Uma Revolução Contada em Música e Poesia
[...] Sei que muita gente critica os festejos da semana do Gaúcho, dizendo que comemoramos uma guerra que nem vencemos. A elas, sempre explico que nossa comemoração é sim realizada em torno da data. Mas o real sentindo foi sempre comemorar e enaltecer a nossa cultura e a fibra do povo gaúcho...
No dia 20 de Setembro é comemorado o dia do Gaúcho e coube a mim a honra e responsabilidade de narrar a história da origem da data. Como sou uma fã incondicional dessa rica cultura resolvi pesquisar uma fonte tão rica de memórias que não perde em nada a qualquer página de história. Esse texto vai ser descrito através de fragmentos retirados da rica Música Gaúcha. E que material Rico e maravilhoso!! Vamos embarcar nessa viagem?
“Como a aurora precursora do farol da divindade; Foi o 20 de setembro o precursor da liberdade.” Não poderia começar a narração sem enaltecer o lindo hino do Rio Grande do Sul. Letra de Francisco Pinto da Fontoura. Nessa primeira estrofe faz alusão Ao amanhecer de 20 de setembro de 1835, os farrapos invadiram Porto Alegre e depuseram o presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul (hoje seria o governador do Estado). Foi o começo da maior guerra civil já ocorrida no Brasil, que se prolongou por 10 anos.

Também chamada de Guerra dos Farrapos, ficou conhecida com esse nome pela vestes dos rebeldes farroupilhas como nos contou Francisco Luzardo e Tiago Cezarino em Milonga Maragata “Chiripá de saco branco, Lenço atado e meia espalda; E uma vicha que se esbalda, na melena esgadelhada, na cintura, a carniceira, Companheira de degola”.
Embora a origem simples do exército rebelde, o movimento foi gerado pela elite da província insatisfeita com o Regência do Diogo Antônio Feijó descrita em forma de poesia em Tempos das Charqueadas (Sonia Mara/João Lucas Cirne) “Por favor vamos entrar, pois é grave o assunto que tenho a falar; os impostos cobrados dos charques, eu ponho em destaque, precisam mudar!” Outras insatisfações era o recrutamento de pessoas e cavalos para compor o exercito do império, o roubo de gado nas fronteira e também a indicação de Antônio Rodrigues Braga como presidente da província.
“Nós de comando do General Bento Gonçalves, estamos prontos para seguir nossa missão; Cada gaúcho tem no peito uma fagulha, da chama viva da nossa revolução”. É com esse chamamento que Erlon Péricles destaca o nome do comandante do embate. Vindo de Guerras como a Revolução da Cisplatina, o mesmo incorpora ideais Republicanos e separatistas em todo o conflito. Em 1836, na batalha do Seilval se torna presidente da República Rio Grandense.
Poderia escrever vários parágrafos relatando heróis da Revolução, mas vou pedir licença e chamar atenção da presença feminina da Guerra, Anita Garibaldi. “Anita menina da verde Laguna, Mulher farroupilha legaste tua fibra; Fizeste tuas filhas a todas mulheres; A todas mulheres do sul do Brasil. Um filho no braço no outro um fuzil” de Marlene Pastro, em parceria com escritor e poeta Alcy Cheuiche.
Um destaque da força e da garra para ascensão de inúmeras vitória dos rebeldes é a presença dos Negros. Com promessas de liberdade feita pelos estancieiros a quem lutassem eles entraram de corpo e alma na batalha. É o que nos conta a emblemática música de Cesar Passarinho, Negro de 35 “Deixar o trabalho escravo, seguir destino campeiro; As promessas de igualdade aos filhos no cativeiro, E buscando liberdade o negro se fez guerreiro”.
Essa enorme força se destacou e formou o exercito dos Lanceiros Negros, parte muito emblemática no quadro da revolução. Francisco Pinto da Fontoura, em sua letra que leva o mesmo nome explica de forma precisa o fim trágico desses verdadeiros heróis. “E no Ponche Verde, as flores que nascem, Parecem bandeiras da luta tenaz ; Onde os combatentes de lanceiros negros, Plantaram com sangue a semente da paz”.

Cena de documentário sobre o Massacre de Porongos, quando lanceiros foram dizimados por tropas imperiais.
Fonte: Agência Senado
Com o passar do tempo, o exército dos Farroupilhas foi perdendo contingentes e recursos, o que vemos narrado em Gaúchos de Fato: ”Aqui tem poucos cavalos, a munição tá escasseando; Me mande montarias, guapos, mantimentos; Estamos de venta aberta, peleando pela querência; No punho a tenência, no peito um sentimento.” De Regis Marques.
O final do conflito se deu no dia 1º de março de 1845 com a assinatura do Tratado de Ponche Verde. E o meu querido Nenito Sarturi ressaltou em versos em Poncho e Paz: ”Pois da controvérsia é que brotam as luzes; Debates e embates diferem na essência, Ideias são armas que não plantam cruzes; No verde do amargo ao verde esperança; Que um dia sonharam os nossos avós. Um tempo de paz, de alegria e bonança; Que com suor e sangue semearam pra nós.”
Os conflitos terminaram com um acordo que rendeu vantagens a província de São Pedro. Também a incorporação de generais no exército nacional o que levou descontentamento as pessoas simples que deram seu sangue no conflito, é o que vamos ser agraciados na Musica Sabe Moço de Francisco Alves: “Sabe, moço; Depois das revoluções; Vi esbanjarem brasões, Pra caudilhos coronéis Vi cintilarem anéis Assinatura em papéis; Honrarias para heróis”. “E o que restou? Ah, sim! No peito em vez de medalhas; Cicatrizes de batalhas; Foi o que sobrou pra mim’.

J. Wasth Rodrigues (1937)
Sei que muita gente critica os festejos da semana do Gaúcho, dizendo que comemoramos uma guerra que nem vencemos. A elas, sempre explico que nossa comemoração é sim realizada em torno da data. Mas o real sentindo foi sempre comemorar e enaltecer a nossa cultura e a fibra do povo gaúcho, como diz José Fernando Gonzales em O Grito dos Livres: “Enquanto o gaúcho for visto no pampa; Enquanto essa raça teimar em viver; O grito dos livres ecoará nesses montes, Buscando horizontes libertos na paz.”
por
Edna Loreto

Medica Veterinária
Escritora
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