Amores Líquidos e o Dedo Podre
[...] Não, a amor não é um refrigerante.
Se o amor é líquido, porque ainda estamos com sede?
É uma bela metáfora no intuito de representar às nossas fragilidades nas relações afetivas. De acordo com Zygmunt Bauman, em sua obra - Amor Líquido, nossas relações afetivas na sociedade moderna são líquidas, ou seja, estão constante transformação e movimento, o que traz uma ideia de uma longa sequência de reinícios, com finais rápidos, o que explicaria a falta de durabilidade e também a falta de experiência com a temida dor ou luto pelo fim de uma relação. Bauman, ainda defende a ideia de que a insegurança e a incerteza são parte do processo de estrutura do sujeito moderno. Será?

"Será que eu sou medieval, baby, eu me acho um cara tão atual, na moda da nova idade média, na mídia da novidade média...". É Cazuza, será que eu sou medieval? Eu que só quero "a sorte de uma amor tranquilo", alguém que faça "parte do meu show".
O conceito do "dedo podre" possui muitas vertentes de opinião, vários fatores devem ser considerados, todos possuem uma importante reflexão sobre o comportamento humano e suas consequências, mas ainda assim, questionamentos pairam minha mente inquieta e introspectiva. Será o amor assim tão volátil? Que se vaporiza a menor pressão da temperatura do compromisso da tão solicitada responsabilidade afetiva?
Ah, meus amigos. Ah, como eu amei. Amei por mim e amei por elas. Me diminui, me apaguei, me contorci, me mutilei, morri e renasci para continuar vivendo. Nesta sucessão de relacionamentos fracassados, vi minha autoestima ser enterrada e instaurei em mim um dos piores sentimentos humanos, a rejeição. Uma dor insuportável que te traz questionamentos em lugares onde não existem respostas. Mas como consegui lidar com tudo isso? Parafraseando uma frase que ouvi do Igor Jeske, nosso colunista: “a dor não acaba, ficam as marcas, mas a vida cresce em torno da dor” e assim segue-se a dança.

Assim, passei a encarar as relações com mais leveza, mas veja bem, leveza, não superficialidade. Mas será que conquistei a imunidade para com essas relações? Obviamente que não. Nós seres humanos possuímos uma tendência a repetir ciclos! Algo que filosofias explicam como um aprendizado incompleto de uma lição. E qual era a lição incompreendida que me fez repetir tantas e tantas vezes? Hoje respondo com muita tranquilidade: me faltava amor-próprio e respeito por mim mesmo.
Para mim, o famoso “dedo podre” nada mais é do que um alerta de experiências repetitivas e superficiais, um sinal de que nossas escolhas podem estar sendo equivocadas e que uma avaliação precisa ser iniciada. Repetir ciclos dolorosos é sinal que algo está errado. Primeiramente você precisa compreender que já é um ser humano completo e que uma relação é um complemento para a vida, mas para se chegar até ai, você precisa saber o que lhe fará dizer sim e o que lhe fará dizer não. Compreender o que se quer em uma relação afetiva é fundamental para não cair em determinadas “ciladas”. Não dá para aceitar menos do que você merece.
Veja bem, as relações atualmente se baseiam em um ‘match visual’ e na satisfação sexual instantânea, para que depois possa evoluir ou não para algo minimamente responsável, mesmo que com prazo de validade preestabelecido. São as relações líquidas a que Bauman se refere. Mas será que é exatamente isso que nós realmente queremos? Particularmente gosto de relações sólidas, seguras, coerentes, baseadas em diálogos profundos e afetuosidade. O amor até pode ser líquido como a água, elemento essencial à vida, mas o amor tem sabor, cor e aroma.
E antes que alguém que pergunte: Não, a amor não é um refrigerante.
por Jeff Soares

Músico, Web Designer, Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
& do MPB Café
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