Quando Os Heróis Também Choram
[...] por que vocês nos roubam?
Agora a pouco me deparei com um vídeo onde um repórter pergunta a um Pai: O que teve no café da manhã hoje? Nada. Respondeu timidamente o homem, com meio sorriso no rosto, para esconder a fome, a vergonha e a dor da miséria. Ainda assim o repórter insistiu com os filhos: Qual seu prato predileto? Perguntou ao mais velho. Arroz e carne, respondeu com os olhos cheios de lágrimas. Ao mais novo, fez o mesmo questionamento e ouviu a seguinte resposta: Arroz e feijão.
Esse vídeo no Instagram me derrubou, por completo! E confesso que estou aqui sem conseguir esconder as lágrimas, porque me sinto inútil, impotente e privilegiado por ter um prato de comida em casa! Queria eu ter condições de alimentar toda criança que sente fome nesse País, mas eu não posso. É muito difícil para mim, lidar com a vivência fragilizada de uma criança, que passa fome, sede, frio e todos os preconceitos possíveis, dentro de uma sociedade hipócrita e cruel como a nossa. Queria pedir perdão a esses garotos, porque nós falhamos com eles, nós falhamos.

Às vezes converso com Deus e com meu Pai Xangô, e questiono: será que é justo? Será que vamos ter que aceitar até o fim, ver irmãos e irmãs perecendo pela pobreza em um mundo onde os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres?
Então, lembrei de uma cena muito profunda de Saint Seiya Omêga, onde o personagem Harbinger, o Cavaleiro de Touro, em uma luta mortal, questiona o inimigo:
[…] Infelizmente, eu não conheço o amor. Também nunca tive um dia de paz. Afinal, sou um bandido, que foi nascido e criado como lixo. Para nós que nascemos e crescemos no meio do lixo, não faz a mínima diferença quem está governando. Não importa o quanto rezemos para Deus, nada muda. Nossas vozes não os alcançam. A única coisa que posso contar é com meu punho. Mas vocês são iguais a mim, atacam os fracos a troco de nada e punem os que resistem. O que estão fazendo não é nada diferente do que os bandidos por aí fazem. Isso me deixa enojado.
E concluí:
[…] Por que vocês nos roubam? Porque torturam os humanos mais fracos com o poder? Por que os mais fracos têm que perder tudo? Por que humanos inocentes e indefesos perdem seu direito de viver?
Vejam bem, o personagem se compara a um bandido por ter sido abandonado e vivido na extrema pobreza, por se sentir abandonado pelo sistema, assim duvidando da própria fé e capacidade, onde finaliza questionando a sede de poder e a opressão aos mais humildes, exercida pelos poderosos. Será que isto é só um diálogo comum de um Anime ou o recorte de uma realidade? Será que não é esse o sentimento dos filhos do Pai que não tinha o que comer? Será que eles não se sentem como marginais, bandidos? Será que não questionam o silenciamento de suas vozes?
Então, políticos, por que vocês nos roubam? Porque oprimem as pessoas em condições de vulnerabilidade, porque promovem a violência, o terrorismo político, o preconceito, a fome? Por quê? Por que roubam os sonhos das crianças?
Para aquele menino que encheu os olhos de lágrimas, para dizer que gostava de arroz e carne, muitas vezes irão lhe dizer, que a dor não combina com os heróis. Ele resistirá, ele não tem alternativa, precisa continuar vivendo, mas, muitas vezes, os heróis sem capa como ele, também choram.
por Jeff Soares

Músico, Web Designer, Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
& do MPB Café
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