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Mãe Fabiana de Yemonjá - Entrevista

Batemos uma papo muito profundo com Mãe Fabiana, uma voz muito sensata sobre as Religiões de Matriz Africana.

Mãe Fabiana de Yemonjá - Entrevista
Arquivo Pessoal

Nesta semana tive o prazer de bater um papo com Mãe Fabiana D'Yemonjá do Ilê Axé Yemonjá Ómi Òna da cidade de Pelotas. Com suas posições claras e seu conhecimento, Mãe Fabiana é uma das vozes sensatas dentro do Povo de Terreiro. Ouvi-la me trouxe a reafirmação de que devemos Estudar o Axé, que Terreiro é um exemplo de resistência e que o combate ao racismo religioso é para agora, não dá para deixar pra  depois. Confira!


Nas comunidades Religiosas, as Mulheres têm um papel de grande importância, diferente do que acontece em outros segmentos. Por que isso acontece? De onde vem essa força feminina e porque as mulheres têm esse papel?

Primeiramente eu quero agradecer a oportunidade de falar um pouco da minha história e de falar dessa Religião que eu amo tanto. A força feminina, a regência feminina dentro das Religiões de Matriz Africana realmente é uma presença muito forte. Isso se deve a diversas regiões do continente Africano terem uma sociedade Matricentrada. Isso se transmite quando esse povo chega escravizado ao Brasil e as mulheres continuam, mesmo que de forma reclusa, de forma escondida, sendo esteio dessas comunidades. Isso vem muito dessa questão matriarcal, onde a mulher ela tem a responsabilidade de manter aquela comunidade, assim como nós fazemos com a nossa família, a responsabilidade de cuidar, de alimentar, de acolher. Eu acredito que o Terreiro é uma extensão desta unidade familiar e traz muito desse modelo civilizatório de comunidades que se reúnem pela cultura, pela religiosidade, que os nossos irmãos africanos nos ensinaram.


A Senhora imaginava ocupar esse papel? Como tudo começou em sua vida? Quais são as suas origens no trabalho Espiritual?

A minha história começou desde muito jovem, minha mãe é de Porto Alegre e o meu pai é de uma família de colonos de Morro Redondo, eles se conheceram quando ele foi fazer a academia da Brigada Militar em Porto Alegre. Eu nasci no bairro Glória, na rua Intendente Alfredo Azevedo, e na rua Querubim Costa, a madrinha da minha mãe tinha um Terreiro. Então desde muito pequena eu tive contato com a religião e aos 8 ou 9 anos de idade comecei a sentir os primeiros sintomas de mediunidade. Com 12 anos isso tudo foi confirmado e aí que começa a minha jornada dentro dessa religião.


Se, em algum momento eu imaginava estar onde estou hoje, não, eu não imaginava e preciso dizer que também não queria, mas sempre fui avisada disso, sempre, desde muito jovem. O Caboclo Urubatan, que foi o Caboclo que cuidou de mim nessa fase, sempre disse do compromisso que eu tinha com a mediunidade, do compromisso que eu tinha com a religião e eu sempre entendi que não seria um compromisso pequeno, sendo que hoje a nossa casa é a única casa remanescente desse Terreiro.


Eu sou filha de Celita de Oxum, neta de Isolina de Xapanã, do bairro Glória na cidade de Porto Alegre. Cheguei em Pelotas em 1996, mas continuei ligada religiosamente ao meu Terreiro de origem. Mãe Isolina foi a primeira a nos deixar. Mãe Celita mesmo antes de partir passou por problemas de saúde que começaram a impedir ela de manter os seus trabalhos religiosos e aqui na cidade de Pelotas, quando nós não tínhamos mais essa ligação com o Terreiro de Porto Alegre, porque ele deixou de existir, eu fui acolhida pelo pai Edmílson de Ogum, que me levou para a casa da filha dele Vera de Iansã, onde por alguns anos eu segui essa caminhada, depois me afastei e cumpri a missão que já havia me sido dada pela espiritualidade, pelo Caboclo do Urubatan, pelo Caboclo Beira Mar, Cabocla do Jupira, que são caboclos que me acompanham e por minha mãe Iemanjá Ogunté.


Nossa Casa no ano de 2025 fará 10 anos, o Ile Axé Yemonjá Ómi Òna e Tenda de Umbanda Filhos de Fé e Cabocla Jupira.




Qual é a sua definição de Terreiro?

Ela tem diversos vieses. Ela começa por ser uma comunidade que acolhe a todas as pessoas que batem à sua porta, ela é um espaço de resistência da cultura religiosa Africana. O Terreiro, no nosso caso, que temos um grande espaço verde, uma área que é dedicada ao culto do Orixá, é o lugar onde nós plantamos Axé e distribuímos Axé a aqueles que procuram a nossa Casa.


A principal característica do Terreiro para mim é o acolhimento. O acolhimento sem qualquer tipo de distinção. Eu acredito que hoje talvez seja o único espaço onde não se faz distinção seja de raça, de cor, de gênero, de nível social, de escolaridade, o Terreiro é uma casa acolhedora e é para isso que ele existe. É um lugar de compartilhar, de compartilhar alimento, de compartilhar Axé, de compartilhar amor.


Além dos fundamentos Espirituais, existe também a parte social de um Terreiro. A Senhora pode falar um pouco desse trabalho ?

Sendo uma comunidade, além da Espiritualidade, o Terreiro tem um papel fundamental que é o papel social. Cada comunidade de Terreiro faz desse papel uma ferramenta de luta social da maneira que lhe é possível. O primeiro aspecto social que vejo no trabalho do Terreiro é exatamente o compartilhar do alimento. Sempre que o Terreiro tem uma festa, sempre que tem uma obrigação na nossa Casa, todo o trabalho que é feito, nós compartilhamos o alimento. Todo sábado que nós temos o nosso Terreiro de Umbanda com os nossos Caboclos, os nossos Pretos Velhos, nossos Exus Catiços, nós servimos algum alimento à comunidade que chega à nossa Casa, porque para mim a religião tem que alimentar a alma e sim alimentar o corpo.




Além disso, na nossa Casa nós temos um compromisso muito importante com a educação, a educação do Axé. Este ano especialmente, nós estamos impactados e felizes com o trabalho que nós realizamos nos grupos de doutrina, no estudo que acontecem às terças-feiras, a cada 15 dias.


Nós tratamos muito da questão da Africanidade, da decolonização do pensamento. E tivemos uma grata surpresa com dois Filhos da nossa Casa que prestaram o ENEM e que tiveram esse debate apresentado na redação, que talvez seja a etapa mais temida. E sabemos que a nossa Casa contribuiu enormemente para o conhecimento deles na realização dessa prova, então mais do que nunca, a gente repete que, no Ilê Axé Yemonjá Ómi Òna, estudo é fundamento.


E acreditamos profundamente que é através da educação que nós transformamos a sociedade. Educando sobre a nossa religiosidade, nós lutamos ferrenhamente contra o preconceito, porque é quando nós passamos a conhecer algo, que deixamos de pré conceber ideias equivocadas a respeito daquilo.


Terreiro é resistência?

Terreiro deve ser resistência. Por que eu digo isso? Porque existem Casas de Religião que muitas vezes sem reconhecer a sua raiz, a sua ancestralidade africana, esquecem-se que são um espaço de resistência e acabam se tornando divulgadores do pensamento colonizado. Aqui nós somos resistência. O nosso grande objetivo é decolonizar. Decolonizar todos os pensares que passam pela nossa casa. Nos reconhecermos como pessoas que nasceram em um país que ‘cristianiza’, não fazendo qualquer crítica a esta religiosidade, mas entendendo que a nossa Matriz Africana precisa sim passar por esse processo de pensar a sua existência e de se entender como um espaço de resistência. Resistência não apenas através da religião, porque isso é um reducionismo muito grande que se faz com toda essa Matriz Africana que chega ao nosso país, mas resistência através da música, através da arte, através da cultura de uma forma geral e através da socialização desse modelo civilizatório que pode transformar. No meu entendimento, toda a sociedade que nós vivemos, se a gente aprender um novo jeito de pensar enquanto seres coletivos e comunitários.




Diariamente pessoas buscam o conforto Espiritual em Centros Espíritas e Terreiros, muitos necessitando de fato de um amparo da Espiritualidade. Como a Senhora vê está busca?

Eu vejo como uma necessidade da nossa alma, do nosso ser divino, do nosso ser profundo que entende que é preciso uma conexão com o sagrado. Os Terreiros hoje têm um trabalho muito importante, através especialmente dos nossos Pretos Velhos, que eu considero os grandes psicólogos da alma, que trazem a sabedoria, que trazem o conhecimento, que trazem o amor numa visão tão profunda e tão incondicional, que auxilia aqueles que sentam diante de um Preto Velho.




Ainda temos que observar, às vezes, a questão do pensamento colonizado, de buscar o Terreiro, muitas vezes como um espaço de troca, de negociata, para a realização de um desejo egoico do ser humano e entender que aquilo precisa ser suprido, que precisa ser realizado naquele momento. A gente precisa educar para mudar esse pensamento.


Por que o que acontece? As pessoas tocam seus tambores à noite, buscam os Terreiros, mas quando nós precisamos de mobilização de defesa das pessoas do Axé, às pessoas se escondem muitas vezes, atrás de um de um véu que está coberto pelo preconceito, pela intolerância. Nós precisamos quebrar isso, nós precisamos entender que quando a gente fala de intolerância religiosa a gente só está dando um nome diferente para uma prática racista e a partir dessa discussão buscar a liberdade, a liberdade de culto, a liberdade de crença, a liberdade de ser e de existir. E isso é papel fundamental das pessoas que buscam os Terreiros quando precisam de ajuda. Nós precisamos mostrar para essas pessoas que elas são importantes, que assim como elas podem ser acolhidas e ajudadas pelo terreiro, elas podem no lado de fora fazer um movimento para desconstruir tudo de tão negativo que ainda existe na sociedade ideologicamente a respeito da nossa Religião.


Energeticamente, como a senhora enxerga o mundo em que vivemos?

É uma pergunta muito difícil de responder, porque eu percebo que nós estamos adoecidos. Adoecidos na nossa essência mais profunda, na nossa capacidade de percepção do que realmente importa, na nossa capacidade de percepção do ser humano em sua plenitude. Nós fomos muito afetados pelo capitalismo, pela futilidade da vida, pelas questões materiais. E nós passamos a olhar e medir o outro a partir disso, a partir da roupa que ele veste, do celular ou do iPhone que ele possui, do carro que ele anda e tudo isso é ilusório. É tão ilusório que nos coloca hoje diante do caos que nós vivemos, de uma sociedade que está dividida, com modelos de sociedade absolutamente distintos, com pessoas que defendem um projeto de exclusão, de racismo, de violência, de intolerância, de incapacidade de olhar para o social, como se isso fosse algo normal, como se isso fosse algo aceitável.


De outro lado, nós temos pessoas que buscam olhar socialmente para o nosso mundo, mas que também não vejo estar completamente despidas de todo esse mecanismo que nos envolveu. Mesmo aqueles que como eu, que me digo fora da bolha, mas de que bolha eu estou fora? Eu acho que a gente precisa se redescobrir, a gente precisa voltar a nossa essência, a gente precisa entender que nós somos parte desse Planeta, nós somos o Planeta. Nós não somos proprietários. Nós somos parte. Se eu não entender isso, eu vou matar e é o que nós estamos fazendo. Nós estamos matando à vida no nosso Planeta. Todas essas mudanças climáticas que nós temos vivido, não são só mais um sinal de alerta, mas um sinal de que nós passamos da medida e se passamos da medida é porque nós esquecemos que nós somos parte do Planeta e não estamos à parte.


No Brasil o racismo religioso é uma constante com o crescimento da extrema direita. Muitas Casas são depredadas, às vezes, extintas e seus dirigentes violentados, não só pelo preconceito em si, mas também pelo Estado que não garante a proteção devida ao direito do Estado Laico, onde no papel todos deveriam ser respeitados. A Senhora já sofreu preconceito? Como combater o racismo religioso?

Bom, respondendo à primeira parte da pergunta, se já sofri preconceito, preciso dizer que o preconceito está no olhar, ele está muitas vezes num sorriso quebrado, mas eu nunca fui vítima de intolerância religiosa. E por que eu faço questão de dizer isso? Porque eu sou uma mulher branca. Eu sou uma mulher branca à frente de um Terreiro de Matriz Africana. Isso causa no racista religioso um certo desconforto. Porque nós não falamos de intolerância religiosa aqui, nós falamos de racismo religioso. Porque à nossa Religião tem cor. E quando as pessoas encontram uma desconexão entre a cor e a religião, fica um pouco mais difícil mostrar o seu preconceito, a sua violência, a sua mesquinhez. Então eu não considero que em algum momento eu tenha sido vítima de intolerância religiosa, da forma que eu enxergo isso. Já aconteceu de nós termos uma plaquinha (identificação da Casa) na frente da entrada da nossa Casa e ela ser arrancada, mas não passou disso.


O que nós vemos hoje crescendo muito na sociedade, é o ataque às Religiões de Matriz Africana, com Terreiros queimados, com Pais e Mães de Santo mortos, violentados, das mais absurdas maneiras. É o retrato dessa doença que nós vivemos. E a gente precisa dizer o nome. É racismo religioso, é terrorismo religioso o que acontece com as Religiões de Matriz Africana. Uma Igreja Pentecostal, a Igreja Católica, elas nunca vão ser vítimas de intolerância religiosa. Porque não existe uma matriz de raça por trás disso. Precisa-se falar claramente disso.


Acho que a única forma de vencermos, de ultrapassarmos esse momento da nossa sociedade, que se perpetua há milhares de anos, que é permeado pelo racismo em todas as suas estruturas, é com leis rígidas que sejam efetivamente cumpridas. Porque sim, nós precisamos de medidas repressivas e punitivas para esse tipo de comportamento. Infelizmente, as pessoas que já têm esse comportamento instituído em si, elas precisam entender que o Estado vai coibir e vai reagir a isso.


A longo prazo, a melhor ferramenta que nós temos é a educação. É fazer com que as nossas crianças, com que os nossos jovens e adolescentes construam um pensamento diferente. Nós precisamos descolonizar o pensar. Nós precisamos ensinar a Africanidade, a cultura, o modelo civilizatório. Isso precisa estar dentro das escolas. O Brasil é um país que não conta a sua história. Nós estudamos muito a história do colonizador, mas não estudamos a história daqueles que construíram esse país. Nós não estudamos os nossos Indígenas em profundidade, a sua forma societária, comunitária, a forma de viver. Nós não estudamos o povo escravizado na sua cultura, na sua sociabilidade, no seu modelo civilizatório. E esse é o nosso País. Nós somos uma miscigenação de culturas e de modelos de civilização. E nós precisamos conhecer em profundidade que a única forma de vencer qualquer tipo de preconceito, eu repito e vou repetir sempre, é através do conhecimento.


Nós temos a lei 10.639 que cria a obrigatoriedade do ensino, mas não temos mecanismos dentro do Município, dentro do Estado e dentro da Federação que façam com que essa lei se cumpra. E aí eu vou falar da necessidade de representatividade de pessoas que lutem pelo Povo de Terreiro. Temos quatro anos para construir isso, porque infelizmente no pleito que se encerrou a gente não conseguiu.




Pelotas é uma das cidades mais negras do Brasil, mas o preconceito racial é visível em todos os lugares da cidade. A senhora como mulher branca, desempenha que papel nessa luta pela igualdade?

Sou uma mulher branca e o primeiro movimento que eu fiz para poder estar aqui hoje e falar de racismo religioso, de intolerância religiosa, de racismo como estrutura social, foi me reconhecer racista. 


E é o primeiro movimento que todos nós, todos nós Brasileiros precisamos fazer. A gente precisa se despir do mito da democracia racial e entender que o nosso pensamento foi colonizado, nós fomos ensinados a ser racistas, a reconhecer a diferença pela cor da pele. Foi assim que a gente aprendeu. E para que a gente possa se colocar, e aqui eu vou usar a expressão da Ìyá Sandrali Bueno, “para que nós possamos ser escudos brancos”, nós precisamos primeiramente nos reconhecer nesse lugar e aí começar um processo de desconstrução e de reconstrução de um ser humano que olha para o outro com amor, com amor incondicional.


Vou citar novamente a Ìyá Sandrali, “com radicalidade amorosa”, amar o ser humano pela sua condição de ser humano. Eu tenho uma luta diária nas minhas redes sociais, dentro do meu Terreiro, em todas as minhas falas. Isso é a minha reconstrução, porque eu venho num processo de desconstrução muito profundo. E eu convido a todos, a todos a fazerem esse processo. Ele é muito libertador, ele nos torna seres humanos mais completos, mais dignos, mais humanos.


Hoje eu me considero, sem sombra de dúvida, alguém que luta pela igualdade. E aí eu preciso dizer que quando a gente fala em igualdade, a gente precisa entender o que isso significa. Nós só teremos uma sociedade igualitária quando todos, tiverem a mesma capacidade e direito de escolha. Capacidade, eu digo, em relação à possibilidade. Quando todas as pessoas, e aqui eu vou usar um exemplo que eu acho que se torna muito claro: Quando todas as pessoas que existem na sociedade forem comprar um aparelho telefônico e puderem escolher, entre um iPhone, um Samsung ou um Motorola, livremente, apenas porque é aquele aparelho que ela quer e não porque é aquele que ela pode, aí nós teremos igualdade.


Quando todas as pessoas, ao sentarem na mesa para fazer uma refeição, puderem livremente escolher aquilo que elas querem consumir naquele momento. E aí a gente tem um problema muito sério. Porque não é só a nossa capacidade financeira. Nós somos bombardeados de informações o tempo todo. E aí a gente precisa sentar e conversar profundamente sobre isso, porque senão eu vou falar horas aqui a respeito do que eu entendo que é igualdade. Que está intimamente ligado à liberdade. 




Uma das grandes dificuldades dos Povos de Terreiro é a unidade por um propósito em comum. Vejo principalmente na internet e até mesmo na prática, um apontamento de certo ou errado, que ocasiona um distanciamento entre as lideranças. Como unir um povo que já sofre tanto preconceito?

Em relação a essa competitividade que existe dentro do Povo de Terreiro, realmente é o maior desafio que nós temos. É um desafio que para mim beira à insanidade, porque enquanto nós estivermos olhando o fundamento da casa do outro, enquanto a gente estiver preocupado em dizer que o nosso Axé é melhor, que eu sei mais ou que o outro sabe menos, a gente não vai encontrar a união. É uma discussão que a gente tem levantado muito nos grupos religiosos e mesmo nesses grupos é difícil a gente encontrar uma unidade.


Acredito que a única maneira de vencer isso é que nós religiosos tenhamos a capacidade de entender, que o que nós temos dentro da nossa casa, do portão do nosso terreiro para dentro, só diz respeito a cada um de nós. E o que acontece lá fora (racismo, intolerância) é o que nós precisamos combater. Que aí nós temos que ter uma única voz, que aí a gente precisa construir uma unidade, porque se a gente não tiver essa unidade fora do Terreiro, o nosso Terreiro corre o risco de deixar de existir. Nós precisamos trabalhar e desenvolver essa consciência com os nossos Irmãos, de que o meu portão diz respeito a mim. Do portão para fora diz respeito a todos.


É muito difícil, a gente não consegue ter representatividade política, enquanto for assim, nós seremos uma minoria absoluta. Nós vemos uma bancada evangélica. O que isso significa? Que embora as igrejas sejam diferentes e as lideranças sejam diversas, quando precisam lutar por aquilo que acreditam, eles conseguem ter unidade. Nós não conseguimos sequer eleger um vereador, uma vereadora, que seja Povo de Terreiro, que vista Axó (vestimenta), que incorpore, que conheça profundamente as nossas dores e as nossas necessidades. Enquanto isso não acontecer a gente fica gritando ao vento. É muito difícil, esse é o nosso maior desafio, eu não tenho dúvida disso.


Sua Casa está organizando um Seminário. Pode nos contar um pouco sobre esse evento?

Nós estamos organizando um seminário que acontecerá no dia 1º de dezembro e esse evento acontecerá aqui no Ilê Axé Yemonjá Ómi Òna, mas ele está sendo organizado e pensado em conjunto com o CBTT – Comunidade Beneficente Tradicional de Terreiro. A Mãe Gisa de Oxalá é a nossa parceira nesse projeto e está trabalhando juntamente comigo na organização desse seminário.


Será o 1º Seminário de 'Africanidade como Modelo Civilizatório'. Nós teremos três eixos de debate: sendo o primeiro a ‘Decolonialidade do Existir’, onde nós vamos ouvir a professora Carla Ávila e a professora Raquel Silveira. No segundo eixo de debate nós temos ‘Comunidade de Terreiro como Espaço Civilizatório’ e aqui as palestrantes são a Ìyá Gisa de Oxalá e a Ìyá Sandrali Bueno. E o terceiro debate é ‘Cozinha de Santo’, que vai falar da importância do alimento dentro das comunidades de Terreiro, já temos confirmado o André Eduardo da Fonseca, que trabalha lá no CBTT com a Mãe Gisa, é filho da mãe Giza e ele fala de reaproveitamento de alimentos e estamos aguardando a confirmação da segunda pessoa que estará nesse eixo de debate.


Toda a comunidade está convidada, será um evento em circularidade e ele vai acontecer no dia 1º de dezembro das 14h às 20h. O grande objetivo do evento é trazer exatamente isso, a Africanidade como um modelo civilizatório. De nós falarmos de um modelo diferente da sociedade. Acho que vai ser maravilhoso e muito proveitoso a todas as pessoas que se fizerem presentes.


Onde encontrar Mãe Fabiana d’ Yemonjá?

As pessoas podem encontrar me encontrar aqui no nosso Ilê, que fica na Avenida Leopoldo Brod, nº 227 ou 295 A, nós temos dois números aqui no imóvel. Nas redes sociais, no Instagram @fabianadeyemoja  no Facebook, no YouTube e no TikTok sempre com o mesmo arroba.

Também pelo meu WhatsApp (53) 99175-5255 onde as pessoas podem entrar em contato para agendar uma consulta, para saber mais sobre a nossa Casa, a gente está sempre disposto a acolher e ajudar todos que batem a nossa porta.




 Agradecemos sua disponibilidade, a Aqui de Casa Web Rádio está de portas abertas para o seu Trabalho e pede suas considerações finais para nossa Audiência. Asé ô!

Eu quero agradecer imensamente a Aqui de Casa pelo convite para estar com vocês nesse projeto tão valoroso.


E repetir mais uma vez que acredito muito que a educação, que o conhecimento, que a aprendizagem é a ferramenta mais poderosa que nós temos na desconstrução de um modelo civilizatório que está tão adoecido e na construção de um novo pensar. Entendo isso como algo extremamente necessário para que possamos combater qualquer tipo de preconceito, de intolerância, que a gente tenha dessa forma às ferramentas adequadas para erradicar o racismo.


É uma construção, é um movimento que depende de cada um de nós. Cada um é responsável e todos somos responsáveis pela sociedade que nós queremos, pelo mundo que nós queremos. E o nosso Planeta ele grita, ele grita através das suas águas, dos seus ventos, das suas terras, que é momento de mudar. E não de decidir fazer uma mudança, mas de começar a fazer essa mudança. Porque nós somos parte de um organismo vivo que está muito doente. E nós somos aqueles que causaram a doença e que são os únicos capazes de tratá-la.


Desejo que Mãe Yemonjá abençoe a todos!

Meu Axé, meu Saravá, meu Mukuiu, meu Kolofé, meu Motumbá!

Que Oxalá nos cuide e nos traga tranquilidade.



por Jeff Soares

Músico, Locutor

Jornalista, Web Designer

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