cover
Tocando Agora:

Diego Dias - Entrevista

Batemos um papo com o baterista Diego Dias, das bandas Atijo Wá e StoneBlock de Rio Grande!

Diego Dias - Entrevista
Foto Divulgação

Diego Dias é um baterista como poucos, ele não só transmite seus sentimentos no ritmo de uma bateria, seja na Atijo Wá ou na StoneBlock, Diego consegue transpirar como poucos um ideal justo de sociedade. Esse papo que tivemos foi uma grande experiência pra mim, conversei com um cara que eu nem sabia que admirava tanto, seja das épocas da Kassingueira, que muito embalou minhas viagens sonoras, seja nos atuais projetos que fazem parte da mesma cena que eu vivo, o Underground vivo do Rio Grande do Sul. Confira!




Diego, conte – nos um pouco da sua história. Quem é o Diego Dias?

Diego Dias é um apaixonado por arte, skate, cultura de rua, música, mas também gosto das imagens, fotografia, cinema. Um estudante de Ciências Sociais, louco por política, anarquista, baterista, percussionista. Sou natural de Rio Grande, tenho 40 anos de idade e devo ter passado boa parte desses 40 anos alternando entre o skate e a bateria duas das minhas paixões que começaram muito cedo em minha vida, não consigo precisar ao certo e nem qual foi a primeira, o que eu entendi depois de algum tempo, é que não vivo mais sem elas. No geral tive uma adolescência normal de um guri preto de um bairro de trabalhadores, vivências que te levam aos extremos dos sentimentos, da alegria da liberdade do “brincar” a frustração da falta de acesso cultura, quê a gente só percebe dessa forma hoje em dia, nessa realidade transitei pelo RAP, letras fortes, me identifico até hoje com muitos artistas. Respondendo a pergunta “Quem é Diego Dias?” Ouvi da pessoa mais linda que já conheci, que sou um apaixonado pela liberdade em todas suas formas.


Quando a música começou a fazer diferença na sua vida?

A música sempre foi muito presente na minha casa, meus pais tinham por hábito ouvir música, conheci na infância, artistas como Pink Floyd, Santana, Black Sabbath, Secos & Molhados, esses posso dizer que foram os que me marcaram. Já mais pro final da adolescência, tive a sorte de poder abrir um estúdio para ensaios, o que me abriu um novo horizonte de eventos, nesse momento eu me aproximei mais dos “bastidores” da música.


Quais são as tuas influências musicais mais importantes?

Tive uma base muito diversa por causa do meu pai que ouvia de Black Sabbath a Joelho de Porco, de Supertramp a Bezerra da Silva, isso passava por Tincoãs, O Terço, Emílio Santiago. Dessa salada de sons eu sempre acabava tendo mais afinidades com as distorções de guitarra mais densas, as baterias mais ritmadas e com contratempos. Coisas que achava em bandas como Black Sabbath, Deep Purple mas também têm as atmosferas e sonoridades únicas do Secos & Molhados, Mutantes.


E na Bateria?

Sempre tive muita curiosidade, então sempre olhava nos discos os artistas, os nomes dos músicos, de curioso mesmo, pelo menos enquanto pré adolescente. Com acesso à internet mais tarde eu acabei por procurar grande parte desses artistas que já gostava de ouvir sem poder ver, como Nicko McBrain do Iron Maiden, Bill Ward do Black Sabbath, esses dois certamente me influenciam muito até hoje. Porém hoje temos muitos bateristas causando uma revolução no pensar do instrumento, nomes como Yussef Dayes, Eloy Casagrande, Omar Hakim, Greyson Nekrutman, Christian Molina, são só alguns que me vem à mente agora.


Tu fosse baterista da banda Kassingueira lá no início dos anos 2000, certo. A Atijo Wá veio durante a pandemia. Quais as principais diferenças entre essas duas bandas clássicas de Reggae da Região Sul?

A Kassingueira foi minha escola no Reggae, nunca tive uma proximidade com o estilo, o quê depois entendi que era por não conhecer mesmo. Fui convidado a fazer parte da Kassingueira para tapar um furo do outro baterista e como eles ensaiavam em meu estúdio, eu basicamente conhecia o repertório e a essa altura já estava mais familiarizado com formas de reggaes não comerciais, com muita atmosfera, ritmos quebrados e sonoridades que causavam quase um transe sonoro, a partir daí conheci um reggae diferente e fui apresentado ao tal “Reggae Roots”.


Nesse momento a Kassingueira transitava pela cena dos bares e casas noturnas da Praia do Cassino, o que deixava ela em um estado de reprodução, tocávamos mais covers e logo mais eu tive que sair da banda por questões de trabalho, tive que viajar pra trabalhar. A diferença entre essas duas bandas pra mim é que na Atijo Wá eu aplico uma ideia, uma identidade, tenho uma liberdade do não copiar, implementar minha assinatura sonora, explorar sonoridades, ritmos, trazer influências pra pensar o reggae de uma forma solta entre nossas influências pessoais.


Vamos falar da Stoneblock, como surgiu esse grupo de Rock Alternativo?

Stoneblock surge em 2017, eu e o vocalista já tínhamos tido um projeto juntos antes mesmo de eu ter um estúdio, de 2001 a 2003, em 2017 depois de muitos anos sem nos encontrarmos, em meio a uma sensação nostálgica de voltar a fazer um som, juntamos quase todos do projeto original, porém o que seria só um passatempo, virou uma “entidade sonora” que tivemos que nomear Stoneblock, porque para nós era isso, um bloco de possibilidades, letras, riffs, sem restrições de gênero, sem a pretensão de rótulos, as músicas só iam surgindo. 


Em 2018 começamos um processo de gravação, tentamos dar forma a um disco, no início não deu muito certo e acabamos lançando três singles, com sonoridades um pouco distantes entre si. Em 2019, ano muito agitado pra StoneBlock, maturamos nosso primeiro disco, tocamos bastante até, já que a StoneBlock é uma banda que transita muito nas sonoridades do metal e com um repertório 100% autoral.


Sem o atrativo das músicas difundidas nas grandes mídias corporativas, os locais que se abrem para novas experiências, ainda desconhecidas das massas, não são muitos, mas tocamos em média uma vez a cada um mês e meio. A pandemia foi um evento marcante na banda, paramos nossas produções, o guitarrista nesse período teve que sair por questões de trabalho. Voltamos em 2023 no formato trio, atualmente estamos trabalhando em composições para o próximo trabalho, explorando novas formas sonoras, experimentando nuances diferentes, a “entidade sonora” chamada StoneBlock se remodelando as sensações e aos sentimentos dos envolvidos nessa nova fase dela, sou suspeito, mas vem coisa boa aí.




O que você me diz sobre o atual momento do Rock Brasileiro? Ele ainda vive?

Tivemos um momento no Brasil em que o Rock era uma espécie de identidade, uma roupa, um falar, um agir, tudo muito fotocópia daquilo que absorvemos sem muito entender, tivemos artistas que produziram um produto já bem estruturado no mercado outros que alçaram a um lugar no “mainstream” pela sua originalidade. Entendo hoje que o mercado que dita as músicas de momento já não vê mais o Rock como um produto a ser comercializado, o que por outro lado, enriquece todo um ‘underground’ que absorve essas bandas que acabam por fazer do Rock sua expressão mais natural, que na ausência de um mercado moderador de conduta, se reinventa sem amarras e livre para absorver novas ideias.


Hoje nosso cenário nacional é vasto, a internet nos aproximou de cenas muito distantes antigamente, hoje eu aqui no sul do Brasil escuto uma banda do interior de Minas Gerais, que chega a mim sem muito esforço, só pelas afinidades sonoras. Para mim o explorar dessas tecnologias que interligam sócios, por simples afinidades sonoras, é uma das coisas que ajuda a manter essa cultura de contracultura que é o Rock n’ Roll, tivemos recentemente lançamentos de Rock Nacional importantes, como o disco Perpétuo da banda Black Pantera, uma obra prima do Rock Nacional. Tenho uma afinidade maior com essas bandas com sonoridades mais agressivas, como Surra, Ratos de Porão, Sepultura, Apnea, Do Protesto a Resistência, entre outras. Como eu consumo muito Rock Nacional atual, acredito que estamos vivos e onde nos é mais confortável, fora da prateleira e sem rótulos de mercado.


Hoje em dia ouço muitas bandas novas surgindo, principalmente no mercado internacional. Qual a vantagem que eles têm sobre a gente aqui no Brasil?

Dependendo da região de comparação, acesso a equipamentos com menor custo, o que facilita a produção, aumenta o ritmo de gravação, mantém a cultura viva com registros de produções novas. É difícil analisar uma cultura estando de fora dela, o que posso falar é sobre nosso espaço de atuação, no Brasil, em especial no Rio Grande Do Sul, são cada vez menores as oportunidades de poder mostrar sua arte. O que me vem à cabeça agora, é os festivais que rolam na Europa, em parques e vias públicas, mas também não posso saber se as bandas que ali estão representam o todo daquele espaço, ou é um acesso de um determinado grupo, é difícil falar de vantagens de uns sobre outros, acredito que o Rock precisa ser o primeiro a não reconhecer as “cercas embandeiradas que separam os quintais”.


Como é administrar ser o baterista de vários projetos distintos quanto ao estilo, mas com discursos muito politizados?

De um tempo pra cá tive a necessidade de me posicionar de uma forma mais aberta, como uma resposta às pessoas que se abriram para o mundo como “anticomunistas”, me vi em uma sociedade de pessoas guiadas como fantoches, sem o mínimo de senso crítico. Sempre tive na arte meu meio de extravasar minhas ideias, nunca escondi minha visão apartidária da política, isso acaba saindo ao natural em minhas composições, é minha visão de mundo, minha crítica a tudo. Isso reflete nos projetos autorais, nas letras que componho, meu posicionamento perante a tudo. Costumo falar as pessoas que sou “menos um”, menos um a propagar machismo, racismo, xenofobia, seja qual for a caixa inventada que nos separam enquanto pessoas, perdemos muito tempo e energia mantendo poucos com muito, os discursos politizados contidos nos trabalhos autorais que eu faço parte é uma forma de deixar claro meu descontentamento a essa realidade em que poucos exploram muitos.




Vocês já sofreram preconceito? Como vocês lidam com isso?

Enquanto banda acredito que não diretamente, mas por ser uma banda periférica com um preto, provavelmente sim. As pessoas que compõem comigo essas bandas são minha Família, nos defendemos, nos apoiamos, e refletimos em nossa arte o que queremos na sociedade, as mudanças, as atitudes, as liberdades de ser e estar.


 Onde encontramos o material da Stoneblock na internet?

Nossas redes são @stoneblock_oficial, nossos discos e músicas já lançadas estão nas plataformas de streaming mas nosso canal mais direto é o Instagram, só chamar a gente por lá, sigam nossas redes, isso ajuda muito os artistas independentes a aumentar sua visibilidade na sociedade.


 Agenda de Shows!

StoneBlock tem um Show marcado pra novembro no Madrina beer em Pelotas – RS, será dia 09/11 às 20 horas, alô galera de Pelotas será um prazer conhecer vocês. Estamos abertos a novas agendas, chama a gente no Instagram.


Sigam as redes @atijo_wa e @StoneBlock_oficial


Nós da Aqui de Casa Web Rádio agradecemos a sua disponibilidade de bater esse papo com a gente e deixamos nosso espaço a sua disposição! Deixe seu recado final para o nosso público.

Eu que agradeço a oportunidade de poder me expressar para público fiel dessa Rádio eclética que abre espaço para artistas novos. Fica aqui meu muito obrigado e um pedido a todes que aqui nos leem, o Rock é a gente quem faz em cada ação que temos contraria aquele senso comum que molda a sociedade de forma doentia e padronizada, é a negação do estar encaixado o incômodo com o acomodado, o não concordar pra pertencer e sim para poder ser! Vamos viver a liberdade!


Um grande abraço e muito som a todes!



por Jeff Soares

Músico, Locutor

Jornalista, Web Designer

Comentários (0)