Sobre Um Fim de Relacionamento - Amizade Descolorida
[...] Assim segui, vivendo uma vida mais introvertida, mais saudável, mas a solidão me engolia vivo.
Tudo pronto. Sentei – me no chão da sala ao lado do sofá, acabara de pintar as paredes e limpar tudo, mudei os quadros de lugar, arrumei os discos em caixas de paletes, reguei às plantas, deixei a rosa vermelha na mesinha de centro que improvisei, agora só falta me dar um banho, para fazer cair o suor do corpo no ralo do banheiro, sem me sentir culpado de nada, apenas sorrindo outra vez, seguindo a vida. Inês virá para cá, prometemos passar a noite juntos, fazer um jantarzinho simples, beber algumas cervejas em casa e evitar os bares antigos, às músicas e o cheiro de cigarro que fica impregnado na roupa.

Fizemos almôndegas e macarrão, abri uma cerveja, ficamos na frente da TV vendo o jornal, ela assistiu a novela, o calor era insuportável e um pouco de tédio com a TV. O ar-condicionado do quarto era mais interessante nesta hora. Deitamos e ficamos conversando, acabei adormecendo, estava muito cansado. Inês velou meu sono. Quando acordei no meio da noite transamos, foi bom, mas havia algo diferente com ela, haviam expressões que eu não conhecia. Levantei, abri uma cerveja, lhe ofereci, preferiu água, fui até a janela, noite linda, lua cheia, então fui abraçado por trás e ouvi o que mais temia: eu te amo.
Um mundo desconhecido se abriu, não sabia mais onde estava, “Inês te pedi, que não deixasse isto acontecer, eu não estou preparado”. Quando mais argumentava, mais entendia, que a linha tênue da amizade-colorida havia sido ultrapassada e que eu não sabia como lidar com isso. Para mim era bem claro, eu não era o homem ideal para viver um relacionamento naquele momento. Inês chorou, gritou, ficou com raiva, mas não a deixei ir embora sozinha às três e meia da manhã. Voltamos ao quarto, nessas horas gelado demais. Deitamos, afastados, um em cada canto, ouvia seu choro contido e me mantive em silêncio, queria respeitá-la. Adormecemos e acordei dentro de uma conchinha.

Levantei, ela ainda dormia, fiz o café, abri as janelas, peguei a Zero Hora, passei os olhos pelo caderno esportivo, ouvi seus passos em direção a sala, estava pronta para ir embora. Tentei convencê-la a tomar café, foi inútil, ela apenas disse que havia entendido e que não queria causar mais problemas. Disse-lhe que eu não queria lhe causar mágoas, lhe repeti que ainda não havia espaço para um relacionamento e que era melhor continuarmos apenas como amigos. Sua reação foi apenas partir sem dizer uma palavra. O que de forma equivocada me trouxe a sensação de história encerrada. Foi mais um novo engano.
Uma semana depois, arrumando-me para sair, batidas na porta, era Inês sem avisar, queria conversar, queria pedir uma chance para me fazer esquecer meu passado com Júlia. Mais uma vez lhe disse que não. Inúmeras vezes ela tentou, tive que ser paciente, às vezes duro, tive que resistir a carne, fiquei mal com as tentativas de manipulação emocional, todo esse jogo, até chegar ao ponto de não reconhecer mais aquela pessoa que há semanas atrás era minha amiga, confidente.

Afastei-me, não seria certo com ela, tampouco comigo ceder, entrar em uma relação apenas por uma zona de conforto. Não seria saudável viver algo que de fato não era recíproco na gaveta do amor, entre uma mulher e um homem, seria viver uma mentira. Uma ferida que Inês não merecia. Decidi adotar a solitude definitivamente. Depois de um tempo, ela entendeu, arranjou um namorado ciumento, que me odiava, mas que lhe supria em suas necessidades emocionais.
Assim segui, vivendo uma vida mais introvertida, mais saudável, mas a solidão me engolia vivo. Deixe-me ser mastigado pelo silêncio, até que a vida me surpreendesse novamente.
por
Jeff Soares

Músico, Locutor
Jornalista, Web Designer
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