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Perspectivas #15: A Arte da Escutatória

A gente ama quem escuta bonito.

Perspectivas #15: A Arte da Escutatória
Imagem Internet/Pixabay

Acho muito interessante pensar sobre as diferenças entre os processos de "ouvir" e "escutar". Muito embora a gente utilize no dia a dia essas palavras como sinônimos, o sentido delas pode ser bem diferente - e para o Perspectivas de hoje, essa diferença é crucial. "Ouvir" é um processo fisiológico, se relaciona à nossa capacidade de captar e perceber sons diversos ao nosso redor. Se pararmos por um momento e colocarmos a nossa atenção ao que nossos ouvidos captam, observaremos a imensa quantidade de sons que existem ao nosso redor a qualquer momento: sons de perto, sons de longe, sons de muito longe, sons de dentro da gente... Por outro lado, "escutar" envolve um algo mais, uma atenção ao conteúdo do que se escuta, aos seus significados, um trabalho ativo de compreensão daquilo que se escuta. Ouvir pode ser algo mais automático, mais passivo, enquanto que escutar é um processo ativo e intencional. E por que dessas explicações todas sobre o sentido de duas palavras parecidas? Porque talvez a gente mais esteja ouvindo do que escutando as pessoas. Vem comigo, vamos brisar em algo importante.


Eu acho o Rubem Alves um cara espetacular. Foi um grande educador, pensador, escritor, professor e muito mais. Adoro um texto dele em que ele fala sobre a importância de termos cursos de "escutatória", já que de oratória, segundo ele, já se tem bastante. Em outro texto ele relaciona o amor à escuta, afirmando que a gente ama mesmo não quem fala bonito, mas quem escuta bonito. Escutar é algo mais sutil, talvez mais complicado, já que não envolve apenas responder de forma mais ou menos automática, mas, sim, compreender. Foi dele que eu desenvolvi um princípio que levo para a minha vida e para o meu trabalho: "escutar é um ato de amor".




É muito interessante perceber o poder de um momento de presença, estando ali com o outro, com os nossos julgamentos e pitacos deixados de lado. Por vezes a gente se pega pensando no que dizer a uma pessoa que nos relata um problema, uma dificuldade. Bate aquela dúvida sobre o que dizer para ajudar, para propiciar um conforto, um alívio. Claro que umas boas palavras de apoio são bem vindas, mas se engana quem acha que apoio, nesses contextos, só consiste em falar. Não vamos subestimar o poder dos ouvidos e da nossa presença, num ato amoroso de escuta e compreensão, com interesse genuíno. Tive uma professora que falava em “estar com”, ela se referia justamente a esse estado de presença, de estar com o corpo e a cabeça ali, atentos e gentis, naquele encontro com o outro. Não sabe o que falar? Escute com atenção, sem se preocupar com o que dizer. Escute, sem julgar, sem apontar dedos nem tentar encontrar uma brecha para uma super resposta reveladora: só escute, esteja ali. É meio caminho andado.


A gente muito fala, pouco escuta. E, de certa forma, com razão tem o desejo e a necessidade de falar, já que a escuta parece que “não dá em árvores” nos dias de hoje. Tão pouco se escuta que nem escutamos a nós mesmos por vezes. Quanta gente com dificuldade em lidar com o silêncio, com a quietude? Precisando de barulho, uma TV, uma tela, a todo momento do dia? No silêncio as nossas gavetas se abrem, a gente entra em contato com a gente, e por vezes com pedaços da gente que não queremos escutar naquele momento, pedaços que a gente evita e afasta com o barulho. E cadê os cursos de escutatória? Rubem, nos diga! Nessa parte do texto eu lembrei que tive uma camiseta que dizia “falar é uma necessidade, escutar é uma arte”. Sejamos artistas da escuta, seja com o outro, seja conosco mesmos. Bora praticar essa arte, esse ato de amor. Escutar a si, escutar o outro - a tal da arte da escutatória.


Sigamos pintando perspectivas.

Com carinho.


por Igor Jeske

Psicólogo

Músico

Colunista

Comentários (1)

Isane D'Avila
Isane D'Avila

Igor sempre excelente! Quando pensa e quando expressa.

1 ano atrás