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Conto - HOMINES ET DEOS

CAPÍTULO I

Conto - HOMINES ET DEOS
Conto - HOMINES ET DEOS (Foto: Reprodução)

Estava amanhecendo em São Paulo, mais uma manhã com o céu cinza e modorrento, tudo o que Carlos queria, era poder ficar na cama até mais tarde e poder fugir do temporal que, certamente viria no meio da manhã. As ruas estavam ainda cheias de sujeira deixada pela ventania e posterior temporal que houvera na noite passada, os garis teriam trabalho hoje, pensou Carlos jogando as cobertas para o lado e, literalmente pulando da cama.


A imagem que lhe contemplava do espelho, barba por fazer e cabelos desgrenhados, imitava seu espírito nessa manhã. A noite e mais, o dia anterior tinham sido frustrantes e decepcionantes, não seria fácil arranjar um novo emprego nestes tempos de crise.


Carlos era um sujeito baixo, atarracado e estava ficando careca mais cedo do que gostaria, aos trinta e quatro anos já estava com entradas consideráveis nas têmporas e um belo cocuruto exposto e brilhante, isso o deprimia e fazia com que sua autoestima fossa aos calcanhares. Ele havia trabalhado nos últimos anos em um posto de gasolina na zona sul e na manhã passada havia recebido seu aviso prévio, estava demitido. A empresa somente explicou que estavam cortando gastos pois não estavam tendo um faturamento que sustentasse a quantidade de funcionários atual, o que o consolava em partes, pois não seria o único a perder o trabalho.


Com esses pensamentos em mente, Carlos entrou no chuveiro, aproveitando o banho para se barbear. Após vestir-se, seguiu para seu desjejum que consistia de um café requentado com algumas bolachas já ficando murchas. Ele comeu sem vontade e saiu para a manhã, que prometia uma chuvarada na terra da garoa.


Como teria de ir ao centro, desceu até a estação Ana Rosa para pegar o metrô da Sé e ao chegar na roleta, esbarrou em um cidadão enorme que quase o derrubou. Em São Paulo, um esbarrão desses pode gerar uma confusão dos diabos, ainda mais em dias cinzas como aquele. O cidadão nem se desculpou e seguiu em frente sem se dar conta que deixara cair algo. Carlos ainda tentou chamar a atenção do brutamontes, mas ao olhar em volta ele havia se misturado à multidão e sumiu. Ele pegou o pequeno objeto do chão e seguiu seu caminho sem dar maiores atenções. Mal sabia ele que aquele objeto, frágil e diminuto, traria grandes aventuras para ele. 


Enquanto isso, na Baixada Santista, Elza entrava no quarto de Tadeu para chamá-lo pela terceira vez para ir ao trabalho quando se deu conta que seu marido já tinha se levantado e estava terminando de se arrumar para sair. Ele era o responsável por abrir a loja da família pontualmente às nove. Como a loja ficava perto de sua casa, Tadeu podia se dar ao luxo de uma caminhada.


Ao sair para a rua percebeu que iria chover, certamente iria chover. Mas, quem sabe se acelerasse o passo poderia evitar se molhar e assim se dirigiu para a rua. Tadeu, um cara alto, de olhos verdes e uma beleza incomum para pessoas daquela região, sempre foi um cara de bem com a vida e com as pessoas, fazia amigos por onde passava e era uma pessoa muito bem quista por seus amigos. Há alguns anos que sua família abrira a loja de instrumentos musicais no coração do Gonzaga em Santos e agora, ele era o responsável por fazer a rotina de abertura da loja. Há algum tempo ele se livrara do hábito da bebida e deixara de lado as bagunças da noite santista.


Ao se dirigir para a loja, com pressa para escapar da chuva, ele pensava em quanto tempo se passara desde que sua vida tinha entrado nos eixos novamente. Há três anos ele estava em crise e se entregara a uma vida de prazeres efêmeros e desregrados, que o levaram a um ciclo depressivo que quase lhe custou o casamento. Todavia isso eram águas passadas, pensou, agora tudo está bem e andando na linha.


Perdido nesses pensamentos, quase chegando a loja, ao atravessar uma rua, ouviu uma freada brusca de algum apressado que quase o atropela. Após esse susto, ele olhou para o chão e viu, na sarjeta, o pequeno objeto brilhante que lhe chamou a atenção. Pegando aquele objeto em suas mãos ele sentiu um arrepio em sua espinha, e por um breve momento, visualizou como poderia usá-lo.

Guardando o pequeno objeto no bolso, seguiu seu caminho para evitar um atraso indesejado, sem saber que grandes coisas aconteceriam a partir daquele momento.


Isolda estava a alguns mil quilômetros de Tadeu e de Carlos, nada tinha a ver com os dois e nunca tinha sequer ido a São Paulo ou Santos, mas naquela manhã, antes de acordar, teve um vislumbre de dois rapazes que vinham em sua direção, carregando objetos pequenos e brilhantes. Ao levantar da cama sentiu o cheiro de café fresco vindo da cozinha, sendo preparado por sua mãe, que certamente tinha feito cuscuz, pensou ela. Ao entrar na cozinha encontrou a mesa posta e lá estava café preto e cuscuz, que ela atacou imediatamente com voracidade. Isolda recebera este nome de sua mãe que, na adolescência havia lido tudo que podia sobre a lenda do Rei Arthur, inclusive o poema Tristão e Isolda, de onde tirou o nome da filha, que com quinze anos dizia ter nome de uma velha de setenta. 

Isolda era a típica adolescente rebelde, tinha amigos que também eram rebeldes à sua maneira, não toleravam autoridades e já haviam arranjado encrenca com as autoridades em Recife algumas vezes, o que trazia uma certa instabilidade em seu relacionamento com sua mãe. Seu pai havia falecido pouco depois de ela nascer, e sua mãe casara-se com outro homem algum tempo depois, mas Isolda não se dava com ele e seu relacionamento era turbulento e cheio de discussões, o que entristecia sua mãe e afastava cada vez mais as duas.


Terminado seu café, Isolda pegou sua mochila e saiu para ir a escola, mas não sem antes dar um aceno para sua mãe que estava na sala assistindo ao jornal matinal. Ao sair do prédio onde morava, ela foi inundada pela luz do sol forte e calorento de Recife e seguiu para a escola onde estudava, ou fazia de conta que estudava, pois não era raro ela desviar seu caminho para a praia de Candeias para ficar com seus amigos e assim, burlar as regras impostas pela mãe.


Quando passava em frente a uma ótica em Piedade, Isolda visualizou na vitrine um pequeno objeto que lhe chamou a atenção, numa atitude que nunca houvera tomado e que desagradaria imensamente sua mãe, ela entrou na loja, despistou a vendedora com uma solicitação aleatória e subtraiu o objeto da vitrine saindo da loja apressadamente sem reparar que a vendedora a observava sorrindo como se tudo fizesse parte de uma encenação. Mal sabia Isolda que ela estava destinada àquele objeto, assim como Carlos e Tadeu aos seus…


CONTINUA…


por

Hermes Crowley



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