz.


‘Luck and Strange’ foi gravado em cinco meses entre idas e vindas de Brightn e Londres, o primeiro disco de David Gilmour com músicas inéditas nos últimos nove anos. Produzido por Gilmour e Charlie Andrew, que David diz: “Ele tem uma maravilhosa falta de conhecimento ou respeito por esse meu passado”, quando se refere aos famosos solos de guitarra do músico que fez história no Pink Floyd. Trazendo uma produção mais moderna.




A grande parte das letras foram compostas por Polly Samson, colaboradora e parceira de vida de David pelos últimos 30 anos. O disco segundo Polly tem um “ponto de vista de um ser mais velho”. O disco apresentada oito faixas novas e uma releitura de ‘Between Two Points’ da banda The Montgolfier Brothers e tem a capa feita pelo renonado Anton Corbijn que tem em seu currículo U2, Depeche Mode, Nirvana e The Police.


O disco conta com a participação do falecido tecladista do Pink Floyd Richard Wright na faixa título, que foi gravada em 2007 em uma Jam Session no celeiro da cada de David Gilmour. As outras contribuições surgiram durante a pandemia entre 2020 e 2021, em jams como a família. Romany Gilmour, filha de David, que toca harpa e faz os vocais principais de ‘Between Two Points’. Gabriel Gilmour também faz backing vocals. Participam do disco Guy Pratt e Tom Herbert no baixo, Adam Betts, Steve Gadd e Steve DiStanislao na bateria, Rob Gentry e Roger Eno nos teclados com arranjos de cordas e corais de Will Gardner.



Richard Wright e David Gilmour em 2007, em uma Jam Session que resultou na faixa título do Álbum.


FAIXA À FAIXA

O álbum começa com a faixa instrumental ‘Black Cat’, uma espécie de prólogo que virá depois, deixando aqui um misto de sensações, mas principalmente uma dúvida: Sorte? Ou Estranheza?


A faixa título ‘Luck and Strange” já começa com acordes arrebatadores para os amantes do Rock Progressivo de outrora, nos transportando para tempos áureos. Os vocais de Gilmour soam magistrais e emotivos, uma entrega de corpo e alma, o arranjo de teclados de Richard Wright são estupendos e me fez refletir sobre o quanto um músico deste nível nos faz falta. E o solo de David, meu Deus que solo, poderia ouvi-lo por horas, as trocas entre David e Richard são incríveis! A música nos traz uma reflexão profunda sobre o tempo que não para, sobre as constantes mudanças e a busca por um norte para si mesmo. A faixa celebra a reflexão da vida como ela é e está.


‘The Piper’ Call’ tem outra pegada, parece soar mais moderna, trazendo um clima mais intimista, algo que já vimos nos trabalhos do guitarrista e vocalista, mas é um convite para explorar nossas ações com ação e consequência, falando das manipulações e dos perigos do caminho mais fácil e mais tentador para as pessoas, meio que colhemos o que plantamos. O instrumental é digno dos tempos de ouro, mais uma vez destaco o belo solo que finaliza a faixa. Também uma homenagem a Syd Barrett.




Em ‘A Single Spark’ os questionamentos sobre as incertezas dos dias e dos movimentos, um questionamento sobre o que fazer quando a Fé deixa de ser o suficiente, mas prova-se que no fim as boas intenções é o que verdadeiramente valem e que estes sãos os movimentos essenciais para a vida. A canção tem uma pegada muito próxima a músicas do Pink Floyd pós Waters e nos presenteia com um belo, emocional e inspirado solo de David Gilmour.


Vita Brevis é mais um instrumental que soa como uma canção de ninar para o que virá em ‘Between Two Points’ cantada por Romany Gilmour, num excelente trabalho. A canção traz uma reflexiva imagem sobre as nossas vulnerabilidades, nossos medos, nossas aceitações e também sobre a resignação e frustração. A música soa como um ombro amigo que te faz enxergar por vielas que é necessário aceitar certas coisas, para que se consiga chegar a outras. Um belissimo retrato sobre a fragilidade dos homens, suas dores e sua aceitação. Romany canta, toca harpa, a melodia te conquista nos primeiros acordes e mais uma vez a estrela de um gênio das seis cordas brilha neste long play.



David e Romany Gilmour


‘Dark and Velvet Nights’ traz uma veia mais roqueira ao álbum, às vezes soando progressiva, às vezes soando bluseira, bem a cara de David Gilmour ao longo de sua carreira solo. A letra é uma reflexão sobre o amor, sugerindo que o amor tem poderes de desbloquear coisas em nós, que nós mortais nem imaginamos, mas que tudo ainda assim é temporário. Uma bela canção do álbum. E o solo? Sim mais uma vez Gilmour brilha.


‘Sings’ é uma legitima música que poderia ocupar lugar em qualquer trabalho do guitarrista ou nos últimos trabalhos do Pink Floyd, sem a presença de Roger Waters. A canção é um pedido ao tempo, para que vá devagar, para não se apressar demais, pois não estamos prontos para tantas notícias, que nos levam as dúvidas sobre ir ou ficar. Uma linda canção. Aqui a surpresa é um solo de Órgão em vez de guitarra.


‘Scattered’ é um chamado, um pedido para que nos segurem e nos ajudem a seguir em frente, uma reflexão sobre a necessidade de desacelerar e ver a luz interior de cada um, enquanto os momentos passam. A música possui várias camadas rítmicas progressivas, os vocais claros e límpidos de David nos dão uma bela leitura sobre a vida que estamos vivendo. Destaque para o solo feito com violão, que antecede o de guitarra, nesta faixa belíssima, que também mesma blues e progressivo. Uma das melhores do disco na minha singela opinião. Contribuição de Charlie Gilmour, filho de David.




Em ‘Yes, I Have Ghosts’ é cantada em dueto por David e Romany, foi inspirada no romance de Polly Samsom, já estava disponível antes do lançamento do disco pois fazia parte do audiolivro do romance. Traz uma letra introspectiva, falando sobre as perdas, sobre a memória de um passado e seus fantasmas. É uma canção orquestrada, uma faixa de época, bem como retrato de uma história contada.


Para finalizar ainda traz a Jam Session original de ‘Luck and Strange’ com a participação de Richard Wright e toda construção da música.


O disco é fenomenal, uma obra belíssima, onde uma grande guitarrista brilha, o álbum é de longe o melhor lançamento solo de David Gilmour, um disco feito em família durante a pandemia. O disco traz reflexões profundas sobre a velhice e a contagem dos dias para um ‘fim’, trazendo uma sensação que eu diria ser necessária, para os dias que vivemos.



por

Jeff Soares

Músico, Locutor

Jornalista, Web Designer

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