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A Última Volta no Carrossel

[...] sentiu o vento acariciar seu rosto e, com um sorriso tranquilo, atravessou os portões. Estava pronto para ir para casa.

A Última Volta no Carrossel
A Última Volta no Carrossel (Foto: Reprodução)

Não se sabia se era a primeira vez que ele entrava naquele parque de diversões, mas as luzes brilhavam em tons que ele nunca tinha visto antes. O som dos risos era música, e o ar tinha um frescor quase doce, como se o mundo inteiro tivesse decidido ser gentil naquele momento.

Ele começou pela roda-gigante, onde o vento bagunçou seu cabelo e o horizonte parecia um abraço infinito. Depois, encarou a montanha-russa, sentindo o frio na barriga que era puro entusiasmo misturado com um pouco de medo — mas um medo bom, que fazia os olhos brilharem mais.

Andou de carrossel, ganhou um leão de pelúcia no tiro ao alvo, provou algodão-doce azul que tingiu sua língua e dançou com as músicas que vinham de uma barraca de jogos. Era perfeito. Cada momento era uma pequena explosão de alegria.

Mas, com o passar do tempo, algo dentro dele começou a mudar. Ele começou a sentir um cansaço suave, mas não era só isso. O parque ainda era lindo, mas algo mais profundo o inquietava. Ele olhou ao redor e percebeu que já tinha vivido tudo o que poderia ali. Cada brinquedo, cada risada, cada pedaço de diversão parecia já ter sido explorado, e, embora fosse encantador, ele percebeu que o parque não tinha mais nada a oferecer além daquilo que ele já havia experimentado. Ele se deu conta de que tudo aquilo só tinha sido tão especial porque ele havia se entregue por completo, sendo ele mesmo em cada momento.

O prazer das cores, das risadas, do vento no rosto, foi intenso, mas agora ele sentia que o brilho das luzes já não chamava mais. Ele não queria mais correr atrás de algo que já sabia que não iria encontrar ali. O desejo de ir para casa surgiu não como um cansaço físico, mas como uma necessidade de descanso, de voltar para um lugar onde ele poderia ser, sem precisar procurar por mais.

Foi então que encontrou o Dono do Parque. O homem de olhar sereno o observou por um momento, até que ele, finalmente, perguntou:
— Tem algum lugar aqui onde eu possa descansar?

O Dono inclinou a cabeça, como se esperasse por essa pergunta.
— Por mais divertido que seja, chega uma hora em que o descanso chama. Ninguém quer ficar aqui pra sempre, não é? — ele disse, apontando para o portão. — Aqui não tem lugar para descansar, mas a saída é ali.

Ele ficou em silêncio, observando as luzes que ainda brilhavam, as crianças que corriam com balões nas mãos e os risos que continuavam ecoando pelo parque. Era um lugar maravilhoso, mas agora ele entendia que já tinha vivido o suficiente para saber que a verdadeira alegria estava em deixar o parque para trás, sem medo de se despedir. Não era o parque que lhe dava a felicidade, mas o que ele se permitia viver ali, sendo quem era.

O medo da partida, que antes o assustava, desapareceu. Ele já não sentia falta de nada, porque havia se entregado totalmente àquele momento. Ele havia se divertido até onde poderia, exatamente porque foi ele, com sua essência, que fez daquele lugar algo especial.

Quando chegou sua hora, ele deu uma última volta no carrossel, sentiu o vento acariciar seu rosto e, com um sorriso tranquilo, atravessou os portões. Estava pronto para ir para casa.



por

Amanda Beatrice

Colunista

Apresentadora do Cartas Que Cantam

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