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Perspectivas #10: Um pouco da minha experiência com o filme “A Substância”

Apenas algumas percepções, nada de spoilers por aqui.

Perspectivas #10: Um pouco da minha experiência com o filme “A Substância”
A substância (2024) (IMDB/reprodução)

Embora eu seja uma pessoa mais voltada à música e adoro escutar discos como forma de entretenimento, em momentos relativamente raros me proponho assistir a um filme ou série. Hoje eu gostaria de trazer um pouco da minha experiência com um lançamento recente que “me torceu os miolos” e que me deixou:


1 – Fascinado;

2 – Profundamente desconfortável;

3 – Com um olhar perdido quando subiu os créditos finais;

4 – De que é um filme com muita coisa a dizer.


Já adianto que se tu não curte obras de terror, principalmente com “body horror”, esse filme NÃO É pra ti. Esteja avisado. Mas se tu tá vivo na nossa época, a reflexão toda que ele traz te atravessa de alguma forma – sobretudo se tu fores uma mulher. Vamos lá.


Numa sexta feira à noite eu quis assistir “A Substância” (terror/ficção científica, classificação 18+), filme da cineasta francesa Coralie Fargeat que saiu esse ano e tem dado o que falar pela grande competência com que aborda temas importantíssimos e complexos, como as construções acerca do que é considerado belo e valorizado socialmente, a busca (que na obra assume uma tonalidade absurda e que leva a consequências extremas) por uma adequação a padrões arbitrários e opressivos do que é um corpo considerado bonito e desejável, a idealização do “corpo perfeito” (que, aliás, serve aos interesses do capital) e a insatisfação com o corpo real, que naturalmente se transforma, que é finito e imerso na temporalidade.




Quase como um pesadelo de temática “body horror” ou “horror corporal” em uma tradução bem livre, a obra não apenas convida o espectador a refletir sobre o preço que a busca pela perfeição cobra, mas também o instiga a identificar e questionar de forma crítica as diversas engrenagens que sustentam e mantém funcionando esse sistema que incentiva a insatisfação com o corpo real e a consequente busca por um ideal externo e pelo olhar de aprovação do outro. O que está por trás dessa insatisfação com o próprio corpo? Muitas coisas, e muitas coisas que estão além do sujeito – me refiro a questões sociais e culturais, e o filme toca muito nesse ponto.


Não vou dar spoilers, vou apenas contar o básico: Elisabeth Sparkle (interpretada pela fabulosa Demi Moore) é uma estrela de Hollywood prestes a completar seus 50 anos quando é demitida por, supostamente, estar “velha demais” para os palcos. Profundamente abalada por isso, recebe a proposta de utilizar uma substância misteriosa e experimental que promete a ela uma versão melhorada, perfeita, de si mesma. Após utilizar da substância, Elisabeth passa a dividir seu corpo com Sue

(interpretada por Margaret Qualley), uma jovem que rapidamente é reconhecida por sua beleza e seu talento para os holofotes – exatamente o contrário da situação atual de Elisabeth na trama. O que acontece daí pra frente, meus amigos, é pedrada atrás de pedrada – e haja estômago pra certos eventos.


O filme não é nada sutil, ele não se preocupa em construir devagar os personagens e cenas. Nos primeiros 10 minutos do filme (que tem pouco mais de 2 horas), já temos suficientemente bem construída toda a trama e os conflitos que o filme vai abordar: uma estrela de Hollywood cujo brilho foi apagado pelo tempo e pelas exigências de uma “eterna juventude” impossível de ser alcançada, a desumanização e a objetificação do corpo, e todo sofrimento que emerge de uma profunda insatisfação consigo mesma ligada ao desejo de ser amada e valorizada novamente. Toda relação (ora de admiração, ora de conflito) entre Elisabeth e Sue escancara toda essa centena de questões que atacam as pessoas na individualidade, mas que estruturalmente, são questões que atravessam toda uma coletividade e que influenciam na forma como nos relacionamos com a gente, com o outro, com o consumo, com o tempo, com a vida.



Cenas do filme A Substância - Divulgação/ Demi Moore e Margaret Qualley


Tive a alegria de ler a coluna “A Ditadura da Perfeição”, do nosso querido Jeff Soares, enquanto estava em processo de construção deste texto e pude observar e relacionar o quanto muitos dos aspectos que o filme aborda são reproduzidos no dia a dia. Muitas vezes na forma de comparações com a suposta “vida perfeita” do outro, de cobranças (externas ou internas) por uma adequação, e o quanto essa comparação e essa cobrança podem ser geradoras de sofrimento, e a importância do amor a si mesmo enquanto ato revolucionário contra esse sistema que oprime e que cria uma necessidade insaciável – necessidade essa que vende muito, aliás. Procedimentos estéticos, produtos, filtros, cores, padrões. Que na obra “vendeu” uma substância estranha que prometia a perfeição à Elisabeth.


No filme, nada é por acaso. Cada cor, cada roupa, cada ângulo, comportamento, cenário, absolutamente tudo parece ter um motivo por trás, a Coralie não deixou ponto sem nó na direção da obra. O conflito interno de Elisabeth diante de si mesma, do espelho, de Sue, de todo o sistema (na forma como ele é representado por meio de personagens e cenários por vezes caricatos) é uma ótima representação artística da influência de todo esse sistema sobre os corpos (sobretudo os corpos femininos), comportamentos, gostos, interesses, desejos, e o quão adoecedora essa influência pode ser. É um filme pesado, desconfortável e por vezes repulsivo, mas necessário – enquanto crítica e problematização ele dá um show.



Cenas do filme A Substância - Divulgação


Chegam a soar como sátiras as cenas de todos aqueles senhores brancos, ricos e de meia idade, pouco se preocupando com a própria aparência e autocuidado enquanto julgam a idade de Elisabeth (que tá lá sendo maravilhosa) e a descartam como se fosse um objeto ao passo em que adoram e bajulam a Sue – personagem que na obra atende a todas as expectativas da indústria e que, de certa forma, representa o ideal que Elisabeth buscava. Abre – se um espaço e tanto para pensarmos sobre a “permissão social” que o homem tem para envelhecer, ao contrário de Elisabeth, cuja idade na trama é fator de perda de relevância – e aí a gente olha um pouco pra realidade e percebe que não é só coisa de filme e que existem desafios reais a serem enfrentados. Pensar a dor da Elisabeth sem contextualizá-la socialmente nos levaria a uma leitura bastante rasa e individualista da obra. E é importante enfatizar que o filme é construído a partir de uma perspectiva feminina – e nesse rolê todo, é notável o quanto a mulher acaba sofrendo muito mais impactos do que o homem.


É um filme bem direto ao ponto, mas nada superficial. E é certeiro no que se propõe a fazer. Achei bastante difícil falar sobre ele sem citar spoilers, e realmente acho que não contar certas coisas por isso é algo que prejudicou uma grande parte da análise. Mas beleza, fica aí a recomendação – a não ser que tu não curta cenas de unhas e dentes caindo, agulhadas, essas coisas. Pode não parecer por eu não ter citado cenas específicas por aqui, mas acredite, é um filme pesado em termos de horror corporal. Se for assistir, ou já assistiu, me conta o que tu pensou ou sentiu durante ou após o filme. Por aqui, a gente segue construindo pontes e compartilhando perspectivas.


Aquele abraço!



por Igor Jeske

Psicólogo

Músico

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