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Tocando Agora:

A Cruz

[...] a lembrança de que todos carregam cicatrizes invisíveis.

A Cruz
Imagem Internet

Ela era uma mulher de espírito livre, que sabia o que era sentir a força de sua essência, mas também o peso da opressão. Pomba Gira, nascida de uma linhagem de mulheres que, por séculos, haviam sido subjugadas pelo medo, pela culpa e pela dor. A história dela se passa em um tempo longínquo, quando as chamas da Inquisição consumiam mais do que corpos: queimavam almas, destruíam a fé, e faziam a verdade se esconder atrás de máscaras de obediência. Mas, como todas as mulheres ancestrais, ela não seria domada. Sua luta seria silenciosa, mas feroz.


Quando criança, era vista como comum, com os olhos curiosos e o sorriso tímido de quem carrega segredos que nem ela mesma entende. Mas os olhos inocentes logo perceberam as sombras que pairavam sobre sua vida. E, à medida que foi crescendo, entendeu que o mundo em que vivia não aceitava sua autenticidade, suas vontades, seu ser. Ela foi silenciada pela Igreja, uma instituição que condenava qualquer vestígio de poder feminino. A dor foi se acumulando dentro dela, transformando-a em uma mulher que, ao invés de se curvar, aprendeu a se defender.


Nas noites frias de pedra, onde as paredes da sua casa pareciam sussurrar segredos, ela buscou refúgio nos rituais antigos, nas orações das mulheres de sua linhagem. Mas a mentira, como uma armadura, tornou-se a sua sobrevivência. Ela mentiu para o mundo, inventou histórias sobre si mesma para escapar do julgamento e da condenação. Cada mentira era um escudo contra os inquisidores, contra as acusações infundadas, contra os olhos cruéis que a observavam.


O medo era seu companheiro constante. Medo de ser descoberta, de ser queimada viva na fogueira da ignorância, de ter sua alma consumida pela mão rígida da moralidade. As mentiras eram pequenas proteções, mas, ao mesmo tempo, tornavam a sua vida um labirinto sem saída. A pressão era sufocante, pois, enquanto tentava se proteger, também se afastava das pessoas, que a viam como manipuladora, perversa, uma bruxa. O que ninguém sabia é que ela mentia para sobreviver, não por prazer.


A dor que ela carregava não era visível para aqueles que a rodeavam. Ninguém sabia das noites solitárias, das lágrimas que secavam antes que alguém pudesse ver, da sombra da morte que se estendia sobre sua cabeça. Cada mentira que ela dizia a afastava mais da verdade de quem realmente era, mas também a mantinha viva. As mulheres como ela eram queimadas por apenas ousar existir. E ela sabia disso, sabia que a liberdade que buscava estava à beira da morte.




Mas o peso de viver sob a máscara da mentira se tornou insuportável. Quando finalmente foi acusada, foi chamada de bruxa, de mentirosa, de mulher que tinha poder sobre os homens. Nenhum olhar de compaixão, nenhum abraço. Só a condenação. Só o fardo da inquisição. Não havia espaço para a sua verdade, para a dor que ela carregava. Ninguém perguntou por que ela havia mentido, por que as histórias se entrelaçavam com a dor e o medo. Tudo o que viam era uma mulher quebrada, disfarçada em mentiras. Mas ninguém sabia das chamas internas que queimavam dentro dela, das marcas invisíveis deixadas pela opressão.


Mas, com o tempo, ela percebeu que a libertação não viria dos outros. O acolhimento que ela tanto buscava, ela mesma precisaria dar. O julgamento das outras pessoas, a cruz que ela carregava, não poderia mais definir quem ela era. Sua força estava em abraçar a verdade, mesmo que esta fosse dura e dolorosa. Ela precisava se olhar nos olhos e se aceitar. As mentiras foram uma maneira de sobreviver, mas ela não poderia mais viver sob o peso delas. A força de quem ela era, a verdadeira mulher por trás das mentiras, precisava ser revelada.


E assim, em uma noite silenciosa, ela finalmente se deu conta de que sua verdadeira liberdade estava em se libertar das correntes invisíveis que ela mesma havia forjado. Ela não era vilã, nunca foi. Era uma mulher que, na tentativa desesperada de se proteger, se perdeu em um mundo que a negava. Mas, ao final, foi sua coragem de se encarar, de olhar para as cicatrizes e aceitar que o medo e a dor faziam parte de sua jornada, que a libertou.


A mentira, por mais que tenha sido sua armadura, não poderia ser sua redentora. Ao encarar a verdade, ela se permitiu respirar pela primeira vez, a libertação chegou não nas palavras ditas, mas nas que ficaram guardadas, nas que ela encontrou dentro de si mesma.


Ela, uma Pomba Gira que viveu na época da Inquisição, é a lembrança de que todos carregam cicatrizes invisíveis. E que, muitas vezes, a mentira é uma resposta ao mundo que não oferece espaço para o acolhimento da dor alheia. Mas, no final, o que ressurge das cinzas não é só a verdade, mas a força imensurável de quem aprendeu a se aceitar.



por Amanda Beatrice

Colunista 

Apresentadora do Cartas Que Cantam

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