Perspectivas #13: Ciclos / Círculos
Nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.
E vamos de fim de ano, então? Parece que não tem como fugir daquela reflexão costumeira, de finais de ciclos, recomeços e coisa e tal. Gostamos de ciclos, nós, pessoas. Funcionamos dessa forma, se pararmos pra pensar: dia e noite, estações do ano, fases da vida, o ciclo dos anos, das gerações... E nós aqui, no meio disso tudo, tentando entender alguma coisa enquanto esperamos o especial de fim de ano do Roberto Carlos - que tá logo ali na esquina, quase na hora já.
Bom, mais um ano que se encerra, e esse texto vai se esforçar para trazer alguma coisa que colabore com toda reflexão que esse momento nos desperta. O que o ano novo espera de ti? Existe alguma coisa que tu gostarias de transformar na tua vida, ainda que o caminho para essa transformação seja longo e que os passos sejam curtos? Acho importante nos colocarmos como protagonistas da nossa própria vida, agentes transformadores do nosso caminho e do mundo em que vivemos. Não somos passivos diante da existência, afinal de contas, e tudo o que escolhemos, de uma forma ou de outra, importa. Não, nada de efeito borboleta por aqui, é só que não tem como escapar mesmo, e nem reescrever as coisas. O que tá feito, tá feito, e recomeços nunca são do zero - eles sempre partem da experiência anterior. E nessa onda de se colocar como protagonista, escritor, da própria história, a liberdade anda de mãos dadas com a responsabilidade e com as consequências das nossas escolhas.
Pessoas que desenvolvem compulsões comumente sofrem por conta de círculos que parecem não ter fim, eu sou uma dessas pessoas. Claro que não são apenas essas pessoas que sofrem por algum tipo de círculo repetitivo, a coisa é mais comum do que parece, mas quis me usar de exemplo. E quando eu decidi enfrentar os meus círculos eu tive a obrigação de assumir as rédeas da minha vida. Ou eu controlava as minhas ações, ou eu me deixava levar pra um lado que não me apetece - por escolha minha, não há como escapar. Tive que fechar um ciclo para sair de um círculo eterno, o que me levou a outro ciclo - passei a buscar recuperar coisas importantes para mim e entender melhor quem eu era, quem eu estava sendo e quem eu queria ser.
E vamos de psicoterapia. Ainda não consegui romper completamente aquele círculo, mas pelo ciclo ser outro já me sinto grato. Círculos não têm aberturas para crescimento, não têm fechamentos, eles só andam em voltas constantemente. Aí entramos nas repetições, fazer todo dia a mesma coisa pelos mesmos motivos, algo que beira o sem sentido - e muitas vezes alcança essa falta de sentido. Os primeiros passos para sair de um círculo podem ser difíceis e sofridos, mas pelo bem dos ciclos saudáveis esses passos difíceis podem valer a pena. E existem vários tipos de círculos possíveis na vida: nos desejos, nos relacionamentos, no trabalho, no dia a dia. Sempre vale a gente pensar em como a vida está sendo pra nós e se há algum tipo de transformação a ser feita. Fins de ano são especialmente bons momentos para fazer essas avaliações.

Atribui-se à Nietzsche a frase "nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo", e esse texto é para lembrar da importância de sermos inteiros em tudo o que fazemos. Lembrar que somos autores da nossa história, construtores de nossas perspectivas e exploradores da nossa própria existência. Lembrar que o ano muda, mas que a vida só muda quando nós mudamos primeiro, que a primeira mudança é sempre interna - e que novas perspectivas surgem à medida que certos ciclos se fecham e, assim, abrem espaço para o surgimento de outros.
Que o próximo ano te ofereça muitas portas e oportunidades boas, mas que principalmente tu encontres abertura interna pra atravessar essas portas e agarrar essas oportunidades - se esse for o teu desejo e se te fizer sentido. Que esse ciclo que se fecha agora dê lugar a outro, um melhor pra ti e para todos aqueles que tu guardas no teu coração. Que tu possas romper com os círculos que te prendem e explorar novas possibilidades de existir de forma plena, alinhada aos seus valores pessoais e àquilo que é significativo para ti.
Obrigado a todo mundo que parou por alguns minutos para ler não só as minhas, mas as palavras de toda essa equipe maravilhosa da Aqui de Casa, que sempre tem muito a dizer. Obrigado por acompanharem a gente nas programações, a presença de cada um de vocês é fundamental. Desejo um feliz natal, um ótimo ano novo e muitas emoções com o especial do Roberto Carlos - que tá logo ali na esquina, quase na hora já. Aquele abraço do seu “amIgor” colunista, fiquem bem e até o nosso retorno!
por Igor Jeske

Psicólogo
Músico
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