cover
Tocando Agora:

O Que Acontece no Seu Cérebro Quando Você Navega no Celular

Confira 3 dicas para evitar que isso se torne compulsivo!

O Que Acontece no Seu Cérebro Quando Você Navega no Celular
Imagem Internet

Um vídeo de um gatinho, a foto de uma amiga curtindo a praia, um meme engraçado, uma notícia de um lugar distante — os conteúdos se misturam em uma sequência infinita. Se algo te interessa, você para e assiste; se não, desliza para o próximo. O hábito de passar o dedo pela tela do celular já se tornou rotina para muitas pessoas — seja por alguns segundos enquanto esperamos o elevador, seja por horas antes de dormir.


O primeiro ponto a compreender é que o ato de pegar o celular e começar a deslizar a tela acontece quase que automaticamente, como um reflexo. Não percebemos isso porque esse hábito foi construído gradualmente ao longo do tempo. Assim que ativamos a tela do celular, determinadas funções do nosso cérebro entram em ação, trabalhando em sintonia com o design inteligente dos aplicativos. O comportamento de deslizar a tela pode ser compreendido como parte da natureza humana, mas é intensificado por influências externas.


Somos naturalmente programados para querer saber o que está acontecendo ao nosso redor. É por isso que lemos notícias ou diminuímos a velocidade ao passar por um acidente na estrada. Esse instinto está profundamente enraizado no nosso desenvolvimento evolutivo, que foi essencial para a sobrevivência. Os celulares, por sua vez, foram projetados para nos oferecer um fluxo contínuo de informações que capturam nossa atenção. É uma combinação quase perfeita: a busca incessante pelo prazer e o fornecimento constante de estímulos.


Nossos cérebros são naturalmente programados para buscar recompensas. Certos centros neurais reagem ao prazer e esperam que essas experiências se repitam várias vezes. Estamos constantemente em busca daquela novidade, daquela próxima dose de prazer, qualquer que seja a fonte que nos proporcione satisfação. Esse processo é conhecido como sistema ou circuito de recompensa do cérebro. É o mesmo mecanismo que leva uma pessoa a desenvolver dependência de substâncias, como o álcool, por exemplo.


"Para muitos de nós, essa fonte de novidade é o nosso telefone." As redes sociais, em especial, estão sempre prontas para oferecer algo novo e prazeroso: uma foto, um vídeo, uma notícia, uma mensagem ou aquele irresistível vídeo de gatinho. No entanto, existe outra parte do cérebro que tenta conter esses impulsos por prazer e gratificação imediata: o córtex pré-frontal.




Essa é a região do cérebro que ajuda você a tomar decisões mais racionais e equilibradas — como parar de rolar a tela do celular, levantar do sofá e decidir organizar a casa ou fazer exercícios físicos. No entanto, essas duas funções cerebrais nem sempre trabalham em perfeito equilíbrio. O que acontece com muitas pessoas é que "a parte lógica do cérebro, responsável por controlar os impulsos, não está funcionando como deveria ou está sobrecarregada pela constante busca por prazer".


E esse desequilíbrio é ainda mais evidente nos jovens. "Nos adolescentes, o circuito de recompensa está em alerta máximo, sempre pronto para ser ativado. Porém, o córtex pré-frontal, que é a parte responsável por controlar os impulsos, só se desenvolve completamente por volta dos 23 ou 24 anos. Por isso, eles têm mais dificuldade em controlar certos comportamentos, como o uso excessivo do celular.


DISTORÇÃO DO TEMPO

Quando rolamos a tela do celular, entramos em um estado conhecido como fluxo. Na psicologia, o fluxo é um estado mental em que a dificuldade de uma tarefa se ajusta perfeitamente ao nível de atenção e habilidade que a pessoa pode oferecer naquele momento. Aplicativos como o TikTok, que utilizam algoritmos para oferecer constantemente conteúdos novos e personalizados, alimentam diretamente esse estado de fluxo.


"Eles capturam toda a sua atenção, colocando você em uma espécie de distorção temporal, onde duas horas podem passar sem que você perceba. Você se dá conta apenas quando está com a mão dormente, tendo passado todo esse tempo assistindo a vídeos de gatinhos." Esse processo pode ser comparado a um caminho que é trilhado repetidamente: ele se torna mais evidente e mais fácil de seguir. Assim, ao rolar a tela constantemente, essa experiência se torna a sua "configuração padrão", dificultando o foco em outras atividades ou o uso mais consciente do tempo.


Se você já tentou controlar esse hábito e não conseguiu, talvez seja hora de buscar ajuda. Embora a dependência do celular ainda não esteja oficialmente reconhecida nos manuais de diagnóstico psiquiátrico, isso significa que não há critérios claros para diferenciar o uso saudável do uso problemático — e, por consequência, da dependência.


COMO EVITAR A ROLAGEM DE TELA COMPULSIVA

1. Passar Um Tempo Longe da Tela

Adotar pequenos rituais para se afastar do celular pode ser extremamente benéfico. Pesquisas indicam que até mesmo algo simples, como caminhar sem levar o celular, pode ter um impacto significativo. Sempre que possível, deixe o telefone em casa e aproveite para dar uma caminhada ou ir à academia. Eu mesmo faço isso de vez em quando, e é algo que realmente ajuda. Esse hábito não é apenas útil por impedir o uso do celular durante esse período, mas também porque permite que você preste mais atenção ao ambiente ao seu redor, estimule outras funções cerebrais e perceba como é estar desconectado.


Estabelecer regras, como não usar o celular à mesa enquanto estiver com a família ou amigos, também é uma excelente prática. Além de não depender apenas de você, outras pessoas podem ajudá-lo a lembrar dessa regra. Para reforçar, uma ideia simples e eficaz é usar uma cesta ou caixa onde todos coloquem seus celulares antes da refeição.


De forma geral, qualquer esforço consciente para diferenciar o tempo de uso do celular do tempo sem ele pode ajudar a evitar a rolagem automática, feita por puro hábito. Reservar momentos específicos para ficar longe do telefone, seja para focar em uma tarefa ou para estar presente com amigos, é uma ótima estratégia que eu recomendo.


2. Interagir Com O Mundo Físico

Fazer pequenas mudanças na rotina para realizar tarefas que normalmente fazemos no celular pode ser um passo importante para estabelecer uma relação mais saudável com a tecnologia e reduzir a dependência da rolagem de tela. Muitas vezes, sem perceber, usamos o celular para algo simples, como verificar a hora, e acabamos presos em uma sequência interminável de notificações e conteúdos. Esse hábito automático pode ser quebrado com um pouco de planejamento e criatividade.


Vamos ser corajosos e curiosos o suficiente para buscar estratégias que nos ajudem a reduzir o tempo de uso do celular, investindo mais no contato com o mundo tridimensional ao nosso redor. Por exemplo, se você está lendo algo, como um livro ou um artigo, opte pelo formato físico. Imprima algumas páginas, manuseie o papel, sinta a textura e o peso. Essa interação tátil nos conecta de maneira mais significativa com o conteúdo e com o momento presente.


Nós somos seres táteis por natureza, projetados para interagir com o mundo real. Tocar, sentir e explorar objetos físicos são experiências que estimulam nossos sentidos e nos ancoram na realidade. No entanto, estamos negligenciando esse aspecto essencial de nossa humanidade em favor de telas que, apesar de práticas, não oferecem a mesma profundidade de conexão.


Além disso, adotar pequenos truques no dia a dia pode fazer toda a diferença. Que tal usar um relógio de pulso em vez de olhar a hora no celular? Ou investir em um despertador físico para evitar o impulso de checar notificações ao acordar? Essas mudanças simples podem ajudar a reduzir a tentação de pegar o celular sem necessidade. Resgatar o prazer de viver no mundo físico não significa abandonar a tecnologia, mas aprender a usá-la de forma equilibrada e consciente. Afinal, o mundo real ainda tem muito a oferecer — e está esperando para ser explorado.




3. Tentar Controlar o Impulso

Raramente, quando sentimos o impulso de abrir um aplicativo para rolar a tela sem objetivo ou quando já estamos fazendo isso por horas, nos perguntamos por que estamos agindo assim ou se realmente estamos satisfeitos com essa escolha. Refletir sobre nossas decisões, nossos sentimentos e o funcionamento da nossa mente nesses momentos é uma intervenção poderosa que podemos adotar.


O impulso de pegar o celular é semelhante a sentir um desejo. Você percebe que seu corpo começa a ansiar por aquilo, enquanto seu cérebro envia um sinal: 'Ei, já faz um tempo desde a última dose de dopamina. Vamos buscar mais.' Esse desejo pode crescer gradualmente, como uma onda. No entanto, é possível resistir a esse impulso. Você pode reconhecer o que está acontecendo e dizer a si mesmo: 'Tudo bem, estou sentindo uma vontade intensa de olhar o celular e abrir aquela notificação, mas posso escolher não fazer isso agora.'


Essa resistência exige prática e comprometimento, mas os benefícios a longo prazo são notáveis. Quem se dedica a cultivar essa consciência e autocontrole geralmente percebe melhorias na capacidade de manter a atenção, sente-se mais satisfeito e encontra prazer em experiências fora das telas que enriquecem e dão mais significado à vida.


Com esforço e consistência, podemos transformar a maneira como lidamos com nossos impulsos, criando uma relação mais saudável com a tecnologia e abrindo espaço para momentos mais autênticos e significativos no mundo real.



por Jorge Braz

Fisioterapeuta,

pós graduado em Ergonomia.

Cursando Psicanálise

e um curioso sobre assuntos oníricos,

bem como neurociência.

Comentários (0)