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Solidão, Minha Companheira

[...] Vesti minha armadura de forte e superei com muita garra, mas no fundo sempre quis alguém que segurasse minha mão.

Solidão, Minha Companheira
Imagem Internet/Pixabay

Estou em uma fase diferente e cheia de descobertas da vida. A fase de descobrimento e tratamento de mágoas e traumas. Confesso que tudo isso tem sido gratificante, mas doloroso. Ainda mais que o tema dessa semana é falar da minha companheira de muitos anos, a solidão.


Sou de uma família tradicional, meus pais e irmãos sempre tiveram muitos amigos, sempre estavam envolvidos em festas e confraternizações, mas eu não. Sempre fui de poucos amigos, na verdade dois e eles me acompanham desde muito novinha até hoje. Na fase adulta, encontrei outra pessoa maravilhosa que é a Mônica. No resto, foram colegas de trabalho, de faculdade, de dança.


Namorei muito cedo, e a maior parte foi a distância, não nos víamos todos os finais de semana e os que ele passava sozinho, ele tinha uma rede enorme de amigos, então aproveitava e eu ficava em casa, se quisesse ir ao cinema ou tomar um lanche, iria sozinha. O que às vezes fazia de diferente era sair com meus pais. Nós que passávamos juntos, nos recolhíamos à casa dele, já que ele estava cansado e queria ficar por casa. Conto nos dedos as saídas para baladas, cinema, etc. em 18 anos de relacionamento.


A fase que mais foi dolorida dessa solidão foi a do câncer. Sim, enfrentei essa barra praticamente sozinha. Foi no meio da faculdade. Meus irmãos e meus pais trabalhavam e meus amigos foram morar em Pelotas, por causa da faculdade. Meu noivo nunca me acompanhou, não lembro se ele me visitou na internação da cirurgia, e nunca tive seu acompanhamento nas quimioterapias. Claro que minha família ajudava na minha locomoção, mas a maioria do processo eu estava sozinha. Vesti minha armadura de forte e superei com muita garra, mas no fundo sempre quis alguém que segurasse minha mão.



Imagem Pixabay


Os anos foram passando, superei as limitações, o câncer. Mas ganhei muito peso com isso e, para alguém que já tinha dificuldades de relacionamento, ficou muito pior. O preconceito com alguém com obesidade mórbida me transformou em um monstro com quem ninguém queria conviver. Vencer a depressão e a devastação disso foi mil vezes pior que o câncer.


Mesmo namorando, tive algumas paixões platônicas. Sentimentos que guardava bem escondidinho, uma vergonha quase. Um vizinho, colegas da escola, amigos dos amigos. Nunca passou de olhares e suspiros. Reencontrei uma delas após superar a obesidade e também estar solteira. E foi incrível. Durante quase dois anos, vivi o sonho do relacionamento perfeito. Éramos inseparáveis, procurávamos fazer tudo o que podíamos juntos. Malabarismos para organizar a agenda, sempre prontos para uma nova aventura, cumplicidade e uma vontade louca de ficarmos juntos. E o trágico aconteceu. Uma novela, pode ser?


Superar a perda dessa vez foi menos solitário. Meus amigos de infância e a Mônica me ajudaram muito. Me permiti uma aproximação do pessoal do Centro Espírita e me dei conta de que nunca fui aberta a isso. Conheço muita gente, mas não permito aproximação. Uma vez, a mãe de uma das minhas paixões platônicas foi até a loja dos meus pais. Adoro toda a família até hoje. E no meio da conversa, ela soltou: Edna, você não tem a dimensão de como você foi importante para o fulano, nunca entendi por que vocês não ficaram juntos até hoje!




Por incrível que pareça, outros anos de profunda solidão foram meu casamento. Casei com alguém muito sério e introspectivo. Não gostava de conviver com pessoas estranhas e, em 11 anos, recebemos pouca gente na nossa casa, praticamente só a nossa família. Também odiava que eu me relacionasse com outras pessoas. O mundo era somente a gente. Ele trabalhava muito e, quando estava em casa, passava a maior parte do tempo no quarto lendo ou trabalhando. Não tínhamos nada em comum em padrões de música. Ele odiava sair de casa e, se saía, era para dar uma volta de carro. Jantares e festas foram apenas dois. Por incrível que pareça, uma viagem de casal no período.


Hoje entendo que esse processo de ser mais solitária se faz referência às minhas limitações da Síndrome de Asperger. E que é difícil eu estar no barulho ou no caos. Já consigo ter mais interações com as pessoas, mas ainda sigo o padrão das paixões platônicas. Quero muito curar essas feridas e me abrir. Mas tudo é uma questão de tempo e cicatrizes.


A caixa de Pandora já foi aberta, e isso é bom!



pot

Edna Loreto

Médica Veterinária

Colunista

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