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Tocando Agora:

Perspectivas #7: Viver com sentido.

Uma ponte entre Viktor Frankl e o som hardcore da banda Pense.

Perspectivas #7: Viver com sentido.
Imagem Internet/Pixabay

Sou um profundo admirador da filosofia e um entusiasta do pensar sobre o sentido da vida. Por vezes fazemos à vida, e isso não é incomum, a pergunta “por que estamos aqui?” como se ela pudesse nos responder. Estou aqui hoje trazendo uma das minhas maiores referências pra falar sobre como não somos nós quem fazemos essa pergunta. Nós a respondemos.


Comecemos contextualizando. Atualmente quando se fala em “sentido da vida” fica difícil não mencionar o nome de Viktor Frankl (1905-1997). Este senhor, Vienense de nascimento, foi psiquiatra, neurologista, escritor, sobrevivente dos extremos horrores cometidos em campos de concentração na segunda guerra e um dos maiores pensadores da história a respeito do levar uma vida com propósito e seus benefícios em termos de saúde e bem-estar. Escreveu vários livros e deixou contribuições que transitam entre a psicologia, medicina, educação, política, espiritualidade, e muitas outras áreas do conhecimento. Mas o que é viver com sentido, afinal?


Segundo Frankl, uma vida com sentido é, basicamente, uma vida em que as nossas ações estão alinhadas com os nossos valores. Encontramos sentido ao criar, ao entregar coisas ao mundo ou a outra pessoa na forma de um trabalho ou um ato, mas também encontramos através das experiências com as quais nos conectamos (curtir a vida com responsabilidade, se conectar às pessoas, à arte, ao que o mundo tem a nos oferecer). Ou, então, através da ressignificação das nossas dificuldades e, a partir disso, buscar uma conexão com ações ligadas aos nossos valores pessoais. Nada de metafísico demais, mas nem por isso estamos falando de algo simplório. Do ponto de vista dele, somos seres livres e capazes de escolher quem queremos nos tornar, momento a momento, e responsáveis por aquilo que escolhemos - o que nos leva a uma reformulação de uma pergunta fundamental. Em vez de questionar o que esperamos da vida, Frankl nos convida a perguntar a nós mesmos o que a vida espera de nós.



Viktor Frankl


Bom, agora é a hora em que a gente pega toda essa reflexão e constrói a ponte com a música. E aí temos o Pense, banda mineira de hardcore, que em 2018 nos trouxe o excelente disco "Realidade, Vida e Fé", que explora diversos temas da existência humana - inclusive, a música escolhida pra hoje se chama "Existência". Ao mesmo tempo em que critica uma visão de mundo puramente materialista, a música convida à reflexão sobre aquilo que temos feito de nossa vida. Na introdução do texto de hoje, disse eu que não somos nós quem perguntamos à vida sobre o porquê de estarmos aqui, porque, de acordo com o Viktor Frankl, é a vida quem nos faz essa pergunta - da mesma forma que a música do Pense faz ao ouvinte.


Nós respondemos, e respondemos através daquilo que escolhemos ser e fazer dentro das possibilidades que cada momento oferece. Não necessariamente estamos falando de um sentido geral da vida ou da humanidade, mas de abraçar possibilidades de sentido a cada dia. Isso implica estar presente no aqui e agora, implica num processo de autoconhecimento para que a gente tenha clareza daquilo que é importante e valioso para nós e, assim, encontre algum direcionamento nessa grande estrada.



Pense - Realidade, Vida e Fé (2018)


"E se você perdesse tudo, sobraria alguma coisa pra te admirar?

A verdade é que a morte um dia chega

E pode ter certeza que ela vai chegar

Talvez devesse estar atento ao que você cultiva dentro das pessoas

Pois nosso corpo é perecível, o que fica é o que foi plantado na vida"


Desde que escutei o Pense pela primeira eu cultivo uma percepção sobre o trabalho deles de que todo o peso do som, a rapidez, a forma gritada como a letra é cantada, todos esses elementos juntos fazem com que pareça que a ideia é estimular o ouvinte a entrar em contato com outras percepções através de uma chacoalhada brusca. É como se o peso todo tivesse, também, essa função de chacoalhar o ouvinte para que ele fique atento ao que se está sendo falado. Não sei de onde veio o nome da banda, não realizei essa pesquisa, mas me soa curioso ser uma palavra escrita no imperativo. Algo como um pedido, "Pense".


Bom, façamos isso: Quem somos além dos nossos títulos, além daquilo que temos? Estamos construindo uma vida alinhada com aquilo que é valioso pra nós? É necessário recalcular alguma rota nesse momento? Bom, se você está lendo isso me soa lógico que você esteja vivo. E se há vida, há possibilidade de transformação - ainda que sutil. Disse Viktor Frankl que o sentido é sempre possível e que não depende das circunstâncias, mas sim de como nos relacionamos com elas - e conosco mesmo. No livro “Em Busca de Sentido” ele fala sobre isso, fica a dica de leitura.


Por aqui, continuamos construindo pontes e explorando perspectivas.



por

Igor Jeske

Psicólogo

Músico

Comentários (1)

thiagorepulsa
thiagorepulsa

belo texto, me fez refletir amigo.

1 ano atrás