Perspectivas #8: Minha Própria Companhia
Alguns pensamentos sobre fazer as pazes com a solidão.
Esse texto começou a surgir numa madrugada de sábado, após um rolê com alguns amigos. Sempre achei curioso o sentimento de branda melancolia que surge quando chego em casa depois dos rolês, é como chegar e dar de cara com a velha e conhecida solidão. Quis escrever sobre ela, e aqui estamos nós.
Pelo que me lembro, eu sempre fui uma pessoa introvertida, com as minhas dificuldades com ambientes muito agitados e minhas travas em relação à socialização – travas que, graças a muito trabalho terapêutico, tem se soltado. Como essas são coisas que me acompanham há muitos anos, ao longo do tempo, conforme a vida ia passando, fui precisando reavaliar a minha relação com a solidão – que foi sempre uma estranha e frequente companhia. Não à toa aprendi violão – o que muita gente compreende como um “dom pra música”, ou algo que o valha, eu compreendo como fruto de muita prática e de uma necessidade de alívio. Nada de mórbido por aqui, não quero me expressar mal, eu só sinto que por vezes transformo em notas o barulho do silêncio. É algo que sempre me fez muito bem, que começou a partir de um genuíno interesse pela música mas que assumiu, também, um papel terapêutico. Felizmente, com tantos anos de treino, minhas alquimias sonoras têm sido mais agradáveis a quem às escuta (risos).

Apesar da branda melancolia que sempre trouxe, a familiar companhia da solidão me possibilitou uma série de coisas bacanas ao longo dos anos. Já falei do violão, instrumento o qual tive bastante espaço pra praticar no meu quarto por anos a fio, mas também houveram outras coisas. Houve contato com o que sinto, com o que penso, com as minhas necessidades, dificuldades, limites, com o que me é importante e me traz sentido na vida. Na solidão eu me aproximo de mim mesmo, posso me observar e me cuidar (algo que abordei, inclusive, num outro momento do Perspectivas, aquele sobre a banda Menores Atos), posso me conhecer mais à medida em que me abro pra abraçar quem sou.
Me parece que existe um lado positivo nessa solidão, ou pelo menos nessa abertura pra acolher a própria companhia quando não há ninguém por perto. Quando cuido de mim, cuido também das relações que estabeleço com as outras pessoas e com o mundo - indiretamente cuido dos outros e do mundo, parando pra pensar. Talvez eu me torne uma melhor companhia quando aprendo a gostar da minha própria. Talvez eu respeite mais o tempo e o espaço do outro quando percebo que o meu tempo e o meu espaço também são importantes e precisam ser respeitados. A solidão me permite passar um tempo comigo e me descobrir. Me permite escutar os álbuns que tanto me tocam e me conectar com aquelas melodias e letras, ou conversar com aquele autor de um livro antigo e aprender algo com ele. Se hoje me considero músico de coração, a minha relação com a solidão tem parte nisso.
Apesar da proximidade entre “se sentir só” e “estar isolado”, quero diferenciar uma coisa da outra. Vamos entender aqui o isolamento como um afastamento das relações e algo que potencialmente pode vir a gerar ou se relacionar a uma série de dificuldades, inclusive em termos de saúde mental. No fim das contas, somos seres sociais e, querendo ou não, precisamos de outras pessoas – e tudo certo. O ponto aqui do texto não é se isolar, nem mesmo fugir desse sentimento, mas se abrir pra acolher a ele e a aquilo que ele quer nos comunicar e, a partir disso, escolher o que fazer – como lidar com ele da melhor forma possível dentro daquele contexto. Aprender uma nova habilidade, sentar-se com um livro e uma xícara de chá, cantar e dançar pra si mesmo longe dos olhares e câmeras, conversar com os próprios pensamentos e sentimentos – como visitas, que vêm e vão. Talvez a solidão não seja um grande monstro quando acolhida com gentileza.

Sugiro apenas que a gente fique atento a se, por exemplo, esse sentimento de solidão não está associado a algum tipo de exclusão ou de isolamento. Daí as conversas já são outras, na medida em que passa a envolver outros aspectos que vejo como importantes de considerar e que podem mudar a dinâmica das coisas – daria até pra gente ter um outro ‘Perspectivas’ sobre isso, inclusive.
Bom, como temos lidado com a nossa companhia? Quando volto dos meus rolês e todo mundo em casa já dorme, é comigo que eu fico, é a mim mesmo que encontro. Acho que cabe pensarmos e repensarmos esse tipo de coisa, já que estamos conosco sempre. Por aqui, continuamos pensando, sentindo e construindo pontes. Sigamos juntos.
por
Igor Jeske

Psicólogo
Músico
Comentários (1)
essa solidão pós-rolê é bem comum, também sinto. demorei muito pra acolher a solidão com carinho e aprender com ela a gostar de mim mesmo. belo texto amigo!
1 ano atrás