Violência Contra Mulheres e o Futebol
Qual a Relação?
Como boa Colorada, ainda comemoro a vitória do Inter no Gauchão 2025. Mas, nosso texto da semana, não tem relação direta com isso. No dia do jogo em questão, ao rolar o feed do Instagram, me deparei com uma postagem sobre o aumento da violência contra mulheres em dias de jogos e, em razão disso, resolvi compartilhar com vocês minha pesquisa.
Inicialmente, importante referir que, não são muitos os estudos sobre o tema no Brasil, diferente do que ocorre em países como Inglaterra e Estados Unidos. Porém, os estudos já realizados apontam que a violência contra as mulheres relacionada ao futebol é um problema social, que abrange desde lesões corporais dolosas (de forma consciente e intencional), agressões físicas e ameaças. No entanto, é necessário esclarecer – imediatamente - que o futebol, por si só, não "causa" violência doméstica.
O aumento da violência se dá em razão do “aumento do consumo de álcool e altos níveis de emoção associados a grandes partidas de futebol”¹, conforme afirma Laís Alegretti, em pesquisa realizada em na Inglaterra. Aqui no Brasil, vulgo País do Futebol, a coisa não é diferente! Segundo Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon, 81% dos brasileiros disseram ter muito interesse em futebol, e 40% se declararam super fãs do esporte².
O Instituto Avon elaborou estudo, recomendado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, analisando bases de dados de violência de todos os dias de jogos do Campeonato Brasileiro, da série A, entre os anos de 2015 e 2018, em cinco capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Conforme levantamento realizado, em 2022: “em dias em que um dos times da cidade joga, o número de registros de Boletins de Ocorrência de ameaça contra mulheres aumenta 23,7% e o número de registros de B.O.s de lesão corporal crescem 20,8%3”. Já em dias que o jogo acontece na cidade sede do time, o aumento dos registros de lesão corporal sobe para 25,9%.
O estudo elaborado pelo Instituto Avon revelou que os boletins de ocorrências por ameaça são maioria entre mulheres de 30 e 49 em São Paulo e Rio de Janeiro, com percentuais de 49,7% e 49,6%, respectivamente, seguidas por Belo Horizonte, com 48% de registros. Já na análise de ocorrências por agressão física, a faixa etária mais afetada é de mulheres entre 18 a 29 anos, principalmente em Porto Alegre, cujo percentual corresponde a 37,4% dos casos. São Paulo vem na sequência, com 36,3%, seguida por Rio de Janeiro (35,9%) e Belo Horizonte (35,4%).

Por sua vez, o perfil racial das ocorrências é liderado por mulheres negras em Salvador e Belo Horizonte, que correspondem a mais da metade dos registros por ameaças e agressões. Na capital baiana, o índice ultrapassa 80%. Já no Rio de Janeiro, elas representam 5 em cada 10 mulheres. Parceiros íntimos ou outros familiares cometeram quase 6 a cada 10 assassinatos de mulheres no mundo em 2021, segundo relatório das Nações Unidas sobre violência de gênero. A taxa, de 56%, é cinco vezes a dos homens: 11% dos homicídios contra pessoas do sexo masculino ocorrem na esfera privada. "Enquanto a esmagadora maioria dos homicídios masculinos ocorre fora da esfera privada, para mulheres e meninas, o lugar mais perigoso é o lar", aponta a ONU.
Em 2021, cerca de 45 mil mulheres e meninas em todo o mundo foram mortas por seus parceiros ou outros familiares. Isso significa que no mundo, em média, mais de cinco mulheres ou meninas foram mortas, a cada hora, por alguém de sua própria família. Também importante referir que no Senado tramita o Projeto de Lei 4.842, de 2023, de autoria da Senadora Augusta Brito que Altera a Lei 14.448, que visa instituir campanha permanente de conscientização em arenas esportivas e respectivas transmissões dos eventos para a prevenção e o enfrentamento da violência contra a mulher.
Possivelmente os valores associados a subcultura dos jogos de futebol, que refletem em certa medida os valores do patriarcado e das relações de poder da masculinidade, repercutem nas relações afetivas. A causa se relaciona aos valores do patriarcado ainda muito presentes no país, sendo que o jogo de futebol pode funcionar como uma espécie de catalisador tornando mais vivos os valores da masculinidade e da forma como certos homens se vêm dentro de uma estrutura de poder quanto ao gênero, o que logicamente, impacta em temas relativos à violência contra mulheres.
Espero que este texto te ajude a saber um pouquinho mais sobre o tema!
Grande beijo!
por Luana Collet

Advogada
Apresentadora do Café com Lei
-------------------------------------------------------------------------------------------
1 - ALEGRETTI. Laís. Por que violência contra mulher aumenta em dia de jogo de futebol. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-63815180>. Acesso em 25/03/2025.
2 - Agressões físicas contra mulheres em dias de jogos de futebol aumentam, diz pesquisadora. Disponível em: <https://edestaquebrasilia.com.br/noticia/53804/agressoes-fisicas-contra-mulheres-em-dias-de-jogos-de-futebol-aumentam-diz-pesquisadora>. Acesso em 31/03/2025
3 - Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Futebol e violência contra a mulher. Disponível em: <https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/07/futebol-violencia-mulher.pdf>. Acesso em 31/03/2025.
Comentários (0)