Perspectivas #16: Problematizando o Famigerado “estar com a terapia em dia”.
Para hoje, eis aqui algumas brisas sobre psicoterapia e saúde mental!
E tu, tá em dia com a terapia? Tu podes já ter escutado essa frase por aí, pela internet afora se tem muito disso. No começo da minha aproximação com a psicologia (isso uns 7 anos atrás) até me fazia sentido pensar na psicoterapia como algo necessário, quase que essencial para uma vida “nos trilhos”. Hoje, quase dois anos de serviço público têm me apontado a existência de um olhar pouco crítico em alguns meios em relação à importância da (psico)terapia.
Não me entenda mal, a psicoterapia (quando realizada com um profissional capacitado, crítico, ético e compromissado com a saúde em sua forma mais ampla) é algo extremamente importante e valioso para a promoção de saúde mental e prevenção de dificuldades maiores. Eu poderia jogar fora o meu diploma se não concordasse com isso. O propósito do texto NÃO É, de forma alguma, dizer que a “terapia é superestimada” ou algo assim. O que me causa certo incômodo é outra coisa: me refiro àquele discurso que traz uma ideia de que “estar com a terapia em dia” é algo tão imprescindível (beirando ao obrigatório) a ponto de que não fazer psicoterapia te tornaria um ser incompleto, um ser que não sabe sobre si mesmo, incapaz de curtir uma boa saúde mental e se relacionar de uma forma bacana consigo mesmo e com as outras pessoas. A verdade é que existem muitas questões a serem consideradas quando se fala em procura por psicoterapia, e não é como se todo mundo que não procura não o faz porque simplesmente não quer ou “tem resistência”.

Por um lado, cabe pensar que um acompanhamento semanal nem sempre é algo acessível quando consideramos uma média da realidade socioeconômica do brasileiro em 2025. Por outro lado, há que se considerar esse discurso de que “pra ter uma boa saúde mental é fundamental fazer terapia”, bem como as consequências desse discurso. E agora, José?
Vamos partir do princípio de que cuidar da saúde mental é algo abrangente. Claro que a psicoterapia tem seu lugar nesse espaço, e um lugar extremamente valioso. Uma boa psicoterapia calcada na ética, ciente de seu papel político e comprometida com a cientificidade e humanização é uma ferramenta extremamente poderosa no que se refere a autocuidado. Uma boa psicoterapia busca transformações a partir do contexto de cada pessoa (ou grupo) que a procura. Um bom profissional irá utilizar dos seus conhecimentos técnicos e princípios éticos no sentido de incentivar o empoderamento do sujeito e o protagonismo dentro de sua própria vida, o contato com os seus valores pessoais e a busca por uma vida mais significativa do ponto de vista do sujeito. Uma boa psicoterapia será colaborativa, uma espécie de “trabalho em equipe” entre o profissional e o sujeito. Uma boa psicoterapia tem um potencial transformador enorme. Mas uma boa psicoterapia “em dia” não é a única forma de cuidar da saúde mental. Como disse há pouco, esse cuidado é algo abrangente.
Saúde é um conceito, em si, bastante amplo. Não se entende mais a saúde como um sinônimo de “não ter uma doença”, hoje a coisa vai bastante além disso. A saúde está relacionada com o bem-estar físico, sim, mas também com o bem-estar emocional, social, familiar, financeiro, laboral. Existem muitos fatores a serem considerados como “de proteção” e “de risco” quando se pensa no sujeito como “biopsicossocial” - biológico, psicológico e social. Por mais que a psicoterapia seja uma ferramenta significativa na promoção desse bem-estar, ela sozinha não resolve tudo.
Saúde mental se faz com terapia, mas também se faz com bons vínculos com pessoas significativas. Se faz com melhores condições de trabalho, se faz com combate ao racismo, ao machismo, à homofobia, à transfobia, ao capacitismo. Saúde mental também se faz com um rolê bacana com bons amigos, com uma prática esportiva, com expressão artística, com o direito a um momento de ócio sem culpa. Se faz com inclusão, com o combate ao preconceito e estigmatização, combate ao bullying, se faz com o pertencimento ao lugar que tu ocupas na tua família, nos teus círculos sociais, no teu trabalho, onde tu estudas. Se faz com a garantia dos direitos humanos, das crianças e adolescentes, dos idosos, da mulher, das pessoas com deficiência e tantos outros grupos que se poderia citar por aqui. Saúde mental se faz com o entendimento de que o sofrimento é uma parte da vida inegável, mas não é o todo dela. Saúde mental se faz com conscientização sobre os fenômenos que estruturam nosso modelo de sociedade e que moldam a forma como nos relacionamos com nós mesmos, com o outro, com o mundo, com o trabalho, com o consumo, com o tempo. Saúde mental se faz com o pensar coletivo, se faz com a reivindicação de direitos. Se faz com uma postura crítica.
Terapia é maravilhoso, mas quando se fala em saúde mental se tem muito mais a se considerar. E em um país que registra anualmente tantas situações graves relacionadas a problemas envolvendo questões de saúde mental, pensar na psicoterapia individual é pensar em apenas um aspecto de uma melhora – e por mais importante que esse aspecto seja, há que se pensar o coletivo.

Além disso, a terapia (como já disse) é um lugar de empoderamento, de libertação. Não deve ser uma ferramenta de controle, não deve ser espaço de reprodução de estigmas e preconceitos, nem mesmo deve ser um lugar de adequação a uma realidade que explora e viola direitos. Deve ser espaço de reflexão crítica, inclusive quanto ao papel e às limitações da própria psicoterapia. Se todo mundo precisa fazer terapia? Não sei, talvez nem todo mundo precise a todo momento – e tudo bem. É bom, é indicado, é um ótimo investimento, com um potencial de transformação enorme. Todo mundo tem problemas, uma psicoterapia pode ser muito útil para compreendê-los de forma mais clara e nos fortalecermos para lidar com a vida da forma como ela se apresenta a nós, sendo agentes transformadores da nossa realidade. Mas também não precisa ser uma meta a ser batida como aquela meta de exercícios diários/semanais – até porque mais importante do que ir à terapia é comprometer-se internamente com ela.
Faça terapia, cuide de você. Se não puder fazer terapia, busque outras possibilidades de cuidado dentro da sua realidade neste momento. Saúde mental também é saúde. Quais as possibilidades de cuidado que tu tem à vista nesse momento? Listamos várias por aqui, quem sabe tu volta ali e dá uma outra olhada? De repente tem algo ali que pode te fazer sentido. Por aqui a gente segue fazendo pontes e pintando perspectivas.
Com carinho.
por Igor Jeske

Psicólogo
Músico
Colunista
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