cover
Tocando Agora:

Recordações da Infância

Um relato e reflexão de uma criança que viveu os anos 80 e 90!

Recordações da Infância
Imagem Internet/Pixabay

Quais as lembranças que você guarda da sua infância? Pois é, nesta tarde, lembranças invadiram o grupo da Aqui de Casa Web Rádio. Então decidi sintetizar histórias e contar um pouquinho da minha.


Nasci no final do ano de 1983, em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, menino mais velho de uma família preta, lembro-me que minha infância foi muito humilde, mas rica de lembranças e sonhos. Sempre fui o garoto diferente do rolê, não era muito adepto ao futebol e como a gente não tinha muitos brinquedos, me contentava em jogar bolinha de gude e sonhar em ser um super herói em batalhas épicas no pátio de casa.


Meu sonho de menino era ter um “Autorama”, um brinquedo que era supercaro na época, que nada mais era que uma pista de carrinhos que eram guiados por fendas onde a gente só controlava a aceleração, o desafio era vencer a corrida e não sair da pista que possuía várias formas e curvas, tudo isso em função de uma paixão chamada ‘Fórmula-1’, paixão que acabou no dia primeiro de maio de 1994 com a morte de Airton Senna, o meu herói de verdade. Outra paixão eram os Gibis, será que a garotada ainda sabe o que é isso? Não sei, mas ler os X-Men mudou a minha vida.



Autorama


Além disso, viver as aventuras das séries live-action japonesas que passavam na extinta TV Manchete, era tudo pra mim, sonhava em ser o Jaspion ou o Red Flash dos Flashman, séries que até hoje me trazem uma emoção e uma saudade intensa. Foram nelas que aprendi a importância de preservar a natureza, que precisamos cuidar do mundo, senão ele vai se acabar, e que é preciso salvar vidas, mesmo que seja dos seus inimigos. Principalmente que é preciso se levantar contra o mal e combater opressores.



Jaspion em HQs/Flashman HQs


Por crescer em uma família negra sem muitos recursos, aprendi a dar valor a simplicidade e ao que me foi oferecido de coração, ler bons livros e escutar boa música, foram a principal herança dessa época. Lembro exatamente de passar o sábado ouvindo música no rádio, esperando o pão quentinho enquanto Caetano cantava Felicidade de Lupicínio Rodrigues na Rádio Cultura AM, onde anos depois comecei minha trajetória no rádio. Saudades do pão de milho da minha Vó. Só de lembrar estou aqui sentindo até o cheiro. Bons tempos, de festas Juninas, de esperar pela Páscoa e pelo Natal. E quando digo hoje, que éramos felizes e não sabíamos, falo com absoluta convicção.


Vocês já provaram Araçá? Butiá? Guabiroba? Amora? Pitanga? Já pularam o muro para pegar bergamota e laranja do vizinho? Já jogaram Taco, Pebolim, Bola de Gude? Já brincaram de Pega-Pega, de Esconde-Esconde ou de apertar as campainhas dos vizinhos e sair correndo? Já soltaram pandorga (pipa para alguns)? Quem participou de guerra de Mamona? Que perigo, mas era bom demais. Mas preciso confessar uma coisa: depois de uma sucessão de tombos, joelhos ralados e o medo do ‘merthiolate’ (na época ardia muito), nunca aprendi a andar de bicicleta! Me julguem!


E as guloseimas das famigeradas ‘vendas’ do bairro? Bala de goma, Chicletes, Babalu, Ki-Suco, aqueles sucos em formato de brinquedo que eram só corantes (risos), a famosa e perigosa Bala Soft – a bala da morte, pois diziam que as crianças morriam engasgadas com ela, então o negócio era quebrá-la já no primeiro contato com a boca, mas ela quebrava dentes também, era muito sólida, um caso à parte na infância de quem viveu os anos 80 e a primeira metade da década de 90. Mas o que tenho mais saudades, são os refrigerantes de garrafa, além da Coca-Cola, haviam o guaraná Brahma de garrafa, principalmente o da garrafa escura, a Mirinda que era um refrigerante de laranja e principalmente o Minuano, um dos melhores refrigerantes de limão de todos os tempos, foi o primeiro refrigerante a ser vendido no Brasil em garrafas de vidro de 1 litro, foi comprado pela Coca-Cola e que acabou virando a Sprite, mas obviamente nunca mais foi a mesma coisa.



Sucos no Formato de Brinquedo


Bem, mas toda criança cresce e começa desenvolver outros hábitos, no meu caso, foi o gosto pela arte, ouvir o álbum Essa Mulher da Elis Regina e também Clara Nunes mudou a minha vida, a música tomou conta de mim, juntamente com a poesia de Vinícius de Moraes e Mário Quintana. Larguei as brincadeiras, por um Walkman (aparelho de bolso que funcionava a pilha e reproduzia Fitas K7), depois pela compra de Cds e pelo Diskman (aparelho de bolso/mão que reproduzia Cds), mais tarde pelos famosos celulares tijolões da Nokia, depois pelos MP3 (nunca tive MP4), mas já dominava o computador, a internet e seus baixadores de música como o Ares, Kazaa, eMule e o Limewire, que levavam uma semana pra baixar uma música. Sou da época do MSN (nunca usei ICQ), do saudoso Orkut e do Twitter (falecido recentemente), para hoje ser um escravo do smartfhone, do YouTube, Spotify e toda a parafernália de aplicativos e equipamentos tecnológicos que envolvem nosso dia a dia.



Walkman nos Anos 90


E a pergunta que me faço: será que as crianças de hoje entendem que existe vida além do celular, do tablet, do videogame e das redes? Será? Por que não perpetuamos algumas dessas experiências com eles? Por que não falamos com eles sobre música? Sobre poesia? Sobre a vida real mesmo. Será que falhamos? Já pararam pra pensar que um adolescente tecnológico só conhece o som feito por um computador e nunca ouviu falar em Cazuza, Legião Urbana, Tom Jobim, Tim Maia? Estranho não é? Mas será que dá tempo? Essa é a pergunta que não quer calar.


"A minha casa fica lá de traz do mundo

Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar

O pensamento parece uma coisa à toa

Mas como é que a gente voa quando começa a pensar?"

Lupicínio Rodrigues



por Jeff Soares

Músico, Locutor

Jornalista e Apresentador 



Comentários (0)