A Serviço da Morte
Um relato pela ótica de quem vê de perto as dificuldades de lidar com as perdas de entes queridos.
Esse é mais um relato pela ótica de quem vê bem de perto a dificuldade das perdas e fatalidades sofridas por inúmeras famílias.
Desde muito jovem sempre me dei muito bem com o assunto “morte” apesar do medo que me era colocado sobre esse assunto, me via encantada com a anatomia humana e intrigada sobre os mistérios que permeavam tanto a morte em si, quanto o pós – morte. Aos 20 anos logo após um aborto espontâneo resolvi estudar sobre esse assunto tão delicado e polêmico, isso foi o que também me auxiliou a entender o porque é tão dolorido perder alguém. Na linha da vida a única coisa certa é a morte no final, no mais tudo se finda nas crenças religiosas e histórias passadas de geração em geração, muitos passam a vida pensando e estudando sobre e mesmo assim, não se sabe ao certo o que há após o fim da vida nesse corpo físico que carregamos.
Para cristãos existe um céu e um inferno ao qual estamos designados a ir, para os Espíritas existe a vida após a morte, no Candomblé nossos entes que fazem a passagem viram ancestrais, isso entre milhares de outras crenças e milhares formas de culto que existem no mundo.
O que nós realmente sabemos é que existe o fim do corpo material e hoje eu dedico meu tempo aos cuidados dos corpos dos que se foram, levar o conforto necessário para as famílias me traz o conforto das perdas que já tive e que sei que ainda terei, meu trabalho é baseado no respeito a um corpo que já teve uma vida e uma história, respeito a uma família que perdeu alguém muito querido. Muitos pensam que é simples o trabalho daqueles que recebem seus entes queridos para preparar para a despedida final do corpo terreno, e não é! Em grande parte das vezes nos colocamos no lugar dessas famílias, vemos os estados em que chegam alguns corpos e muitas vezes é impossível entregar ao menos a possibilidade de fazer um velório com a urna (caixão) aberta.

Para quem acredita, lida-se com o espírito do recém-partido que às vezes ainda nem entendeu o que se passou, mas, também estamos entregando ali muitas vezes a última imagem de um ente muito querido. Em pouco tempo lidando com esse mundo já vi os mais diversos tipos de reação no momento de descoberta do óbito, risos de nervoso, desespero, catatonia, desmaios e o final quando cai a ficha é sempre o choro que vem à tona, soluços pelo entendimento que aquela pessoa não voltará para ser abraçada, nem partilhar momentos juntos.
Hoje como a auxiliar de necrópsia que cuida dos seus que já se foram, que já viu corpos desde bebês com pouquíssimo tempo de nascidos a idosos com seus mais de 90 anos, eu aconselho, aproveitem cada momento com os seus, cuidem, beijem, abracem, perdoem, pois, essa pode ser a última lembrança que você tem das pessoas que ama!
por Ninha Sousa

Auxiliar de Necrópsia
Apresentadora
Locutora
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