Um dia de alguém com TDAH
Sim, eu tenho TDAH!
O TDAH sigla para identificar o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Trata-se de um distúrbio neurobiológico reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Suas causas podem ser genéticas ou físicas, quando o indivíduo apresenta pequenas alterações na região frontal do cérebro Esse local é, responsável pela inibição do comportamento e do controle da atenção. Sim, eu tenho TDAH!
Na realidade é um pouco mais complexo. Essa encarnação pedi para vir com os maiores desafios possíveis, um dia relato para vocês tudo o que já passei. Sabe uma série médica? Um pequeno spoiler foi um diálogo com meu ex-namorado a poucos dias. Questionei onde poderia ir para ver da compatibilidade de realizar uma doação de órgãos ou tecidos. Resposta: - Edna, pelo amor de Deus, chega de hospital e cirurgia para você!!
Voltando ao foco da conversa (coisa quase impossível). Fui diagnosticada a algum tempo atrás com Síndrome de Asperg e ganhei de brinde o diagnóstico do déficit. Confesso que já tinha uma leve desconfiança (risos)! Sim, sempre fui taxada de avoada (como falam no Rio Grande do Sul) e já tinha características desde novinha. Andar na ponta dos pés foi algo que marcou minha primeira idade. Minha família achava maravilhosa a característica e tratou logo de me inscrever na escola de dança (muito obrigada mamãe, de verdade!!!).

Também tenho seletividade alimentar. Para as outras pessoas parece frescura, mas para o portador da síndrome é quase impossível misturar texturas e sabores. Eu nunca consegui comer macarrão com arroz, me parece que vão entrar em conflito a qualquer momento. Também tenho dificuldades na trocas de sabores. Feijão tem que ter o mesmo tempero por exemplo.
Ter uma imaginação retilínea (imagino tudo em sentido literal) e não entender nuances de sentimentos também é bem marcante nos portadores. Não entendo nuances de sentimentos. Não demonstro sentimentalmente o que sinto na maioria das vezes como os “normais”. Minhas manifestações de como as coisas me atingem são de aspectos físicos. Sou aquela pessoa que trava na hora do perigo. Em questão de stress meu corpo convulsiona.
Mas Edna, tem benefícios de ser assim, já que é uma condição e não uma doença? Tem sim, e sou bem feliz com eles. Encaro a vida de forma mais leve. Não guardo magoas e rancores. Querem um exemplo que todos ficam perplexos? Sou amiga de todos os meus ex-namorados e do meu ex-marido também! Minhas interações sociais também são diferentes. Não ligo se as pessoas não falam comigo o tempo todo. Mas fico feliz quando elas me procuram.
Muitas vezes esqueço de dar notícias. Não porque não me importe com os outros, e me importo até demais. Tenho pânico de que invadam meu espaço, então odeio ser invasiva na vida dos outros. Isso já ocasionou muitos conflitos. Então pela praticidade e a paz mundial tenho algumas listas de transmissão. Nelas estão todos que considero queridos. Dou bom dia e boa noite de forma tranquila. Se o outro lado responder, continuo conversando. Se não, beleza, o pessoal sabe que estou viva.

Meu ritmo de aprendizagem é diferente. Não decoro nada, mas se entender de onde surgem a informação nunca mais esqueço. Posso não lembrar onde coloquei a chave que estava comigo a dois segundos. Mas se você conversou algo comigo a 10 anos atrás e foi relevante, lembro até da sua roupa.
Outra característica que me ajuda muito é a questão do hiperfoco. Posso passar horas realizando tarefas que eu acho interessante na mesma concentração daquelas que iniciei. Como sou cirurgiã é um beneficio e tanto.
Ser diagnosticada e entender tudo o que se passa me ajudou muito a ter uma vida mais regrada. Criar uma rotina e seguir padrões também é um beneficio e tanto. Então se você se angustia com sua falta de atenção ou acredita que isso está atrapalhando sua vida, procure um profissional como um terapeuta, um psicólogo. Se amar e se entender é também isso!
por
Edna Loreto

Médica Veterinária
Escritora
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