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Imprensa Que Se Cala, Oportunismo Que Ocupa

[...] Democracia não exige neutralidade diante de quem ameaça a democracia.

Imprensa Que Se Cala, Oportunismo Que Ocupa
Imagem Internet

É impressionante como setores da imprensa passaram a agir como se qualquer reação firme ao bolsonarismo pudesse ser confundida com “tomar partido”. O resultado é perverso: para demonstrar que não são “parciais”, alguns acabam relativizando aquilo que não deveria ser relativizado. Democracia não exige neutralidade diante de quem ameaça a democracia. Exige compromisso com as regras do jogo.


O problema fica ainda mais evidente quando determinadas alas da imprensa se mostram muito mais dispostas a desmoralizar governos e políticos democráticos do que a enfrentar, com a mesma intensidade, discursos que flertam com ruptura institucional. E não se trata de defender Lula, o PT ou qualquer outro partido. Trata-se de reconhecer que há diferenças entre uma disputa política dura e um projeto de enfraquecimento das instituições.


As recentes declarações de Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Constituição e sobre uma suposta “redemocratização” já provocaram preocupação justamente porque envolvem alterações profundas no equilíbrio entre os Poderes. O jornalismo deveria estar na primeira linha dessa discussão, não esperando para descobrir a gravidade do problema quando a crise já estiver instalada.


É nesse cenário que aparece Michel Temer, com seu apoio a Flávio Bolsonaro, anunciado poucos dias depois do primeiro turno. O ex-presidente apresentou a candidatura como expressão de “mudança”, “novas ideias” e “reconexão” com a sociedade. Uma declaração profundamente oportunista. Temer não está apenas apoiando um candidato: está tentando emprestar sua imagem institucional a um projeto político que apresenta propostas capazes de alterar profundamente a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. E existe uma ironia histórica aqui: foi o próprio Temer quem indicou Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal em 2017 — justamente um dos principais alvos do bolsonarismo. O que mudou? A defesa das instituições deixou de ser princípio e passou a ser apenas uma questão de conveniência política?


A política brasileira oferece outro exemplo eloquente desse pragmatismo: Ronaldo Caiado. Durante o primeiro turno, o então candidato atacou Flávio Bolsonaro e chegou a dizer que, entre Lula e Flávio, “tanto faz roubar com a mão esquerda ou com a direita”. Terminada a eleição, porém, Caiado aderiu à campanha de Flávio e passou a trabalhar por sua vitória. E quando o jornalista Josias de Souza o confrontou sobre essa mudança de posição no UOL News, em vez de responder objetivamente à contradição, Caiado partiu para o ataque pessoal: chamou o jornalista de “petista”, disse que ele precisava “medir as palavras” e afirmou que Josias estava acostumado a entrevistar “bandido, corrupto e safado”. É um episódio revelador: quando a pergunta incomoda, tenta-se desqualificar quem pergunta.


E aqui está uma questão que deveria incomodar profundamente o jornalismo brasileiro: quantas vezes a imprensa vai aceitar que políticos ataquem jornalistas simplesmente porque não gostaram da pergunta? A liberdade de imprensa não existe para proteger jornalistas de críticas — políticos têm todo o direito de discordar, contestar e responder. Mas transformar uma pergunta legítima em motivo para intimidar o entrevistador é outra coisa. Josias estava fazendo aquilo que se espera de um jornalista: confrontando Caiado com suas próprias declarações. O próprio UOL registrou que Caiado, ao justificar seu apoio, disse que “tem lado” e que não seria neutro. Então que se assuma o lado, mas que também se assuma a responsabilidade pelas contradições. O que não pode é exigir liberdade para mudar de posição e, ao mesmo tempo, tentar constranger quem pergunta por quê.


No fundo, Temer e Caiado representam, cada um à sua maneira, uma política que parece descobrir princípios conforme as circunstâncias. E parte da imprensa, ao tratar essas movimentações apenas como mais uma rodada do jogo eleitoral, corre o risco de cometer o mesmo erro de sempre: normalizar o excepcional.


Não estamos pedindo um jornalismo militante; pede-se jornalismo atento, capaz de distinguir adversário político de ameaça institucional, divergência de intimidação e pragmatismo de oportunismo. Quando um político muda de posição, a imprensa deve perguntar. Quando alguém ataca um jornalista por perguntar, deve registrar e contextualizar. E quando um candidato fala em modificar a Constituição e restringir poderes institucionais, não cabe esperar que a história termine para então reconhecer o perigo. A imprensa não precisa escolher candidato. Mas precisa escolher, todos os dias, entre a democracia e a sua banalização.






Jeff Soares

Jornalismo

Músico

Apresentador


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